Novidade e responsabilidade em jornalismo

(Crónica da edição de 6 de Maio de 2012)

A queda drástica da taxa de mortalidade infantil em Portugal nas últimas décadas é geralmente considerada um dos mais relevantes índices de progresso social que ficarão a marcar a nossa história recente. Sabe-se como, para esse percurso de sucesso, que guindou o país para lugares de topo a nível mundial na qualidade da saúde materno-infantil, contribuiu, em primeiro lugar, o investimento na reorganização da rede pública hospitalar, com vista a concentrar os partos em unidades de saúde dotadas dos equipamentos e recursos profissionais adequados. O nascimento em ambiente hospitalar tornou-se a regra: se há quarenta anos mais de 90% das crianças nasciam em casa, hoje o número de partos fora dos hospitais reduz-se a algumas centenas por ano.

Pelo menos uma parte desses partos domiciliários corresponderá a uma escolha deliberada. Há sinais de que em Portugal, como em outros países, se tem vindo a manifestar nos últimos anos, embora permaneça residual, uma nova tendência social (outros chamar-lhe-ão uma moda), que leva algumas mulheres, ou casais, a optar pelo chamado “parto natural” em casa. Quem faz ou apoia essa escolha argumenta geralmente com as vantagens do conforto e intimidade do ambiente familiar no caso de partos supostamente sem risco, em contraponto a um modelo de assistência hospitalar que vê como excessivamente medicalizado e intervencionista.

Esses argumentos são partilhados por quem se dedica ao acompanhamento remunerado dos partos domiciliários: alguns enfermeiros, parteiras e as oficiantes da uma nova profissão, conhecidas como doulas, que se definem como prestadoras de assistência emocional às parturientes. E são em geral contrariados por pediatras e especialistas em neonatalogia, que salientam os riscos desnecessários associados aos nascimentos em casa, por falta dos meios adequados para enfrentar complicações imprevistas.

“Gravidez de baixo risco não é igual a parto de baixo risco”, sublinhou há dias o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, Luís Graça, numa intervenção em que classificou a defesa do parto não hospitalar como um “regresso à idade das trevas”. Nos últimos meses, a polémica gerada pela nova visibilidade do recurso ao parto domiciliário — para a qual terão contribuído casos recentes de mães que correram risco de vida, e a morte, nos últimos anos, de pelo menos três bebés nascidos em casa — deu origem a tomadas de posição públicas, e contraditórias, das ordens dos Médicos e dos Enfermeiros.

Vem este preâmbulo a propósito da queixa que recebi de uma leitora sobre a peça intitulada “Aumento de partos em casa por falta de alternativas naturais nos hospitais“, assinada por Catarina Gomes na edição do passado dia 8 de Abril. Um trabalho jornalístico que, segundo a sua autora, terá visado “perceber o porquê [do recurso aos partos domiciliários] no século XXI como opção de mulheres com formação superior à média”, e ainda até que ponto as razões dessa opção estariam ou não a provocar “alguma mudança nos hospitais públicos”.

Não o entendeu assim a leitora Ana Maria Mesquita, que viveu recentemente uma tragédia pessoal: a morte, após horas de agonia, de uma neta recém-nascida em situação de parto domiciliário supostamente apoiado por uma enfermeira e uma doula. A morte da bebé, que deu origem a queixas às entidades competentes e a um inquérito à enfermeira envolvida, ficou a dever-se a um problema cardíaco dificilmente detectável antes do nascimento, mas susceptível de ser resolvido através de uma cirurgia urgente. “A criança poderia ter sido salva se tivesse nascido num hospital”, afirmou sobre o caso o presidente da especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, João Silva Carvalho.

A leitora viu no artigo do PÚBLICO uma “defesa do parto domiciliário, assistido por enfermeiros obstetras”, com “considerandos enviesados” e “dados incorrectos”, que “poderá orientar futuras parturientes para práticas inseguras”. E ainda “publicidade gratuita” ao “negócio dos partos em casa”. Não sendo possível transcrever nesta crónica a sua extensa argumentação, bem como as igualmente extensas explicações da jornalista, convido os leitores interessados neste tema sensível a consultar mais adiante esses textos. Poderão igualmente aceder ao artigo em causa no arquivo da edição on line. Cingir-me-ei, aqui, a alguns dos motivos de reflexão que considero mais relevantes na reclamação recebida.

Ana Maria Mesquita aponta ao artigo um erro de facto e várias omissões. O erro aparece logo no título, que refere um “aumento de partos em casa”. Na verdade, e de acordo com os números que a jornalista obteve do Instituto Nacional de Estatística, o número de nascimentos em casa teve neste início de século o seu valor mais elevado em 2007 (cerca de um milhar), tendo decrescido desde então. Ainda que se pretendesse apenas referir um “aumento” de casos de escolha do domicílio por “falta de alternativas naturais nos hospitais” — o que não está demonstrado nem resulta do que se lê no texto —, o título não deixaria de ser enganoso e de contrariar os dados disponíveis. Um erro grave no gráfico que acompanha o texto (exemplo de edição negligente, que não é da responsabilidade da jornalista) aumentava a confusão, ao dar a “informação” disparatada de que o número de partos domiciliários se situaria próximo do zero na década de 70 do século passado.

Quanto a omissões, a leitora sustenta que o tratamento jornalístico deste tema não deveria ter ignorado, entre outros, pontos como os seguintes: a ligação entre o número de nascimentos em casa (ainda que residual) e a existência de “um movimento organizado em defesa dessas práticas”; os interesses de enfermeiros e doulas que “vivem de um mercado ” caracterizado por preços elevados (chegarão aos 2.000 euros para as parteiras, mais umas centenas para as doulas, além de outras despesas); a existência de contratos de duvidosa legalidade, que procuram desresponsabilizar “os envolvidos nestas práticas (…) de tudo o que possa correr mal”; e, finalmente, os pareceres de autoridades médicas, portuguesas ou estrangeiras, desaconselhando os partos em casa.

Catarina Gomes contesta a veracidade do último ponto, recordando que “as reticências da classe médica” aos partos domiciliários são referidas de forma bem visível na entrada, e depois num parágrafo do artigo principal, bem como num segundo texto, em que se refere estarem a ser investigadas as mortes de três bebés nascidos em casa. Às outras objecções responde genericamente que se trata de questões exteriores aos “objectivos do trabalho”, o qual, insiste, pretendia retratar os motivos que levam um determinado número de mulheres a olhar com desconfiança a oferta hospitalar. Pareceu-lhe, escreve, ser esta “uma perspectiva bastante mais inovadora do que o já muito batido ângulo que dá conta da existência deste fenómeno”.

Por mim, não subscrevo as acusações de parcialidade ou de publicidade encapotada dirigidas à jornalista. O trabalho publicado a 8 de Abril não ignora as posições dos especialistas que desaconselham ou condenam o recurso ao parto domiciliário, embora me pareça claro que, na economia global do texto, existe algum desequilíbrio entre as posições em confronto.

Considero no entanto pertinente, e merecedora de reflexão no plano editorial, a maior parte das observações e reparos da leitora. O que está aqui em causa, a meu ver, não é a isenção. O problema é outro: é o do justo equilíbrio entre a opção jornalística por um ângulo “inovador” — no caso a tendência, ou moda, de uma pequena minoria a apostar no regresso ao parto caseiro — e a noção de responsabilidade social da imprensa. Quando se aborda um tema como este, de evidente importância no plano da saúde pública e do esclarecimento dos cidadãos, deve esperar-se um maior esforço de contextualização do fenómeno retratado, à luz dos conhecimentos disponíveis. Por muito “batido” que esteja o “ângulo” dos riscos associados aos partos domiciliários e da consequente ponderação do melhor interesse dos nascituros, o sentido de responsabilidade deveria ter obrigado a referir (ou investigar) dados como os que a leitora considerou terem sido omitidos.

Registe-se, a terminar, que, na edição de 16 de Abril, Catarina Gomes assinou um texto intitulado “Parto em casa terminou em morte de bebé que sofria de problema cardíaco“, em que narra o mais recente caso conhecido (que é o caso acima referido) de um parto domiciliário com este desfecho. Fizeram bem o jornal e a jornalista em dar-lhe o devido destaque, demonstrando aliás que não eram movidos por nenhum tipo de parcialidade nesta matéria. As informações aí contidas terão corrigido ou contrabalançado, junto de quem tenha lido ambas as peças, o que Ana Maria Mesquita considerou ser sugerido pelo texto do dia 8, ao criticá-lo por poder contribuir para “orientar futuras parturientes para práticas inseguras”. Ficará agora a faltar um trabalho de fundo que forneça, de forma completa, equilibrada e actualizada, todos os elementos necessários para que os leitores se possam sentir bem informados sobre este tema sensível.

José Queirós

 

 

 

Documentação complementar

 

Reclamação da leitora Ana Maria Mesquita

Destina-se esta reclamação a denunciar o conteúdo e a forma como a jornalista do Público Catarina Gomes desenvolve um artigo no dia  8 de Abril de 2012, intitulado «Aumento de partos em casa por falta de alternativas naturais nos hospitais».
Escrevo esta reclamação profundamente motivada pelas consequências das práticas implicitamente elogiadas e manifestamente defendidas pela jornalista referida, já que eu própria experimentei as suas consequências: no dia 24 de Fevereiro de 2012, a minha neta, nascida em casa num parto domiciliário apoiado pela Associação Doulas de Portugal, (…) viria a falecer no mesmo dia no Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, em resultado de falta de assistência. Encontram-se neste momento várias queixas em diversos órgãos competentes, encontrando-me eu, avó, e o avô na expectativa  de proceder a ulteriores queixas.
Não sou médica de profissão, nem tenho conhecimentos particulares nesta área. Tudo o que aprendi (porque estudei, estudo o assunto, ao invés do que a jornalista Catarina Gomes faz) resulta do que aconteceu à minha família em 24 de Fevereiro.

O artigo aborda um tema de saúde pública particularmente sensível num momento em que Portugal tem sido objecto de elogio e referência internacional pelo bom desempenho das suas estruturas públicas  de saúde  materno infantil que guindaram, em cerca de 30 anos, para o 3º lugar em termos de baixa mortalidade infantil. De modo geral, e lido o artigo, a mensagem que resulta é a apologia dos chamados «partos humanizados», a defesa do parto domiciliário, assistido por enfermeiros obstetras. Todo o artigo está construído a partir de um estranho caso particular para chegar à opção parto domiciliário, repousando quase exclusivamente em dados fornecidos pela Ordem dos Enfermeiros. Em termos de dados fornecidos, gastarei algum tempo, a seguir, a evidenciar precisamente as perigosas insinuações da jornalista. (…) Escrever um artigo de 2 páginas com considerandos enviesados, dados incorrectos e análises e conclusões incorrectas é grave, pois poderá orientar futuras parturientes para práticas inseguras. Sem pretender discutir em profundidade, nesta reclamação, qual a melhor prática, quero sim  e exijo que os órgãos de comunicação social não se transformem em órgãos de propaganda  e publicidade gratuita a um sector  empresarial (o negócio dos partos em casa).

Factos relevantes:
(…) As reacções dos leitores do Público são um bom indício de que a defesa desta prática não colhe junto do público maioritário. Infelizmente, a jornalista parece ter pesquisado muito pouco sobre este assunto e ter repousado muito mais no que alguns dos enfermeiros citados no seu artigo lhe disseram. Sendo que os especialistas vêm há muitos anos a discutir e a elaborar estatísticas com relação a estes temas, infelizmente sem que sejam mutuamente aceites, chamo a atenção para alguns erros graves cometidos no  artigo.
1 – Os partos domiciliários aumentaram desde 2005 porque foi nessa data que surgiu um movimento organizado em defesa dessas prática, mantendo-se, contudo, marginal e exclusivo de um público muito determinado.
2 – Se se consultar o INE verificar-se-á que no ano de 2007 se atingiu o pico de 1012 partos domiciliários, e desde essa data tem vindo a diminuir. Este facto é relevante, embora seja indistinguível nestes dados quais os partos planeados em casa e quais os que ocorreram por outra razão. Acresce que poderá haver várias razões para a diminuição desde 2007, incluindo o surgimento a público  de vários partos  com consequências desastrosas (2008, uma morte, 2010, o caso Adelaide Sousa, 2010, um caso de mau atendimento com Sílvia Martins, e provavelmente outros menos conhecidos mas no circuito interno e muito fechado das doulas e parteiras sabidos).
3 – Os dados do INE permitem também verificar o número de óbitos  e, já agora, deduzir a taxa de mortalidade dos partos domiciliários.
4 – Se a jornalista  tivesse tido a curiosidade de explorar os casos de insucesso mais mediáticos — recentemente abordados na SIC e na RTP1 —, rapidamente chegaria à conclusão do carácter polémico e nefasto destas práticas e especialmente dos protagonistas envolvidos. Não só submetem as mulheres a riscos graves, mas estão prontos a sacrificar a vida dos recém-nascidos em nome de um «empoderamento» da mulher, fictício, aliás, na medida em que a mulher que não resiste é vista como fraca (cf. caso de Adelaide Sousa). Acrescento ainda que os envolvidos nestas práticas o fazem por muito dinheiro  e obrigam as famílias a assinar um contrato em que (supostamente) se desresponsabilizam de tudo o que possa correr mal, entre outras coisas de que também não vale a pena falar (…) Posso fornecer, caso seja necessário, um exemplar de contrato para (…) verificar o carácter abusivo, unilateral e altamente perigoso destes contratos e práticas.
5 – A jornalista e os enfermeiros consultados por ela ignoram um facto elementar — antes da conclusão de um parto, ninguém pode afirmar que será  um parto normal. Se a jornalista tivesse consultado um único obstetra tê-lo-ia sabido. Contudo, todo o artigo está construído com base nas informações, posições e desejos dos enfermeiros contactados, incluindo a única  referência a médicos, contida na caixa «Ordem dos Enfermeiros está a investigar morte de três bebés»
6 – Um parto de baixo risco não é forçosamente um parto normal. Claro que esta afirmação passa por considerandos técnicos que deveriam ser referidos em vez de transformar esta afirmação numa «opinião», pois em questões de saúde, tal como noutras, as «opiniões» não servem para nada.
7– Também deveria ter investigado o que se passa na Holanda e na Austrália, de onde supostamente vem grande parte da propaganda a favor do parto domiciliário. Para além de estes países terem piores índices de mortalidade do que Portugal, deveria ter descoberto que estas práticas começam a ser questionadas, mais ou menos vigorosamente.
8 –  É referido, como ponto de partida do artigo, um estranho caso de um parto hospitalar ocorrido em 2010 — será isto uma notícia a divulgar em 2012? Mais, não seria de investigar a veracidade daquelas revelações para as denunciar com nomes, locais, etc?. Ou poderá ser este caso apenas o «leitmotiv» para dar oportunidade a uma sessão publicitária de duas páginas a favor do parto domiciliário?
9 – O artigo passa completamente ao lado dos grandes interesses económicos dos enfermeiros e da Associação Doulas de Portugal, que vivem de um mercado que se move em torno de preços que oscilam entre:
   – Acompanhamento do parto por doula – 300 a 600€;
   – Cursos vendidos de amamentação, pintura de barrigas, massagens, preparação para o parto, ioga, etc. etc., preços que podem ir dos 200 aos 600€;
   – Assistência ao parto por parteira (em condições contratuais assinadas antes que pretendem desvincular a parteira das consequências, seja morte, seja lesões) – 1.500 a 2.000€;
   – Vendas diversas (biberons, bombas de sucção, panos, banheiras de parto, etc.,etc.) – preços variáveis, mas consultáveis na Internet.
10 – A campanha agressiva dos enfermeiros radica na procura de um novo mercado que ajude a minimizar as consequências do desemprego.
11 – O mesmo é válido para as doulas, pois com uma formação de 21 horas, dada por outras doulas, consideram-se capazes de apoiar a mãe antes, durante e depois do parto. Embora o trabalho destas mulheres possa ter menor impacto que o das enfermeiras, em momentos cruciais pode ser determinante. Concretamente, se a doula evita ou luta contra a transferência da mãe ou do bebé para o hospital, como aliás foi o caso da Adelaide Sousa e da minha neta (esta, esteve cerca de 10 horas em sofrimento até ser decidido ir para o hospital).
12 – O artigo da Catarina Gomes ignora totalmente os pareceres das Ordens dos Médicos, quer portuguesas, quer estrangeiras sobre estas práticas.

Conclusão: o artigo é pouco objectivo, pouco informado e uma peça de propaganda perigosa. Creio poder afirmar que não é isto que se pretende do jornalismo e creio que a jornalista Catarina Gomes deverá ser chamada a ter maior cuidado e objectividade quando é chamada a falar de algo de que não sabe nada. Temo (…) que a jornalista possa ter sido alvo de uma solicitação particular de enfermeiros interessados em promover o parto domiciliário.
14 de Abril de 2012
Ana Maria Mesquita
Parede

 

Perguntas à jornalista Catarina Gomes

1) Na sua opinião, o conjunto das duas peças (a já referida e o texto que entretanto assinou na edição de 16.04 (“Parto em casa terminou em morte do bebé que sofria de problema cardíaco“, pág.8) publicadas não é susceptível de poder confundir leitores que tirarão eventualmente conclusões opostas de uma e de outra?
2) O que se lê na peça de 16.04 não permite concluir que os argumentos de quem critica a opção pelos partos domiciliários deveriam ter tido um maior peso na peça de 08.04?
3) Considera ou não justa a crítica de que o primeiro trabalho publicado não evidencia os interesses ligados à promoção de partos domiciliários?
4) Em ambas as peças se pode ler que, em 1970, 93% das crianças portuguesas nasciam em casa. O gráfico publicado a 08.04 parece sugerir, pelo contrário, que essa percentagem seria próxima de zero. Isto não deveria ter sido corrigido?
27 de Abril de 2012
J.Q.

 

Respostas de Catarina Gomes

No dia seguinte à publicação dos primeiros artigos (a 8 de Abril) recebi um telefonema muito emocional para o meu telemóvel pessoal do avô de uma bebé que morreu num parto em casa, a dar-me conta de que um dos casos de que falo no meu artigo “Ordem dos Enfermeiros está a investigar morte de três bebés” era o caso da sua neta. Pouco tempo depois recebo o email da leitora que lhe escreve e que se identificou apenas como leitora do jornal e “vítima indirecta” desta situação. Lamento que os dados que tão prontamente forneceu ao Provedor me tenham sido ocultados (…).
Não me parece correcto que a leitora apenas se tenha identificado como vítima indirecta destas práticas (é a avó!), penso que esse facto devia ter sido referido porque obviamente condiciona a leitura, emocional, que faz do artigo. Tive que ser eu, após essa informação me ter sido dada pelo avô, a confrontar a leitora com a sua relação directa com o caso noticiado e a convidá-la a dar-me mais informações para que pudesse avançar mais informações aos leitores.
As duas intervenções, de avô e avó, são feitas num contexto de forte emoção, o que de, alguma forma, distorceu a leitura dos artigos. O que estes senhores queriam era que eu escrevesse um artigo a demonizar os partos domiciliários, um desejo compreensível em face do contexto recente da sua perda. Nesta leitura a quente, a leitora menciona aspectos que pura e simplesmente não são verdadeiros (ver resposta às dúvidas da leitora em baixo).
No dia 8 de Abril escrevi duas páginas sobre o tema. O objectivo do trabalho não era demonizar os partos domiciliários e encontrar interesses ocultos, o meu objectivo foi antes perceber o porquê da sua existência no século XXI como opção de mulheres com formação superior à média, e depois perceber se, face às razões apresentadas, estava a haver alguma mudança nos hospitais públicos.
O meu texto arranca não com um caso de parto domiciliário mas sim com o caso de uma mulher que quis ter um parto hospitalar mais “natural”: “Rita Cruz teve de procurar muito para ter um parto natural num hospital. Passou-lhe pela cabeça ter um parto em casa, mas diz que não se sentiria segura porque o país não está preparado e porque sente que seria difícil ‘encontrar um profissional que lhe inspirasse segurança’”.
Pareceu-me esta uma perspectiva bastante mais inovadora do que o já muito batido ângulo que dá conta da existência deste fenómeno. Eu própria já tinha escrito sobre partos em casa há uns três anos, nesta perspectiva, e quis olhar para o tema de uma perspectiva diferente, ou seja, perceber o que nos hospitais púbicos, que são acusados de terem partos desumanizados, se fez para mudar, nomeadamente dando follow up de uma experiência muito propalada, no Hospital de São João, da possibilidade de partos na água. O excesso de medicalização dos partos em Portugal é um tema na ordem do dia, nomeadamente pela alta taxa de cesarianas existente em Portugal.
Na segunda peça, de 16/04, decidi voltar ao assunto porque o avô me deu mais dados que eu não possuía e porque me parece, tal como escrevi a Ana Mesquita, que só com casos pessoais estas situações ganham contornos de realidade em vez de serem apenas números.
Sabendo a leitora que a informei que pretendia voltar ao tema, que lhe pedi ajuda na recolha de mais informação sobre o seu caso que não me quis fornecer, lamento que nesta sua reclamação esse meu esforço não tenha sido mencionado.

Seguem as respostas. 

Parte 1
Em relação às perguntas do Provedor:

1) De todo. No dia 8 de Abril foram publicadas em 2 páginas 2 textos, um deles fala da questão das alegadas razões que sustentam a persistência de partos domiciliários. No segundo texto, que ocupa quase uma página, é dado enfoque a este caso recente da morte da bebé, que não desenvolvo simplesmente porque a única fonte com envolvimento óbvio na matéria, a Ordem dos Enfermeiros, me disse que o processo estava em segredo. A informação está atribuída a quem ma deu, um responsável oficial da Ordem dos Enfermeiros. Nada mais referi porque não tinha mais nenhum dado, nada me foi dito sobre os intervenientes e as circunstâncias e, portanto, nada mais tinha a acrescentar. Ainda contactei a Associação Doulas de Portugal sobre este caso, que se recusou a prestar qualquer esclarecimento.
2) Não. Quando se dedica um texto à morte de três bebés penso que isso é suficiente esclarecedor dos riscos, sendo a morte o mais grave, envolvidos nesta prática.
Decidi fazer um follow up de um destes casos precisamente porque tinha falado dele em traços muito vagos sem ter, na altura, forma de o aprofundar. Tendo agora uma nova fonte, o avô, decidi voltar ao tema, ainda mais sabendo agora que também tinha havido uma queixa na Ordem dos Médicos e um parecer que surge na sua sequência.
A informação avança à medida que se tem acesso a mais dados, errado teria sido nada fazer tendo tido acesso a mais dados que aprofundam uma situação que já eu tinha abordado, retomando argumentos já presentes na primeira série de artigos.
3) Repito o que escrevi em cima: esse não era de todo o âmbito deste trabalho, demonizar os partos domiciliários, o meu objectivo foi antes perceber o porquê da sua persistência no século XXI como opção de mulheres com mais formação do que a média, e depois perceber se, face às razões apresentadas, estava a haver alguma mudança nos hospitais públicos em reacção a este fenómeno. Por isso, o meu texto arranca não com um caso de parto domiciliário (que é deixado para o fim do texto) mas sim com o caso de uma mulher que quis ter um parto mais “natural” num hospital (…).Pareceu-me uma perspectiva bastante mais inovadora do que o já muito batido tema que dá conta da existência deste fenómeno. Eu própria já tinha escrito sobre este tema há uns três anos, nesta perspectiva, e quis olhar para o tema de um ângulo novo, ou seja, perceber o que nos hospitais púbicos, que são acusados de terem partos desumanizados, fez de alguma forma para mudar, nomeadamente dando follow up a uma experiência muito propalada há uns anos, no Hospital de São João, da possibilidade de ter partos na água.
A leitora fala muito no caso das doulas. Não pretendi esgotar todos os ângulos, não era de todo o objectivo do artigo e muito menos tentar atribuir a um grupo profissional o ressurgimento deste fenómeno. Este nexo de causalidade é feito pela leitora.
4) As percentagens que mandei para a infografia estavam correctas, não reparei eu e mais ninguém que depois saíram erradas. Mas se achar que, passado este tempo, se justifica um ‘Público Errou” posso redigi-lo.

 
Parte 2
Resposta às dúvidas da leitora:

1 – Nas primeiras linhas do artigo refiro precisamente que este é um fenómeno minoritário que apresenta apenas cerca de 1% do total dos nascimentos.
2 – Os números que dão conta dessa ligeira diminuição faziam parte dos dados que mandei para a infografia e que não foram tratados graficamente como pedi, ano a ano, não ficando clara esta ligeira diminuição:
2000-488; 2001-505; 2002-751; 2003-580; 2004-454; 2005-481: 2006-682: 2007-980; 2008-892; 2009-764; 2010-856.
De qualquer forma, o que digo no início do texto é que começaram a subir em 2005 e se aproximam dos mil nos últimos cinco anos, não representando mais de 1% do total .
3 – Os números que me foram dados pelo INE não me permitem deduzir a taxa de mortalidade dos partos domiciliários, estando apenas disponível a taxa de mortalidade total.
4 – O meu objectivo não foi explorar casos mediáticos, embora os tenha mencionado no texto, nomeadamente o de Adelaide de Sousa.
5 – Não é verdade. A entrada do texto, que é dos elementos mais visíveis da página, dá eco das reticências da classe médica: “Para que o parto em casa pudesse ser uma opção admissível, seriam necessários meios logísticos sofisticados e dispendiosos e incomportáveis para nós”, dizem médicos.
No corpo desse mesmo texto grande escrevo: “A Ordem dos Médicos respondeu aos enfermeiros dizendo que o que entendiam ser ‘uma campanha em favor dos partos no domicílio’ representava ‘um retrocesso. Alegam os médicos: ‘Para que o parto em casa pudesse ser uma opção admissível, seriam necessários meios logísticos sofisticados e dispendiosos, para nós incomportáveis, para apoio assistencial ao domicílio e transporte medicalizado dos recém-nascidos e grávidas’”.
Acrescento que o texto «Ordem dos Enfermeiros está a investigar morte de três bebés» não é uma caixa, termo que o pretende desvalorizar, é um texto grande e com visibilidade.
6 – O texto não entra em pormenores técnicos.
7 – O objectivo do texto não era esse. Ver resposta sobre objectivos do texto.
8 – Acho ofensivo dizer-se que os meus artigos são duas páginas de publicidade a favor do parto domiciliário, quando pelo menos uma página explora a situação de mortes decorrentes desta prática. Ver em cima resposta dada sobre os objectivos do trabalho.
9 – Mais uma vez, não era esse o objectivo do texto, que não deixa de referir que “ter um filho em casa não custa menos do que dois mil euros”. Mais uma vez, penso que a leitura da leitora está enviesada pela sua experiência particular, em que houve intervenção de uma doula.
12 – Repito, não é verdade. A entrada do texto maior é “Para que parto em casa pudesse ser uma opção admissível, seriam necessários meios logísticos sofisticados e dispendiosos e incomportáveis para nós”, dizem médicos. No corpo do texto maior escrevo: “A Ordem dos Médicos respondeu aos enfermeiros dizendo que o que entendiam ser ‘uma campanha em favor dos partos no domicílio’ representava ‘um retrocesso’. Alegam os médicos: ‘Para que o parto em casa pudesse ser uma opção admissível, seriam necessários meios logísticos sofisticados e dispendiosos, para nós incomportáveis, para apoio assistencial ao domicílio e transporte medicalizado dos recém-nascidos e grávidas'”.
No texto “Ordem dos Enfermeiros está a investigar morte de três bebés” escrevo: “Presidente do Colégio de Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos (OM) titula de ‘aventura’ a escolha de ter um parto em casa, ‘porque no decurso de um parto inicialmente normal, podem ocorrer situações imprevistas, como um descolamento de placenta, que não podem ser resolvidas fora de ambiente hospitalar’, lê-se no texto que assina e que é um documento oficial da OM. O pediatra atribui uma das taxas de mortalidade neonatal mais baixas do mundo ‘ao enorme esforço de acabar com a realização de partos nos domicílios e nos hospitais sem condições e à criação de unidades de neonatologia nos hospitais de referência’. E alega que os enfermeiros ‘não têm capacidade técnica para uma avaliação clínica autónoma do recém-nascido'”.
4 de Maio de 2012
Catarina Gomes

 

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