Cartas à Directora

(Crónica da edição de 15 de Abril de 2012) 

Há futuro, num diário de referência, para as tradicionais Cartas ao Director, quando as edições para a Internet tornam possível a difusão quase instantânea dos comentários dos leitores às notícias publicadas, em abundância inimaginável num jornal impresso? Para uma parte dos leitores do PÚBLICO, que creio ser significativa a avaliar pela correspondência que recebo sobre o tema, as Cartas ao Director — que neste jornal são hoje, naturalmente, Cartas à Directora, desde que o cargo passou a ser exercido por Bárbara Reis — são um espaço de leitura obrigatória e interessada.

Julgo que para tanto contribuirá a expectativa de encontrar nesse espaço o resultado de uma escolha criteriosa da correspondência dirigida ao jornal. Os leitores esperarão ler aí textos mais elaborados do que a generalidade dos comentários publicados na Internet e com a qualidade decorrente da selecção apertada que o espaço limitado disponível na edição em papel torna obrigatória. Esperarão que num jornal de referência o espaço dedicado ao correio da sua comunidade de leitores —hoje quase exclusivamente correio electrónico — seja ele próprio um espaço de referência, um indicador fiável da pulsação de uma opinião pública informada e plural.

É essa, aliás, a tradição da imprensa internacional de qualidade, especialmente nos países de língua inglesa, onde as “Letters to the Editor” continuam a ser uma secção prestigiada e influente nos jornais, ainda que possam não ter hoje o peso que já tiveram na construção da agenda do debate público. Pela importância que tem para a reputação das publicações, a missão de seleccionar e editar as cartas dos leitores é geralmente confiada a editores experientes e reconhecidamente independentes face a pressões internas ou externas.

No caso do PÚBLICO, as Cartas ao Director devem, segundo o Livro de Estilo, “versar temas de interesse público ou conter opiniões e comentários sobre textos publicados no jornal”, recusando-se o anonimato e exigindo-se que sejam escritas “em linguagem correcta, de acordo com as normas da urbanidade”, não ultrapassando, por regra, os 1500 caracteres. Uma nota publicada diariamente na página de abertura da secção Espaço Público explica que o jornal se reserva o direito de “eventualmente reduzir os textos” (nesses casos, os cortes são assinalados) e adverte que “não prestará informação postal sobre eles”. A serem cumpridas de acordo com critérios exigentes de selecção editorial, estas normas estabelecem um quadro em que a qualidade e interesse dos textos publicados dependerá principalmente dos próprios autores das cartas.

É a essa luz que deve ser analisada a pertinências das queixas frequentes que recebo sobre a orientação dada a esta secção do jornal. As críticas mais comuns são quatro e podem resumir-se assim: o espaço concedido às Cartas à Directora é muito pequeno (as reclamações a esse respeito intensificaram-se após a última remodelação gráfica), os critérios de selecção não seriam os melhores (este ponto de vista é geralmente defendido por quem não viu o seu texto publicado ou se cansou de estar em “lista de espera”), privilegiariam um punhado de leitores que surgem repetidamente a assinar cartas escolhidas para publicação e, finalmente, o PÚBLICO estaria a proceder mal ao não responder aos leitores que pedem explicações sobre a não publicação dos seus textos.

Lucília Santos, adjunta da direcção editorial e responsável há longos anos pela selecção e edição das cartas, responde a estas críticas, começando por reconhecer que o espaço dedicado a esta forma de intervenção dos leitores “é mesmo muito pequeno” e que o problema se agravou com o novo modelo gráfico (“tem hoje 2100 caracteres e tinha antes 3600”), dificultando a publicação de mais do que uma carta por dia. Assegura estarem a ser ponderadas “mudanças” que permitam “aumentar este espaço”.

Negando qualquer tipo de favoritismo (“não há leitores privilegiados, há leitores super-atentos, que escrevem todos os dias, sobre assuntos muito actuais,  e por isso são essas as cartas que privilegiamos”), a responsável pela selecção dos textos explica os critérios por que se rege: “As cartas têm que ser uma boa leitura para os nossos leitores. Um dos critérios de maior peso é a actualidade. Uma carta que chega sobre um tema novo que, nesse mesmo dia, está a dominar a actualidade, passará à frente de outras cartas sobre temas intemporais ou que se prolongam há muito tempo (…). Mas há outros critérios: a variedade de temas, a qualidade da escrita, a capacidade de nos surpreender (pelo estilo, tema, autor, etc.) e — não menos importante — o talento da concisão. Recebemos por exemplo muitos artigos de opinião para a rubrica Cartas à Directora com 3000 e 4000 caracteres, o que é manifestamente impossível de publicar neste espaço. Outras vezes, recebemos textos sobre assuntos sem qualquer actualidade — o que não nos ‘assusta’ – mas que não são suficientemente distintivos ou originais. Outro filtro, ainda, tem a ver com a tecnologia. Infelizmente, não temos meios para transcrever as cartas manuscritas que nos chegam”. Quanto às explicações reclamadas por leitores que se queixam de que as suas cartas são ignoradas, Lucília Santos diz que o PÚBLICO “não tem capacidade de prestar informação sobre essa decisão”.

Não vejo motivo para questionar os critérios de selecção invocados. Acrescentaria apenas que, a bem do debate e do respeito pelos leitores, o jornal deveria dar especial atenção às cartas que questionem os seus próprios conteúdos opinativos, com destaque para editoriais e colunas de opinião. É raro encontrar nas Cartas à Directora textos com essas características, cuja publicação deveria ser estimulada e valorizaria o desejável debate dos temas tratados por editorialistas e colunistas.

Quanto à questão do espaço, julgo que têm razão os leitores que reclamam o seu alargamento. Presumindo que o jornal recebe correspondência em quantidade suficiente para alimentar, com garantias de qualidade, uma secção de cartas mais extensa, deveria fazê-lo, ou encarar a possibilidade de um figurino diário menos rígido para a sua publicação. Como escreve Nuno Quental, que se apresenta como “leitor assíduo”, para quem esses textos podem ser “não raras vezes bem mais interessantes do que artigos de opinião pagos”, “não há jornal que se preze sem uma comunidade viva de leitores que discutam as notícias”. Por isso propõe, como outros, que seja alargado “o espaço onde leitores, colunistas e jornalistas possam interagir, fidelizando o público do PÚBLICO”.

Por outro lado, e aceitando que não será viável nem exigível garantir uma explicação individual a cada autor de um texto não solicitado, e muito menos a “informação postal” atrás referida, seria desejável que o jornal procurasse, na medida do possível, responder a questões concretas colocadas a este respeito pelos leitores através de correio electrónico. Em qualquer caso, o que não deverá nunca acontecer — e aconteceu algumas vezes, como documentam algumas queixas que me chegaram — é que quem se dirija ao endereço das Cartas à Directora para propor a publicação de um texto ou indagar sobre o seu destino receba de volta uma resposta automática a informar que “a mensagem foi eliminada sem ter sido lida”.

Voltando à questão inicial, creio que há futuro para as Cartas ao Director num jornal de referência. São os próprios critérios para a ocupação de um espaço de acesso limitado, a que se acede pela qualidade da escrita e da argumentação, pela pertinência e oportunidade do tema abordado, que motivarão uma apetência de leitura bem distinta da que é gerada pelo também útil, mas muito diferente e geralmente menos qualificado, debate instantâneo nas caixas de comentários das edições on line. Se a generalidade dos leitores sentir que pode confiar nos critérios de selecção e edição, será deles que dependerá em primeira linha o futuro e o prestígio deste espaço no jornal impresso.

Para o garantir, nunca será de mais repetir que entre as características de uma boa carta à directora devem estar a clareza da argumentação e, como diz Lucília Santos, o “talento da concisão”. Textos mais longos podem sempre ser propostos como artigos de opinião, também eles naturalmente sujeitos a compreensíveis condicionamentos de espaço e critérios de qualidade e oportunidade editorial. E devem ser saudadas, a este propósito, a nova importância, a atenção acrescida e a melhor arrumação que, na recente remodelação gráfica, o PÚBLICO passou a dar aos artigos de opinião não solicitados ou exteriores à sua equipa de colunistas fixos, valorizando as páginas do Espaço Público.

José Queirós

 

 

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