Segunda-feira negra

(Cró­nica da edi­ção de 22 de Janeiro de 2012)

Uma man­chete falsa é um dos danos mais gra­ves que podem ser infli­gi­dos à cre­di­bi­li­dade de um jor­nal de refe­rên­cia. E é tam­bém um sinal de alerta para vul­ne­ra­bi­li­da­des sérias no plano da orga­ni­za­ção e con­trolo edi­to­ri­ais. Por isso me ocupo hoje do título com que este jor­nal sur­giu nas ban­cas na pas­sada segunda-feira — “Pas­sos já fez mais nome­a­ções do que pri­meiro Governo de Sócra­tes” —, ape­sar de o erro já ter sido reco­nhe­cido, em nota da Direc­ção Edi­to­rial publi­cada na edi­ção seguinte.

Os lei­to­res que de ime­di­ato pro­tes­ta­ram con­tra essa man­chete não pre­ci­sa­ram de tomar conhe­ci­mento de um des­men­tido para se aper­ce­be­rem do erro patente, com grande visi­bi­li­dade, na capa do jor­nal. Bas­tava ler o texto e con­sul­tar o grá­fico das pági­nas seguin­tes para se per­ce­ber que os títu­los esco­lhi­dos, na capa e no inte­rior, expu­nham uma con­clu­são insus­ten­tá­vel, resul­tante de se ter pretendido“comparar” o que não é com­pa­rá­vel: as nome­a­ções fei­tas durante um período de dois meses e meio pelo pri­meiro exe­cu­tivo che­fi­ado por José Sócra­tes e as que o actual governo efec­tuou durante os sete meses que leva no exer­cí­cio do poder.

É ina­cei­tá­vel que o erro que qual­quer lei­tor menos dis­traído pode­ria detec­tar folhe­ando o jor­nal na manhã de segunda-feira tenha pas­sado sem sobres­salto pelo crivo dos meca­nis­mos pro­fis­si­o­nais de edi­ção do PÚBLICO. E será ainda pior, mas no plano deon­to­ló­gico, se alguma cons­ci­ên­cia houve da impro­pri­e­dade dos pro­ces­sos segui­dos neste trabalho.

Na ver­dade, estava tudo errado na man­chete do dia 16. O cri­té­rio de com­pa­ra­ção uti­li­zado, sendo ele pró­prio dis­cu­tí­vel, teria neces­sa­ri­a­mente de con­du­zir, se tivesse sido usado com o mínimo de seri­e­dade, à con­clu­são oposta ao que se afir­mou na man­chete. Como nota a direc­tora do jor­nal, Bár­bara Reis, em res­posta às ques­tões que lhe colo­quei sobre este caso, não só “as com­pa­ra­ções entre as nome­a­ções dos vários gover­nos” deve­riam ter obri­gado à uti­li­za­ção de “uma base tem­po­ral comum que as legi­ti­masse”, como, “mais ainda, se divi­dís­se­mos o total de nome­a­ções pelo número de meses, obte­ría­mos como resul­tado que o actual governo fez pro­por­ci­o­nal­mente menos nome­a­ções do que os ante­ri­o­res”. O con­trá­rio, afi­nal, do que se noticiou.

Acresce que o que se escre­veu a letras gor­das na pri­meira página esta­ria sem­pre tec­ni­ca­mente errado, mesmo abs­traindo do anó­malo cri­té­rio usado para com­pa­rar núme­ros de nome­a­ções. “Pas­sos já fez mais nome­a­ções do que pri­meiro Governo de Sócra­tes” sig­ni­fica que o actual primeiro-ministro nomeou, em sete meses, mais gente do que o seu ante­ces­sor em mais de qua­tro anos, que foi quanto durou o exe­cu­tivo for­mado após as elei­ções de 2005. O que não só é gros­sei­ra­mente falso como não cor­res­ponde sequer ao que se pre­ten­de­ria afir­mar, pois tanto o texto como a info­gra­fia das pági­nas 2 e 3 expli­ca­vam que só foram con­si­de­ra­dos dois meses e meio (os ini­ci­ais, presume-se) da vida desse governo.

Não foram só as esco­lhas dos títu­los que man­cha­ram uma ini­ci­a­tiva edi­to­rial que, a ter sido exe­cu­tada de acordo com as boas regras pro­fis­si­o­nais, teria o mérito de pro­por­ci­o­nar aos lei­to­res o dese­já­vel escru­tí­nio da polí­tica de nome­a­ções para car­gos públi­cos de um governo cujo líder garan­tiu em cam­pa­nha — tal como, aliás, os seus ante­ces­so­res — que rom­pe­ria com a nefasta lógica cli­en­te­lar das esco­lhas fei­tas com base no car­tão par­ti­dá­rio. É do inte­resse público saber se o actual primeiro-ministro está ou não a cum­prir e a fazer cum­prir essa pro­messa (alguns fac­tos refe­ri­dos no con­fuso tra­ba­lho publi­cado suge­rem que não estará), e se tem ao menos vindo a redu­zir o peso da colo­ni­za­ção do Estado pelos apa­re­lhos par­ti­dá­rios (os núme­ros já conhe­ci­dos pare­cem indi­car que sim, até à data, mas as limi­ta­ções da infor­ma­ção dis­po­ní­vel difi­cul­tam uma per­cep­ção exacta). Para escla­re­cer este ponto, uma com­pa­ra­ção com as prá­ti­cas de gover­nos ante­ri­o­res faria todo o sen­tido, se tivesse sido feita com um mínimo de rigor.

Não deve esquecer-se, no entanto, que o escru­tí­nio das nome­a­ções gover­na­men­tais, para ser útil e per­mi­tir for­mar opi­niões com base numa infor­ma­ção cor­recta, não pode limitar-se a uma con­ta­bi­li­za­ção de des­pa­chos. Nem sequer, embora esse dado seja cer­ta­mente rele­vante, ao conhe­ci­mento da fili­a­ção par­ti­dá­ria (se a têm) dos nome­a­dos. O que mais impor­tará à opi­nião pública e à dese­já­vel trans­pa­rên­cia no pre­en­chi­mento de car­gos diri­gen­tes é saber se as opções gover­na­men­tais são fei­tas com base no mérito pes­soal e na com­pe­tên­cia pro­fis­si­o­nal dos esco­lhi­dos. E, para isso, o que importa conhe­cer é o seu cur­rí­culo e his­tó­ria pes­soal. Se o poder polí­tico dis­po­ni­bi­liza esses dados, é papel do jor­na­lismo verificá-los. Se o não faz, é dever do jor­na­lismo investigá-los. Se uma aná­lise glo­bal é inviá­vel, o inqué­rito deve dar pri­o­ri­dade aos que são indi­ca­dos para car­gos de maior rele­vân­cia na admi­nis­tra­ção pública. Em qual­quer caso, inves­ti­gar uma polí­tica de nome­a­ções não é con­tar nomes no Diá­rio da Repú­blica.

Por outro lado, uma ini­ci­a­tiva edi­to­rial como esta não deve limitar-se a debi­tar valo­res quan­ti­ta­ti­vos. Se a ambi­ção é escla­re­cer bem os lei­to­res, importa dis­cri­mi­nar qua­li­ta­ti­va­mente a infor­ma­ção, o que no tra­ba­lho publi­cado é feito sem a ênfase ou o cui­dado apro­pri­a­dos, e em alguns aspec­tos é igno­rado. Alguns exem­plos: importa dis­tin­guir entre novas nome­a­ções e recon­du­ções (os núme­ros exi­bi­dos na capa do PÚBLICO não o fazem), entre a com­po­si­ção de gabi­ne­tes minis­te­ri­ais e os car­gos diri­gen­tes da admi­nis­tra­ção (é nes­tes que deve concentrar-se a aten­ção a cri­té­rios de “con­fi­ança polí­tica” que pos­sam fomen­tar o cli­en­te­lismo e abrir por­tas à medi­o­cri­dade), e ainda entre as posi­ções de maior res­pon­sa­bi­li­dade e as res­tan­tes (a rele­vân­cia pública da esco­lha de um director-geral não é a mesma da de um moto­rista, embora ambas inte­grem a lista glo­bal de nomeações).

Outro aspecto cri­ti­cá­vel na edi­ção do dia 16 é o facto de a info­gra­fia publi­cada na capa ter o título “Nome­a­ções fei­tas nos pri­mei­ros meses de acti­vi­dade pelos últi­mos cinco gover­nos”, ocul­tando o que se des­co­bre nas pági­nas seguin­tes: que esses “pri­mei­ros meses” sig­ni­fi­cam perío­dos de tempo muito dife­ren­tes entre si. A falta de rigor era agra­vada no edi­to­rial, que assu­mia como boas as con­clu­sões reti­ra­das de com­pa­ra­ções ile­gí­ti­mas, e recor­ria ao con­ceito ainda mais vago de nome­a­ções fei­tas pelos gover­nos “num pri­meiro tempo”.

A nota que na edi­ção seguinte, no inte­rior do jor­nal, reco­nhe­cia e cor­ri­gia o erro da man­chete da vés­pera deve ser sau­dada como um gesto indis­pen­sá­vel ao res­ta­be­le­ci­mento da con­fi­ança dos lei­to­res que acu­sa­ram o PÚBLICO de “mani­pu­la­ção” e “má-fé”. Revelar-se-á cre­dí­vel se forem toma­das as medi­das neces­sá­rias para que não se jus­ti­fi­quem no futuro recla­ma­ções seme­lhan­tes às desta “segunda-feira negra”. Na mesma página, porém, uma nova notí­cia dei­xava por escla­re­cer as dis­cre­pân­cias, rea­fir­ma­das, entre dados divul­ga­dos por gover­nan­tes e núme­ros “apu­ra­dos pelo PÚBLICO”, e dava a conhe­cer que no por­tal do governo na Inter­net fora actu­a­li­zada a con­ta­bi­li­za­ção das nome­a­ções já efec­tu­a­das (1682, das quais 962 recon­du­ções). Essa infor­ma­ção, aliás, estava dis­po­ní­vel desde domingo (mas “já fora do nosso horá­rio de fecho”, garante o jor­na­lista João d’Espiney, autor da peça prin­ci­pal da edi­ção de 16 de Janeiro).

Con­si­dero tam­bém cri­ti­cá­vel que na pri­meira página da edi­ção de terça-feira não tenha sido feita qual­quer refe­rên­cia ao facto de a man­chete da vés­pera não ser ver­da­deira. Mereciam-no os lei­to­res fiéis e todos os que no dia ante­rior tenham olhado, nas ban­cas, para a capa do PÚBLICO. A agra­var essa lacuna, sur­gia, com des­ta­que, uma cha­mada inti­tu­lada “Nome­a­ções / Caiu o ‘tro­vão da des­con­fi­ança’ e aca­bou o estado de graça do Governo”, que reme­tia para tex­tos de opi­nião sobre as recen­tes e con­tes­ta­das esco­lhas para car­gos de topo nas empre­sas EDP e Águas de Por­tu­gal e os seus efei­tos para a ima­gem do governo de Pas­sos Coe­lho. Na capa, porém, falava-se ape­nas, gene­ri­ca­mente, em “nome­a­ções”, num exer­cí­cio de ambi­gui­dade que suge­ria ao lei­tor incauto que a “des­con­fi­ança” e o fim do “estado de graça” do governo viriam na sequên­cia da man­chete de segunda-feira.

O jor­nal deve agora repa­rar o erro come­tido e infor­mar os lei­to­res sobre o que real­mente se passa em maté­ria de nome­a­ções gover­na­men­tais. Bár­bara Reis asse­gura que “esse tra­ba­lho está em curso e con­sis­tirá na com­pa­ra­ção das nome­a­ções fei­tas pelo actual governo num período de sete meses — o refe­rente usado neste tra­ba­lho para o exe­cu­tivo Pas­sos Coe­lho — com um período idên­tico para os res­tan­tes gover­nos”. Permito-me suge­rir que o esforço não se limite à lei­tura ano­tada do Diá­rio da Repú­blica.

Entre as cau­sas deste desas­tre jor­na­lís­tico, a direc­tora refere “a esco­lha de um cri­té­rio errado pelo jor­na­lista” e “o acom­pa­nha­mento ina­de­quado do tra­ba­lho” pela direc­ção. E con­clui que “fal­tou san­gue frio para, quando o tra­ba­lho foi entre­gue ao fim do dia de domingo, can­ce­lar a sua publi­ca­ção, esco­lher outro tema para aque­las pági­nas e repa­gi­nar todo o jornal”.

Por mim, quanto às lições a tirar deste caso, julgo que a ênfase deve ser colo­cada na revi­são dos meca­nis­mos de escru­tí­nio interno do pro­cesso de pro­du­ção das notí­cias. Um jor­nal como o PÚBLICO não pode dis­pen­sar meios de con­trolo edi­to­rial hie­rár­quico que garan­tam a qua­li­dade e o rigor da infor­ma­ção que publica. A cre­di­bi­li­dade e o res­peito pelos lei­to­res são incom­pa­tí­veis com a levi­an­dade ou o des­leixo no enqua­dra­mento do tra­ba­lho redac­to­rial. Vale a pena reflec­tir, mesmo se as con­si­de­rar­mos exces­si­vas, nas pala­vras de Manuel Vaz, um dos lei­to­res que pro­tes­ta­ram con­tra a man­chete do dia 16. Dizendo recear que o jor­nal queira “distinguir-se por títu­los pom­po­sos, mas total­mente ina­de­qua­dos a quem tenha dois dedos de testa”, avisa: “Não é bom cami­nho; ou então é, mas enganam-se no alvo”.

José Quei­rós

 

 

Docu­men­ta­ção complementar

Algu­mas men­sa­gens de lei­to­res sobre a man­chete da edi­ção de 16.01.12

1.
“No dia 16 de Janeiro de 2012, o Público titu­lava em man­chete” Pas­sos Coe­lho já nomeou mais pes­soas do que o 1.º Governo de Sócra­tes”. O título vinha ilus­trado com uma ima­gem com as fotos dos últi­mos primeiros-ministros e uma barra com o número de nome­a­ções fei­tas “nos pri­mei­ros meses de Governo”. Lendo o texto, constata-se que o número de nome­a­ções apon­tado ao actual Governo cor­res­ponde ao período de “quase sete meses”, ao passo que as nome­a­ções impu­ta­das aos Gover­nos de José Sócra­tes são de “dois meses e meio” (pri­meiro Governo) e “três meses e meio” (segundo Governo). Ora, com­pa­rar perío­dos tão diver­sos para con­cluir com a afir­ma­ção da man­chete não pode dei­xar de ser enten­dido, por quem leia o texto, como um mani­festo exer­cí­cio de má-fé por parte de um jor­nal que já com­prei e li dia­ri­a­mente e que agora, por estas e por outras, ape­nas com­pro de forma muito espo­rá­dica. É fre­quente no Público apa­re­ce­rem títu­los mani­fes­ta­mente apres­sa­dos, que não cor­res­pon­dem mini­ma­mente ao que consta do texto que titu­lam. Mas não me recordo de ver isso acon­te­cer na man­chete da pri­meira página (passe a redun­dân­cia). Será que ao domingo não há nenhum edi­tor de ser­viço no jor­nal?
16 de Janeiro de 2012
C. Lou­reiro

2.
Foi com alguma indig­na­ção que eu, lei­tor habi­tual do vosso jor­nal, e reco­nhe­cendo o exce­lente tra­ba­lho jor­na­lís­tico que é pra­ti­cado na vossa redac­ção, me depa­rei com a notí­cia que fazia man­chete na edi­ção n.º 7952 de 16 de Janeiro de 2012, na qual se pode ler “Pas­sos já fez mais nome­a­ções do que pri­meiro Governo de Sócra­tes”.
Cum­pre aqui, desde já, cla­ri­fi­car que não tenho quais­quer fili­a­ções par­ti­dá­rias, e que a opi­nião aqui expressa é a de um sim­ples cida­dão atento à actu­a­li­dade naci­o­nal. A minha indig­na­ção prende-se com a clara dis­cre­pân­cia entre o título na capa e a notí­cia em si mesma. Nesta notí­cia, pre­sente nas pági­nas 2 e 3 da refe­rida edi­ção, pode­mos cla­ra­mente cons­ta­tar que, ao con­trá­rio do que está na capa, não só o que de facto se com­para não é o “pri­meiro Governo de Sócra­tes” — de 4 anos — com os sete meses de Governo de Pas­sos Coe­lho, como ainda se quer com­pa­rar ape­nas dois meses e meio do 1º Governo de Sócra­tes com os sete meses de gover­na­ção de Pas­sos Coe­lho (v. grá­fico da página 3).
Ora, esta esco­lha não me parece plau­sí­vel. Isto por­que o eng. José Sócra­tes cum­priu de facto pelo menos 7 meses em cada um dos seus Gover­nos, pelo que a opção de com­pa­ra­ção deve­ria ser, obvi­a­mente, com­pa­rar 7 meses de cada Governo para se apu­rar quan­tas haviam sido as nome­a­ções. Se tal não fosse pos­sí­vel, dever-se-ia com­pa­rar ape­nas 2 meses e meio de cada Governo. A opção de usar uma com­pa­ra­ção com qua­tro medi­das tem­po­rais dife­ren­tes — 2 meses e meio, 3 meses e meio, 5 meses e 7 meses — parece-me injustificada. Por tudo isto acima indi­cado con­si­dero que a capa da edi­ção men­ci­o­nada serve ape­nas, infe­liz­mente, para o pro­pó­sito de lucrr com infor­ma­ção sen­sa­ci­o­na­lista que não é ver­da­deira do que para infor­mar os lei­to­res, o que acho que acaba por ser frus­trante para os lei­to­res que todos os dias pagam para ler o vosso jor­nal.
16 de Janeiro de 2012
André  Reis e Silva

3.
Será iro­nia, mas, no mesmo dia em que escreve um texto sobre “O valor da leal­dade em jor­na­lismo”, o seu Público serve-nos com requinte um título de pri­meira página que não lem­bra ao diabo. Julgo mesmo a raiar a inso­lên­cia para com os seus lei­to­res. Abre-se a página 3 e percebe-se que o jor­na­lista (será?) andou a catar datas para poder enga­nar o lei­tor. Não é que a com­pa­ra­ção é feita entre os dois meses e meio do pri­meiro Governo de José Sócra­tes e os sete meses do Governo Pas­sos Coe­lho? Não lem­bra real­mente ao diabo. Lamen­ta­vel­mente, o Público vem ulti­ma­mente a que­rer distinguir-se por títu­los pom­po­sos, mas total­mente ina­de­qua­dos a quem tenha dois dedos de testa. Não é bom cami­nho, ou então, é, mas enganam-se no alvo. Ulti­ma­mente, tenho-me defen­dido com a única arma de que dis­po­nho: deixo de com­prar o jor­nal um dia ou dois até me pas­sar a raiva (…).
17 de Janeiro de 2012
Manuel Vaz
Lavra

4.
(…) Ao com­pa­rar o número de nome­a­ções deste Governo em 6 meses, fizeram-no não res­pei­tando nas várias com­pa­ra­ções um mesmo período-6 meses. Efec­ti­va­mente no dia seguinte regis­ta­ram o erro, infor­ma­ram — mas não vol­ta­ram a publi­car os núme­ros cor­ri­gi­dos. Deviam, entendo eu (…).
Con­ti­nuo a gos­tar do jor­nal diá­rio, acho que é o melhor, mas espero con­tri­buir para um “limar ” no sen­tido da ver­dade e rigor.
19 de Janeiro de 2012
Maria Manu­ela Ramos de Melo Rocha
Porto

5.
Esta foi uma semana negra para o Público. Come­çou por divul­gar con­clu­sões mani­pu­la­do­ras sobre as nome­a­ções do governo. Numa altura em que o governo está debaixo de fogo por causa das nome­a­ções para a EDP, a notí­cia do Público não aju­dou a escla­re­cer a ques­tão, antes se pres­tou às mai­o­res dema­go­gias.
(…)Os jor­nais atra­ves­sam momen­tos difí­ceis. O Público não é excep­ção. Os lei­to­res são pou­cos e o Público parece apos­tado em fazer jor­na­lismo para afu­gen­tar os pou­cos que res­tam (…).
20 de Janeiro de 2012
Miguel Aze­vedo

 

Per­gun­tas ao jor­na­lista João d’Espiney

1) Com que fun­da­mento foi deci­dido esta­be­le­cer com­pa­ra­ções (paten­tes nos títu­los das pági­nas 1 e 2 de 16.01) entre dife­ren­tes gover­nos acerca do número de nome­a­ções efec­tu­a­das, quando o pró­prio texto e o grá­fico que o acom­pa­nha tor­nam claro que foram con­ta­bi­li­za­das nome­a­ções fei­tas em perío­dos de tempo subs­tan­ci­al­mente dife­ren­tes?
2) Por que é que títu­los e aber­tura do des­ta­que foram cons­truí­dos em torno dessa ideia de com­pa­ra­ção com ante­ri­o­res gover­nos, quando na pró­pria peça se afirma que “resta aguar­dar ainda alguns meses” para se pode­rem “fazer com­pa­ra­ções com os ante­ri­o­res gover­nos”?
3) Por que é que a “nota meto­do­ló­gica” publi­cada ignora o “cri­té­rio” de com­pa­ra­ção uti­li­zado, bem como a dis­tin­ção entre novas nome­a­ções e recon­du­ções?
4) Segundo o Diá­rio Eco­nó­mico de 16/01, citando um des­pa­cho da Lusa, os dados rela­ti­vos a nome­a­ções tinham sido actu­a­li­za­dos a 15/1 (domingo) no por­tal do Governo. Esses ele­men­tos não foram tidos em conta? Porquê?
5) Por que é que se optou pelo método de con­si­de­rar ape­nas as nome­a­ções publi­ca­das no Diá­rio da Repú­blica, quando na pró­pria peça se reco­nhece que esses dados não retra­tam a rea­li­dade actual?
6) Na peça de 17.01constata-se que os núme­ros de nome­a­ções anun­ci­a­dos pelo Governo são “dife­ren­tes” dos “apu­ra­dos pelo PÚBLICO”, sem que se diga cla­ra­mente quais são cor­rec­tos. Porquê?
7) Não con­si­dera que o jor­nal tem a obri­ga­ção de vol­tar em breve ao assunto, escla­re­cendo os lei­to­res sobre qual é a situ­a­ção real nesta maté­ria das nome­a­ções?
19 de Janeiro de 2012
J.Q.

 

Res­posta do jor­na­lista João d’Espiney

1 e 2 — A deci­são foi errada e teve ape­nas a ver com o facto de os perío­dos ana­li­sa­dos nos gover­nos ante­ri­o­res se repor­ta­rem aos momen­tos em que fiz este levan­ta­mento quando ainda estava nou­tros jor­nais (e por­tanto as datas em que foram publi­ca­dos). O objec­tivo foi sem­pre dar uma ideia do número de nome­a­ções nos pri­mei­ros meses de man­dato do res­pec­tivo Governo. No texto faço refe­rên­cia ao levan­ta­mento que fiz no pas­sado em rela­ção ao número de nome­a­ções efec­tu­a­das pelos Gover­nos de Durão Bar­roso e o pri­meiro de José Sócra­tes ao fim de dois anos de man­dato. Esses perío­dos, por serem iguais, eram com­pa­rá­veis. E esse devia ter sido o cri­té­rio do tra­ba­lho agora em ques­tão.
3– A nota meto­do­ló­gica foi feita com o objec­tivo de expli­car ao lei­tor como fiz a con­ta­bi­li­za­ção em rela­ção a alguns orga­nis­mos que vão ser objecto de extinção/fusão no âmbito do Plano de Redu­ção e Melho­ria da Admi­nis­tra­ção Pública (Pre­mac). A nota não explica a dis­tin­ção entre novas nome­a­ções e recon­du­ções, mas essa infor­ma­ção está no texto prin­ci­pal.
4– O por­tal do Governo foi de facto actu­a­li­zado, mas só à noite, já fora do nosso horá­rio de fecho. Por outro lado, nem todas as nome­a­ções publi­ca­das no Por­tal tinham saído em Diá­rio da Repú­blica, e por isso achei que me deve­ria cin­gir ao cri­té­rio de uti­li­zar os des­pa­chos publi­ca­dos em DR.
5- O cri­té­rio das nome­a­ções publi­ca­das em DR sem­pre foi o que segui nos tra­ba­lhos que fiz em rela­ção aos ante­ri­o­res gover­nos. As nome­a­ções públi­cas em DR não retra­tam a rea­li­dade na medida em que o Governo ainda vai ter de nomear mui­tas pes­soas para car­gos diri­gen­tes da Admi­nis­tra­ção Pública, na sequên­cia das novas leis orgâ­ni­cas dos vários Minis­té­rios decor­ren­tes do Pre­mac, cujo pro­cesso ainda está longe de estar con­cluído.
6- Não é ver­dade. O que escrevi foi: “Até sexta-feira, tinham sido publi­ca­dos um total de 1097 nome­a­ções, das quais 750 para os gabi­ne­tes. Para os car­gos diri­gen­tes da admi­nis­tra­ção directa e indi­recta, sec­tor empre­sa­rial do Estado e outras fun­ções em orga­nis­mos e estru­tu­ras da AP, foram con­ta­bi­li­za­das 347 nome­a­ções, 131 das quais cor­res­pon­diam a recon­du­ções e 216 a novas nome­a­ções.”
7-Sem dúvida. É por isso estou a pre­pa­rar um novo tra­ba­lho com o objec­tivo de infor­mar cor­rec­ta­mente os lei­to­res.
20 de Janeiro de 2012
João d’Espiney

 

Per­gun­tas à direc­tora do PÚBLICO, Bár­bara Reis

 1) Como é que foi pos­sí­vel construir-se uma man­chete [16.01] com base em com­pa­ra­ções que a pró­pria Direc­ção veio depois a reco­nhe­cer que não podiam ser fei­tas? Como foi acom­pa­nhado o tra­ba­lho do autor da peça e como foram vali­da­das (se foi esse o caso) as suas con­clu­sões?
2) Os perío­dos tem­po­rais cla­ra­mente iden­ti­fi­ca­dos no grá­fico da pág.3 (e na notí­cia) não auto­ri­za­vam as com­pa­ra­ções fei­tas, como se reco­nhece no “Escla­re­ci­mento e cor­rec­ção” de 17.01. Foram dis­cu­ti­dos e apro­va­dos os “cri­té­rios” que pre­si­di­ram às “com­pa­ra­ções” efec­tu­a­das?
3) Tendo em conta que são refe­ri­dos perío­dos tem­po­rais muito dife­ren­tes para com­pa­rar a acção de vários gover­nos em maté­ria de nome­a­ções, o con­ceito de “nome­a­ções num pri­meiro tempo”, uti­li­zado no edi­to­rial, não deve ser visto como um exem­plo de falta de rigor?
4) Por que é que títu­los e aber­tura do des­ta­que foram cons­truí­dos em torno dessa ideia de com­pa­ra­ção com ante­ri­o­res gover­nos, quando na pró­pria peça se afirma que “resta aguar­dar ainda alguns meses” para se pode­rem “fazer com­pa­ra­ções com os ante­ri­o­res gover­nos”?
5) Segundo o Diá­rio Eco­nó­mico de 16/01, citando um des­pa­cho da Lusa, os dados rela­ti­vos a nome­a­ções tinham sido actu­a­li­za­dos a 15/1 (domingo) no por­tal do Governo. Esses ele­men­tos não foram tidos em conta no Des­ta­que? Porquê?
6) Na edi­ção de 3ª feira, foram noti­ci­a­dos os núme­ros refe­ren­tes a nome­a­ções divul­ga­dos pelo gabi­nete do minis­tro adjunto e dos Assun­tos Par­la­men­ta­res. O jor­nal não os ques­ti­ona, mas nota que são “dife­ren­tes” dos que apu­rou atra­vés do Diá­rio da Repú­blica. Não con­si­de­ram que os lei­to­res deve­riam ser infor­ma­dos de qual é a ver­dade neste domí­nio?  
7) Por que é que se optou pelo método de con­si­de­rar ape­nas as nome­a­ções publi­ca­das no Diá­rio da Repú­blica, quando na pró­pria peça se reco­nhece que esses dados não retra­ta­vam a rea­li­dade actual?
8) Por que é que não foram dis­tin­gui­das com cla­reza novas nome­a­ções e recon­du­ções?
9) Por que é que, até hoje, não foi publi­cada uma notí­cia que res­ponda, com o rigor dese­já­vel, às ques­tões sus­ci­ta­das pela man­chete de 2ª feira?
19 de Janeiro de 2012
JQ

 

Res­posta de Bár­bara Reis

A direc­ção reco­nhece que foi uti­li­zado um cri­té­rio errado nas com­pa­ra­ções que deram ori­gem à man­chete e aos títu­los das pági­nas 2 e 3 da edi­ção de segunda-feira, 16. As com­pa­ra­ções entre as nome­a­ções dos vários gover­nos nunca pode­riam ter sido fei­tas sem uma base tem­po­ral comum que as legi­ti­masse. Mais ainda, se divi­dís­se­mos o total de nome­a­ções pelo número de meses, obte­ría­mos como resul­tado que o actual governo fez pro­por­ci­o­nal­mente menos nome­a­ções do que os ante­ri­o­res. Foi um erro ina­cei­tá­vel que lamen­ta­mos e pelo qual pedi­mos des­culpa aos lei­to­res na edi­ção do dia seguinte, terça-feira, 17.
Como foi pos­sí­vel este erro? Ini­ci­al­mente foi pro­posto ao jor­na­lista João d’Espiney um tra­ba­lho sobre nome­a­ções, maté­ria que o jor­na­lista domina, em que as com­pa­ra­ções com o pas­sado fos­sem fei­tas com base num deno­mi­na­dor tem­po­ral comum (seis meses). No entanto, a base de dados que o jor­na­lista uti­liza e uti­li­zou no pas­sado não per­mi­tia essa com­pa­ra­ção, o que des­co­nhe­cía­mos. Falhou a direc­ção ao não ter acom­pa­nhado ade­qua­da­mente o tra­ba­lho do jor­na­lista, embora esti­vesse cons­ci­ente da com­ple­xi­dade da maté­ria a tra­tar, dada a quan­ti­dade de dados que teriam de ser con­sul­ta­dos. No momento da publi­ca­ção, o cri­té­rio seguido no tra­ba­lho tam­bém não foi ques­ti­o­nado ade­qua­da­mente pela direc­ção. Houve um con­junto de erros, da esco­lha de um cri­té­rio errado pelo jor­na­lista ao acom­pa­nha­mento ina­de­quado do tra­ba­lho. E fal­tou san­gue frio para, quando o tra­ba­lho foi entre­gue ao fim do dia de domingo, can­ce­lar a sua publi­ca­ção, esco­lher outro tema para aque­las pági­nas e repa­gi­nar todo o jor­nal.
Não nos foi pos­sí­vel, desde segunda-feira, pro­du­zir uma nova notí­cia que cor­ri­gisse esse erro. Esse tra­ba­lho está em curso e con­sis­tirá na com­pa­ra­ção das nome­a­ções fei­tas pelo actual governo num período de sete meses – o refe­rente usado neste tra­ba­lho para o exe­cu­tivo Pas­sos Coe­lho – com um período idên­tico para os res­tan­tes gover­nos refe­ri­dos neste tra­ba­lho, a única forma de dar aos lei­to­res infor­ma­ção rigo­rosa sobre este tema.
20 de Janeiro de 2012
Bár­bara Reis

 

 

 

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