Da arte de bem titular

(Crónica da edição de 22 de Abril de 2012)

A arte de redigir um título é um talento particularmente apreciado nas redacções dos jornais. Um título bem construído, apelativo quanto baste para suscitar interesse ou curiosidade, é meio caminho andado para convidar à leitura de uma peça jornalística. Para desempenhar bem esse papel, deve também cumprir as exigências do rigor profissional, a começar pela regra de ser totalmente fiel ao texto que encabeça. Os títulos descritivos que o PÚBLICO privilegia nas peças noticiosas — e mesmo os de cariz mais interpretativo, quando as circunstâncias o justificam — não podem dizer ou sugerir o que as notícias não dizem, sob pena de se tornarem enganosos ou, no limite, manipulatórios.

Equilíbrio, clareza, relevância e novidade são outras virtudes de um título correcto e eficaz, que deve levar o leitor a aperceber-se de imediato do conteúdo essencial de uma notícia. Às dificuldades que podem surgir para articular esses requisitos em frases simples e escorreitas acresce o obstáculo frequentemente constituído pelos modelos gráficos adoptados na imprensa. A limitação resultante da existência de um número máximo pré-definido de “batidas” (letras e espaços entre palavras) é um desafio constante para os editores, que nem sempre é superado de acordo com as melhores práticas de titulagem.

Quando isso acontece, o resultado pode ser um título críptico ou enviesado, ou desrespeitador do conteúdo da notícia. Ou ainda, mais frequentemente, e devido à preocupação em economizar caracteres, um pontapé na gramática e na integridade da língua, como exemplificam alguns casos anteriormente referidos neste espaço. Felizmente, o novo grafismo do PÚBLICO parece ter aliviado alguma rigidez excessiva neste domínio. Resta verificar se é suficiente para libertar os autores de alguns títulos de um esforço de compactação que não poucas vezes desfigura a escrita e se revela tão interiorizado que surge a inspirar títulos deficientes na própria edição on line, em que não é necessário torturar as frases para economizar caracteres.

 

Entre os vários motivos que podem concorrer para um título defeituoso — e poderia acrescentar-se, entre outros inimigos do rigor, a tentação nem sempre contida de recorrer a terminologias e fórmulas contaminadas pela linguagem da publicidade ou da propaganda —, o que tem vindo a avultar nas reclamações que me chegam, fruto do escrutínio de leitores mais atentos e exigentes, é o que se prende com eventuais falhas no cumprimento da regra que referi em primeiro lugar: os títulos devem ser fiéis aos textos que encabeçam.

Entre alguns exemplos recentes, começo por citar um título de capa da edição do passado dia 7: “Fim das reformas antecipadas só para admitidos após 2005“. Sucede que a decisão governamental que se pretendia noticiar — anunciada, como se sabe, sem aviso prévio — foi a de suspender esse regime, e não de o extinguir (não é a mesma coisa, por muito compreensível que seja a suspeita de que a suspensão de certos direitos sociais signifique, para quem decide, um prelúdio da sua supressão).

Pior, nada no título e na chamada de primeira página indicava que a referência aos “admitidos após 2005” tinha por alvo apenas os trabalhadores da função pública. É certo que ambos esses dados informativos estavam contidos na notícia dedicada ao tema na página 13 dessa edição, e aí correctamente destacados em título. O que não retira gravidade ao facto de, como escreve o leitor João Cunha Serra, de Lisboa, “a chamada (…) que, como tudo o que se escreve na primeira página, tem como uma das funções principais atrair leitores para o jornal, dar a entender, enganosamente, que a suspensão das reformas antecipadas apenas se aplicaria aos trabalhadores admitidos após 2005, isto é, a todos os trabalhadores nessas condições”.

 

O leitor José Pinto Mendes, de Coimbra, criticou por seu lado o título escolhido para a entrevista ao ex-ministro Correia de Campos (edição da passada segunda-feira, páginas 10 a 12): “Não faz sentido nenhum encerrar a nossa melhor maternidade“. Uma frase obviamente escolhida pela sua actualidade  — decorriam já os protestos contra a intenção anunciada pelo Ministério da Saúde de vir a fechar a Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa—, mas que o leitor considera não traduzir fielmente as declarações do actual eurodeputado socialista e o seu pensamento sobre o tema, que aliás foi explicitado com clareza em artigo assinado pelo próprio no dia seguinte, na sua coluna semanal de opinião no PÚBLICO.

De facto, a declaração de Correia de Campos, transcrita na entrevista, fora a seguinte: ” A MAC tem de ser integrada num hospital central. Mas, neste momento, sem estar construído o Hospital de Todos-os-Santos (Oriental de Lisboa), não tem sentido nenhum encerrar a nossa melhor maternidade”. E, mais adiante, defendendo a importância da abertura desse novo estabelecimento de saúde: “A MAC deve ser transportada para o hospital de Todos-os-Santos”. Na opinião do leitor, ao isolar uma parte da declaração do ex-ministro e destacá-la em título, “despida de contexto”, o PÚBLICO terá pretendido “colar o Dr. Correia de Campos aos compreensíveis movimentos emocionais pró-MAC, o que, rigorosamente, não é verdadeiro”, já que este concordaria com a ideia de que “os serviços de obstetrícia devem ser integrados numa unidade com todas as valências médico-cirúrgicas”, entendendo no entanto que “este não é o momento” para o fazer.

Miguel Gaspar, director adjunto do jornal e um dos autores da entrevista, afirma que a escolha do título não decorreu de “um desejo de colagem de Correia de Campos a movimentos mais emocionais relativamente ao fecho da MAC”, mas sim “do facto de o entrevistado divergir objectivamente da estratégia do encerramento da MAC tal qual ela foi formulada”, o que foi considerado “um contributo relevante para o debate em curso”. Menos sólido do que esta explicação, que responde ao que na reclamação de José Pinto Mendes pode ser visto como um processo de intenção, parece-me ser o seu argumento de que, na óptica do político entrevistado, a MAC afinal “não encerraria”, pois “seria transferida com armas, bagagens e equipas para um hospital, em vez de as suas equipas serem distribuídas por vários hospitais”. A conclusão é forçada: se decorre das explicações do ex-ministro que é essa realmente a sua visão do problema, continua a ser um facto que o que Correia de Campos disse não foi que a maternidade não deveria vir a fechar, mas sim que não deveria ser encerrada “neste momento” (ou “a curto prazo”, como escreveu no dia seguinte), antes da construção do novo hospital. Ao rasurar esse elemento determinante, o título da entrevista não é, de facto, rigoroso.

 

Uma distorção mais evidente do conteúdo de declarações políticas que, pela sua relevância, se tornam notícia, pôde encontrar-se na página 6 da edição da passada sexta-feira, 19.04, no título “Passos classifica ameaça da UGT de denunciar acordo de concertação social como brincadeira do 1º de Maio”. O primeiro-ministro português tinha procurado desvalorizar na véspera, em Londres, a posição daquela central sindical — que exige ao governo o cumprimento dos compromissos assumidos para a tomada de medidas favoráveis ao crescimento económico e ao emprego—, com o seguinte comentário, citado na notícia do PÚBLICO: “Penso que a data do 1º de Maio pode gerar algum tipo de debate a nível doméstico, mas nós estamos a implementar o programa num processo de consenso”.

Pense-se o que se pensar do comentário de Passos Coelho — por exemplo, que é ofensivo para os seus parceiros na concertação social, que é deslocado na boca de um governante ou até que demonstra uma arrogância nociva para o proclamado interesse em manter o que chama “processo de consenso” —, a verdade é que o primeiro-ministro não falou de “brincadeira”. O que se descreveu no título como sendo factual não tem fundamento na notícia publicada. É abusivo e enganador. O conceito estranho e pouco sério de “brincadeira do 1º de Maio” é no caso da exclusiva responsabilidade do PÚBLICO, onde deveria saber-se que a data tradicionalmente comemorada pelos sindicatos não se confunde com o 1 de Abril ou com o Carnaval.

José Queirós

 

 

Documentação complementar

Mensagem do leitor João Cunha Serra

Acabei de ler o Público de hoje, dia 7 de Abril. Chocou-me a redacção do título da chamada de 1ª página referente à suspensão das reformas antecipadas, pela sua falta de rigor. Na realidade, o título: “Fim das reformas antecipadas só para admitidos após 2005”, contém duas imprecisões:
A primeira, e a menos grave, resulta de o jornal dar como adquirido o fim das reformas antecipadas, quando, na realidade, elas foram, por agora, apenas suspensas. Não considero esta falta de rigor grave porque pode ser levada à conta de um estilo jornalístico destinado a vincar com maior impacto o efeito de uma medida restritiva.
A 2ª, quanto a mim, grave, reside no facto de esta chamada de 1ª página, que, como tudo o que se escreve na 1ª página, tem como uma das funções principais atrair leitores para o jornal, dar a entender, enganosamente, que a suspensão das reformas antecipadas apenas se aplicaria aos trabalhadores admitidos após 2005, isto é, a todos os trabalhadores nessas condições.
Na realidade, lendo depois a peça da página 13, para a qual a chamada de 1ª página em apreço remete, fica-se a perceber que aquele título de 1ª página apenas é válido para os trabalhadores da Administração Pública. Teria sido muito fácil escrever em caixa baixa, um ante-título do género: “Função Pública”, de modo a não defraudar as expectativas dos leitores.
Eu sei que há casos mais graves, mas isso não deverá reduzir o grau de exigência relativamente ao rigor da informação em todas as circunstâncias.
7 de Abril de 2012
João Cunha Serra
Lisboa

Mensagem do leitor José Pinto Mendes

Não se trata aqui da minha opinião a respeito do encerramento da Maternidade Alfredo da Costa mas do apontar o dedo a critérios editoriais que não resistem à tentação de seguir “o que está a dar”.
Numa entrevista do Sr. Doutor Correia de Campos (Público, 15 de Abril de 2012,pag. 10 e seguintes) o ex- ministro afirma:” A MAC tem de ser integrada num hospital central. Mas, neste momento, sem estar construído o Hospital de Todos-os-Santos (Oriental de Lisboa), não tem nenhum sentido encerrar a nossa melhor maternidade”
Quer dizer, concorda que não tem hoje justificação uma unidade só maternidade porque os serviços de obstetrícia devem ser integrados numa com todas as valências médico-cirúrgicas. Só que entende que este não é o momento, por faltar a construção prometida de uma unidade hospitalar que permitiria a anunciada racionalização.
Mas o título do Público não diz isto, pega na última frase, despida do contexto, e coloca-a em destaque:”Não faz sentido nenhum encerrar a nossa melhor maternidade”, pretendendo colar o Doutor Correia de Campos aos compreensíveis movimentos emocionais pró-MAC o que, rigorosamente, não é verdadeiro.
Num artigo hoje publicado (16 de Abril) já estão bem explícitos pelo citado ex-ministro os argumentos técnicos que invoca para ter dado aquela opinião. Mas fica aqui o reparo.
16 de Abril de 2012
José Pinto Mendes
Coimbra

Resposta do director adjunto do Público Miguel Gaspar

A relevância do título escolhido [para a entrevista a Correia de Campos] não decorre de um desejo de colagem do prof. Correia de Campos a movimentos mais emocionais relativamente ao fecho da Maternidade Alfredo da Costa, mas sim do facto de o entrevistado divergir objectivamente da estratégia do encerramento da MAC tal qual ela foi formulada. Ou seja, Correia de Campos discorda de que ela seja encerrada antes da construção do hospital de Todos os Santos, porque neste caso a maternidade ficará salvaguardada enquanto instituição e know how técnico. Na verdade, ela não encerraria, seria transferida com armas, bagagens e equipas para um hospital, em vez de as suas equipas serem distribuídas por vários hospitais. Por nos parecer uma posição fundamentada e, como tal, um contribnto relevante para o debate em curso, escolhemos esse titulo.
19 de Abril de 2012
Miguel Gaspar

 

 

 

 

 

 

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