Nomes, identidades, escolha de palavras

(Crónica da edição de 29 de Janeiro de 2012)

 1. O correio dos leitores traz-me com frequência questões a que muitos atribuirão menor importância, mas que são reveladoras da atenção aos valores e regras do jornalismo profissional e às normas de estilo e critérios editoriais deste jornal em particular. São muitas vezes temas recorrentes, debatidos no quotidiano das redacções, e que valerá a pena trazer ao diálogo com os leitores.

 Um deles é o do chamado “direito ao nome”. Todas as pessoas têm direito a ser tratadas pelo seu nome e não pelo nome que outros queiram dar-lhes. O mesmo para organizações e colectividades. Sucede que nem sempre é fácil cumprir este preceito nos jornais. Veja-se o caso dos leitores que têm protestado contra o facto de a instituição desportiva Vitória Sport Clube ser frequentemente designada, no PÚBLICO e em outros órgãos de comunicação, como “o Guimarães”. “Não há nenhum clube chamado Guimarães. O nome é Vitória” — mais palavra, menos palavra, é o argumento comum às mensagens que recebo sobre o tema.

 O leitor Rui Correia, por exemplo, queixa-se nestes termos do que considera ser uma “falta de rigor”: “Guimarães (…) é a cidade onde joga o Vitória SC! (…) Tratem as instituições de igual forma e não inventem nomes ou apelidos. Se disserem Vitória de Guimarães, embora não seja o nome correcto, pelo menos referem-se ao Vitória da cidade de Guimarães. Agora, retirarem o ‘Vitória’ do nome (…) é um desrespeito total para com a instituição, adeptos e simpatizantes!”.

 Jorge Miguel Matias, editor do Desporto, considera “impraticável identificar o Vitória Sport Clube” pelo seu nome oficial, “não só pela extensão da designação, como também pelo facto de o clube ser muitíssimo mais conhecido por Vitória de Guimarães”. Se a isto se poderia objectar que não será necessariamente assim que o clube é “conhecido” pelos seus próprios sócios, o certo é que há que pesar outras razões. Como esta: “Existe também a competir na I Liga o Vitória Futebol Clube (habitualmente designado por Vitória de Setúbal), a quem se aplica o mesmo critério. A existência de dois ‘Vitórias’ inviabiliza que se designe qualquer um deles exclusivamente pelo primeiro nome, sob pena de confusão generalizada”.

“Nas classificações, quer no site, quer na edição impressa”, explica o editor, “consta o nome do clube como V. Guimarães, tal como acontece nas fichas de jogo. Por vezes, por limitações gráficas, torna-se muito difícil utilizar por extenso a expressão ‘Vitória de Guimarães’ (por exemplo, em títulos a uma coluna). Nestes casos, optamos pela fórmula abreviada V. Guimarães. Quando não há alternativa, julgamos preferível designar o clube simplesmente por Guimarães e não simplesmente por Vitória, tendo em conta que Guimarães não causará qualquer dúvida para o leitor, enquanto Vitória deixará sempre a hipótese de se estar a falar, por exemplo, do Vitória… de Setúbal”.

Creio que mesmo os leitores mais ciosos da sua identidade clubística concordarão com a sensatez desta explicação, que privilegia a clareza na comunicação e não denota falta de rigor, tendo em conta que o Vitória Sport Clube é, até no plano estatutário, um clube de Guimarães. Este é um caso em que fazer prevalecer uma concepção rígida do “direito ao nome” sobre outras considerações não passaria de um formalismo sem sentido útil. O que não quer dizer que não deva ser tida em conta a sensibilidade dos leitores em questão, procurando evitar-se as situações em que nem a inicial do seu verdadeiro nome aparece a designar o clube.

2. Caso diferente é o do direito de qualquer pessoa a não ver o seu nome trocado, por exemplo, por uma alcunha. Essa é uma prática comum de alguma imprensa, especialmente no que respeita à identificação de indivíduos a contas com a justiça, e deve ser contrariada. Trata-se muitas vezes de designações depreciativas colhidas em autos policiais e que desrespeitam a dignidade individual. O Livro de Estilo do PÚBLICO desaconselha, e bem, a sua utilização, com excepção de casos em que se revele “essencial” para a caracterização de uma personagem.

A propósito dos títulos e textos sobre o julgamento, em Torres Vedras, de um indivíduo acusado de ter assassinado quatro pessoas, a leitora Ana Aguiar escreve que “não parece adequado usar o nome pelo qual um diagnosticado psicopata se auto-intitula”. No caso, “Ghob, rei dos gnomos”. “O senhor tem um nome civil, como todos nós, e não vejo razão para um jornal com ambição de seriedade usar um pseudónimo auto-atribuído numa notícia que deveria ser séria e imparcial”, diz a leitora, referindo uma peça recente do Público Online.

Deve esta situação ser enquadrada na orientação acima referida, contrária à substituição de nomes por alcunhas? Não necessariamente. Pelo que tem sido noticiado, o nome “Ghob” seria assumido pelo próprio suspeito dos crimes, no âmbito de um círculo de relações que foi investigado, e resultaria da crença, ou da manipulação da crença num universo místico de gnomos e entidades congéneres, que poderá ser relevante para a explicação dos crimes que estão a ser julgados. Referi-lo não põe em causa a seriedade nem a imparcialidade e poderá ser importante para a caracterização da personagem e a compreensão do caso.

Ainda assim, o desejável distanciamento jornalístico aconselhará sempre alguma contenção no recurso a designações como esta. Concordo com a leitora, quando refere: “Se a opção editorial for a de usar o pseudónimo, creio ser apropriado o uso de aspas”. Para distinguir a identidade civil, que deve ser sempre respeitada, de uma auto-representação imaginária.

3. O recurso desnecessário a termos estrangeiros continua a desagradar a muitos leitores. Na maior parte das vezes, com razão. António Barata leu uma notícia intitulada “Tribunal chumbou concessão no porto de Aveiro realizada sem concurso público” (edição on line, no passado dia 20) e deteve-se na frase em que se explicava que determinadas empresas “são os grandes players do movimento de carga nos portos nacionais”. Pergunta o leitor, e pergunta bem, “se o mesmo não poderia ser dito em português ou se existe uma outra qualquer razão” para o recurso ao termo inglês.

A mesma questão poderia ser colocada, por exemplo, em relação ao uso, que se tornou frequente, do termo default em títulos e textos sobre a actual crise financeira, muitas vezes sem qualquer explicação suplementar. Veja-se (é só um exemplo) o título “Default grego faz subir juros da dívida nacional”, que na primeira página da edição do passado dia 18 remetia (mais uma desatenção) para uma estranha “Secção, 00”. Nem na capa nem na página 13, onde se encontrava a peça mal sinalizada, a expressão era traduzida ou explicada. Nas páginas de Economia do jornal, a tradução de termos como este é por vezes feita, entre parênteses. Mas não é feita sempre, e cada omissão representa uma falha na clareza da comunicação.

“Será que os jornalistas”, pergunta o leitor, ” (…) se limitam a debitar o que ouvem e que está mais na moda, e não se preocupam sequer em traduzir, de modo a que qualquer leitor perceba?”. Na verdade, para os exemplos citados, a questão da tradução nem deveria colocar-se. Tanto para players como para default existem palavras portuguesas de uso comum, com o mesmo e preciso significado. Se é verdade que em tempos de globalização o recurso a vocábulos estrangeiros se torna por vezes inevitável — por falta de termo português correspondente, por exigência de precisão, ou por surgirem em discurso directo —, esses termos devem ser grafados em itálico, o que nem sempre acontece, e ser acompanhados, conforme os casos, de explicação ou tradução. O contrário não é sintoma de cosmopolitismo, mas de desleixo.

Já agora, recomenda-se maior cuidado com a redacção de notícias que reproduzem, sem o assinalar, textos de fontes noticiosas estrangeiras. Para que da sua tradução apressada não resultem deslizes como o que a leitora Alda Nobre detectou nas páginas de Desporto do dia 5 deste mês, onde se pode ler que o guarda-redes de um clube inglês marcou um golo, sendo “o quarto a fazê-lo, depois de Peter Schmeichel, Brad Friedel and Paul Robinson…”.

4. Há outras palavras, essas bem portuguesas, que todos ganharíamos em ver afastadas de alguns títulos informativos. Uma delas, que têm vindo a propagar-se de modo epidémico, sem cuidar sequer de se apresentar como figura de estilo, antes procurando impor-se num desadequado sentido literal, é o malfadado verbo “arrasar”. “BE arrasa projectos do PS e do PSD sobre maternidade de substituição” foi o título destacado escolhido no passado dia 20 para uma notícia das actividades parlamentares da véspera. É só um exemplo, mas foi o que levou o leitor Miguel Azevedo a protestar: “Mais uma vez opinião. Por mim preferia que a jornalista me desse os factos e me deixasse a mim a tarefa de decidir quem arrasou quem”.

Diga-se que a notícia em causa relata os factos e não recorre ao tremendismo do verbo em questão. O título — que pode ou não ser da autoria de quem escreveu a peça, mas é sempre, em última análise, da responsabilidade de um editor — é que desfigura o relato noticioso, assumindo uma natureza opinativa deslocada e censurável. Não está em causa a opinião, mas o lugar onde se expressa. A demarcação clara entre informação e opinião é um traço essencial do projecto editorial do PÚBLICO e deve também ser entendida como uma demonstração de respeito pela inteligência dos leitores.

José Queirós

 

 

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>