Ainda o desacordo ortográfico

(Crónica da edição de 31 de Julho de 2011)

Cinco semanas atrás, em crónica dedicada às inquietações de alguns leitores sobre a vontade do PÚBLICO em manter-se fiel à sua anunciada recusa de aplicar as normas do Acordo Ortográfico (AO), escrevi que presumia — não o podendo saber ao certo — que boa parte dos leitores simpatizasse com a opção assumida pelo jornal. Tal presunção baseava-se, como expliquei, no facto de receber numerosas mensagens manifestando apoio à posição do PÚBLICO, ou o receio de que ela possa vir a ser alterada face à aproximação da entrada em vigor do AO no sistema de ensino e na administração pública. Em contrapartida, nunca me tinham chegado reclamações contra a fidelidade do jornal à ortografia tradicional
.
Já não é exactamente assim. No próprio dia da publicação dessa crónica, escreveu-me o leitor Manuel Leal, a colocar-me, em mensagem escrita de acordo com as normas do AO, “a hipótese de o PÚBLICO receber mais cartas de apoio à orientação atual simplesmente porque tem tido grande êxito em afastar todos os leitores que (…) não se reveem na histeria dos opositores ao acordo”. É uma hipótese possível, mas que me parece pouco convincente. Tenho recebido por vezes cartas de leitores comunicando que tencionam pôr termo (ou que admitem fazê-lo) à sua ligação ao jornal, por um qualquer motivo de desagrado com a linha editorial ou algum trabalho jornalístico concreto, mas nunca por discordarem da posição adoptada na querela ortográfica. Por outro lado, a direcção editorial informa-me de que as reacções que lhe chegam sempre que o tema regressa com alguma força às páginas do jornal, como sucedeu nas últimas semanas, são esmagadoramente favoráveis à orientação vigente.
Mas reconheço não dispor de dados seguros para dar por certo o que presumo. E considero provável que a entrada em vigor do acordo nas escolas e na documentação oficial, certamente seguida pela adesão de outras entidades à mudança ortográfica, venha a revelar a existência de leitores que por enquanto não deram importância ao tema — por pouco o sentirem no seu quotidiano —, mas que poderão então questionar a decisão tomada pela direcção do PÚBLICO. Resta saber se tal acontecerá em número significativo, se esse número tenderá a crescer (nomeadamente entre os leitores mais jovens, que irão confrontar-se com as alterações da grafia no sistema de ensino) e se a eventual perturbação resultante das diferenças entre o português escrito no jornal e o que lerão noutros suportes irá sobrepor-se aos motivos substanciais que os levaram a preferir o PÚBLICO a outros órgãos de informação.
Para já, e para além do leitor acima referido — que se propôs “dar voz aos (…) que se calhar gostariam de ver o PÚBLICO adotar uma atitude mais razoável em relação ao AO” —, devo registar a reclamação que me foi enviada na semana passada por José Carlos Marques, que acusa o jornal de prosseguir uma “campanha militante” contra o acordo. Referindo-se aos artigos de opinião que têm vindo a ser publicados acerca do tema, este leitor considera existir uma “desproporção” no espaço concedido às “duas posições” em confronto, o que na sua opinião ” vai além do direito que o jornal tem de fazer campanha pelas suas opções, pois esquece a obrigação de um mínimo de equilíbrio, como órgão de informação que é”.
Em carta anteriormente enviada à direcção do PÚBLICO, e que refere não ter sido publicada, José Carlos Marques escrevera: “Não ponho em causa que o jornal assuma no assunto uma posição oposta à posição oficial do país (…). Intriga-me no entanto que o faça de uma forma tão passional. Um jornal não ignora que tem leitores que não se identificam necessariamente a cem por cento com as suas posições”. E noutro passo: Que o jornal adote a ortografia (…) ‘caducada’ ou em transição, nada a objetar. Que a imponha em tudo o que é escrito pelos jornalistas do seu quadro, muito bem. Quanto aos colaboradores externos, parece abusivo que estejam sujeitos a ‘pedir’ que se publique o que escrevem, como é seu direito, numa ortografia que é aquela que está em vigor”. Admitindo que “o acordo tem fragilidades”, o leitor conclui no entanto que “a forma como o PÚBLICO denigre a atual ortografia parece ultrapassar o razoável” e revela “sectarismo”.
O director adjunto Nuno Pacheco, que tem subscrito várias crónicas muito críticas para os defensores do AO, rebate as acusações: “A ‘desproporção’ de que o leitor acusa o PÚBLICO nas posições face ao Acordo Ortográfico deve-se a uma coisa simples: são essas as posições que nos chegam, de leitores e comentadores. E reflecte outra realidade: é que do lado dos detractores do acordo há ainda interesse em discuti-lo, enquanto do lado dos seus apoiantes (que dão o assunto por legalmente arrumado) esse interesse só se manifesta quando os adversários vêm a público apresentar os seus argumentos”. Quanto às posições assumidas pelo próprio jornal contra o AO (veja-se por exemplo o editorial do passado dia 20, em que o acordo é descrito como um “atentado” contra a língua), este membro da direcção do PÚBLICO defende que a alegada “campanha” visa apenastrazer à discussão aquilo que os defensores do AO não querem que se discuta: a sua razoabilidade e mesmo a sua legitimidade”. 
Face à acusação, feita pelo mesmo leitor, de que “os adversários portugueses” do acordo se julgam “proprietários de uma língua que há muito se escreve em partes do universo lusófono de maneira divergente daquela que defendem”, o director adjunto responde: “O argumento não colhe. Ninguém, a não ser os assinantes do acordo, se acha proprietário de coisa alguma. Quem acha possível impor por lei o que a prática não consigna são os seus defensores. Os outros, entre os quais se inclui o PÚBLICO, gostariam de ver consignadas de forma clara as variantes já existentes na grafia da língua portuguesa, em lugar de fingir, para efeitos diplomáticos de duvidosa utilidade, que a partir de agora há uma ortografia ‘comum’”.
Quanto à fórmula utilizada nos textos de dois cronistas do PÚBLICO (“a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico”), Nuno Pacheco explica nada ter de “abusivo”, já que “corresponde à realidade”: “É, de facto, a seu pedido (não tiveram que pedir, pediram e foi de imediato aceite) que tal se verifica, sem o mínimo problema”. E recorda, a propósito, que no semanário Expresso, e na sua revista Atual, também se pode ler, mas em sentido inverso, que determinados cronistas escrevem “de acordo com a antiga ortografia”.
Assumindo-se como opositor à transformação ortográfica, o director adjunto do PÚBLICO questiona o que seria uma atitude “mais razoável” face ao AO, como pede, por exemplo, Manuel Leal: “Equivaleria a quê? À aceitação das regras, embora delas discordando?”. Respondendo ao argumento desse leitor — que também não concorda com “alguns aspetos” do acordo, mas considera que “mesmo assim contribui significativamente para o objetivo confesso de homogenização ortográfica do espaço lusófono, que deveria ser uma prioridade estratégica para Portugal” —, Nuno Pacheco contrapõe que “esse objectivo confesso é não apenas uma impossibilidade como uma descarada ilusão”. Na sua opinião, “não existe homogeneização alguma, porque mesmo com a queda forçada de consoantes mudas, acentos gráficos, tremas e hífens, é tal a quantidade de duplas grafias consentidas pelo acordo que falar-se em ‘unidade’ é enganar-nos a todos”, dado que “o espaço lusófono já criou grafias dissonantes que vão manter-se e até mesmo acentuar-se no futuro”. Pensa, por isso que, “mais do que um falso caminho de sentido único, a escrita precisava de uma via que reconhecesse claramente o caminho múltiplo das suas naturais diversidades”.
Enquanto provedor do leitor, e como já aqui expliquei, não vejo motivo para criticar a opção do PÚBLICO nesta matéria, que é legítima e transparente. No plano da opinião, adeptos e adversários do acordo têm tido espaço para argumentar e contra-argumentar nestas páginas, e mesmo uma “desproporção” favorável aos segundos é compreensível, pelas razões aduzidas por Nuno Pacheco. A distinção entre informação e opinião no tratamento do tema tem sido assegurada. Parece-me provável que a atenção que lhe é dada no plano informativo, em contraste com outros órgãos de comunicação, seja em parte influenciada pela posição contrária ao AO assumida pelo jornal — mas com isso, julgo, têm saído a ganhar os leitores, qualquer que seja a sua sensibilidade nesta matéria. E creio que, estando a aproximar-se o início da aplicação oficial da nova ortografia, com todos os problemas que lhe estão associados, será até aconselhável reforçar essa atenção.
Se há pouco mais de um mês a direcção do PÚBLICO admitia “que ainda é possível inviabilizar o acordo”, os sinais entretanto dados pela nova maioria governamental terão contribuído para retirar crédito a essa hipótese. Continuará no entanto a fazer sentido acolher um debate — político, cultural, científico — que não desaparecerá tão cedo. Não vejo motivos, por exemplo, para não ter sido publicada a carta em que o leitor José Carlos Marques criticava a orientação do jornal.
Suponho, como referi acima, que o anunciado avanço da nova ortografia no espaço público poderá tornar a sua rejeição por este jornal mais polémica, a prazo, entre alguns dos seus leitores. Espero que nesse debate específico não seja esquecido que a qualidade do jornalismo não depende da opção tomada na querela ortográfica, embora dependa, evidentemente, da correcta aplicação da ortografia adoptada.
José Queirós

 

Documentação complementar

Carta do leitor Manuel Leal

Acabo de ler a sua crónica intitulada “Esta ainda não é a aldeia de Astérix”, dedicada à não implementação do acordo ortográfico (AO) pelo Público. Apreciei a sua crónica e o distanciamento que conseguiu manter em relação às duas correntes de opinião, embora lamente que tenha dado eco – citando outrém, é verdade – ao espantalho da imposição legal do acordo ao espaço privado. É um disparate que não merece crédito, venha de onde vier.
Gostava de aproveitar a oportunidade para dar voz aos leitores que se calhar gostariam de ver o Público adotar uma atitude mais razoável em relação ao AO. Sou profissional da língua e como tal acompanhei as discussões sobre o acordo ortográfico desde 1985. Li muitos argumentos a favor e contra e, no cômputo geral, concluí que o acordo era um passo em frente na boa direção. Não concordo com alguns aspetos do mesmo, mas parece-me que mesmo assim contribui significativamente para o objetivo confesso de homogenização ortográfica do espaço lusófono, que deveria ser uma prioridade estratégica para Portugal.
A opção do Público de rejeitar o AO, opção cuja legitimidade não discuto, foi portanto uma desilusão para mim e contribuiu para me afastar ainda mais de um jornal de que já fui leitor assíduo. Tenho pena, mas o Público transmite cada vez mais a imagem de um jornal embrechado no passado e no combate à mudança e que optou por se fazer refém de uma minoria ruidosa (recordo que a última manifestação à porta da Assembleia da República teve exatamente… 3 pessoas!).
Para terminar, gostava de pôr à sua consideração a hipótese de o Público receber mais cartas de apoio à orientação atual simplesmente porque tem tido grande êxito em afastar todos os leitores que, como eu, não se reveem na histeria dos opositores ao acordo,
P.S.- Como terá reparado, este texto está escrito de acordo com a nova ortografia. As diferenças são mínimas. Justifica-se tanto barulho ?
28 de Junho de 2011
Manuel Leal

Primeira carta do leitor José Carlos Marques

[Segue, abaixo] o texto de uma carta que enviei à diretora do jornal Público.Até sexta-feira dia 15 de julho, não notei que tivesse saído no jornal qualquer transcrição (talvez apenas simples demora; demasiado extensa a minha carta? mas já tenho visto cartas de leitores mais extensas nesse jornal; mas o jornal tem a faculdade de cortar ou resumir; ou talvez simples e inatacável opção editorial).
A única coisa que poderia ser reflexo de a carta ter sido lida (mas é sem dúvida excessiva pretensão minha) é o facto de, ao lado da nota sobre o autor do texto que constitui o outro anexo (datado de 13 de julho), constar a explicação “que usa o Acordo Ortográfico” e não a fórmula habitual nas crónicas de dois habituais colaboradores, creio que os únicos que o fazem habitualmente, que usam o AO mas a que o jornal se refere dizendo que os seus artigos seguem o AO “a pedido do autor”.
[Acerca] de um artigo do constitucionalista Jorge Miranda, datado de 13 de julho de 2011, (…) A atitude de Jorge Miranda é de grande modéstia. Começa por avisar que “não é especialista em linguística”. Isso contrasta deimediato com o tom da maior parte (mas não, felizmente, a dos meus amigos adversos ao AO) dos adversários públicos do acordo e com o da própria direção do Público, que se carateriza quase sempre por um caráter passional a roçar o fanatismo e por vezes extremamente deselegante, recorrendo mesmo a insultos para com os que conceberam, negociaram ou anteciparam as vias para o acordo; que seriam ignorantes, inimigos da língua portuguesa, necessariamente antipatriotas – o que se deduz dos termos muitas vezes usados. A crer neles, seríamos levados a pensar que António Houaiss, Malaca Casteleiro, Fernando Cristóvão, para citar apenas alguns, não passariam de autores de dislates e de coveiros da língua portuguesa, e não linguistas com obra meritória feita, de importância relevante, embora, como sempre acontece em matéria de ciência, eventualmente discutível.
Paradoxalmente, o texto de Jorge Miranda mostra bem que ele é muito melhor linguista que a maior parte dos adversários públicos (Público incluído!). Embora de modo discreto, mostra que a ortografia não é o que os adversários do AO julgam que é. Sobretudo não cai no erro primário de alguns desses arautos da desgraça segundo os quais a língua falada vai sofrer terrivelmente com a adoção do AO. Adversários que não suspeitam sequer da existência de uma disciplina chamada ortofonia e julgam que as palavras se pronunciam segundo regras inflexíveis de leitura.
É certo que a leitura foi sempre ou quase sempre mal ensinada em Portugal, dando a simples regras didáticas um valor absoluto que não admitiria exceção, o que provocou não poucos atropelos à ortofonia (que aliás admite e felizmente variações). Uma das vantagens do AO, se for bem entendido, será precisamente o de exigir indiretamente pelo menos a revalorização da ortofonia (se o seu ensino souber superar o perigo de um absolutismo centralista que rejeitasse as variantes locais e regionais).
18 de Julho de 2011
José Carlos Marques
Águas Santas

(segue-se transcrição de uma carta enviada pelo leitor à direcção do PÚBLICO, referida na mensagem acima)

Exma Senhora Diretora:
Aceitando o desafio implícito na análise que recentemente fez o Provedor do Leitor sobre a questão do acordo ortográfico, gostaria de transmitir algumas observações e contributos.
Não ponho em causa que o jornal Público assuma no assunto uma posição oposta à posição oficial do país (que surge de negociações e acordos internacionais, e já subscrita por órgãos de soberania, incluindo o Presidente da República). Intriga-me no entanto que o faça de uma forma tão passional. Um jornal não ignora que tem leitores que não se identificam necessariamente a cem por cento com as suas posições editoriais e, portanto, essas posições são normalmente assumidas de modo a não «castigar» os leitores com posições divergentes. Ora respira-se nos textos dos dirigentes do jornal sobre a questão um clima que coloca de imediato os leitores divergentes numa suspeição excomungatória, como coniventes dos grandes «disparates» linguísticos de que os defensores ou simples usuários da atual ortografia oficial (a do acordo!) se fariam assim cúmplices.
Parece mesmo bizarro que os colaboradores externos que optam por escrever na ortografia oficial tenham que «pedir» para o fazerem. Que o jornal adote a ortografia, até nova ordem, «caducada» ou em transição, nada a objetar. Que a imponha em tudo o que é escrito pelos jornalistas do seu quadro, muito bem. Quanto aos colaboradores externos, parece abusivo que estejam sujeitos a «pedir» que se publique o que escrevem, como é seu direito, numa ortografia que é aquela que está em vigor. É claro que os adversários intransigentes do acordo esperam que as decisões que lhe deram vigência sejam revertidas (e acalentam agora essa esperança com indisfarçável ansiedade). Mas isso dá-lhes o direito de forçarem os restantes a «pedirem» o que deveria ser impossível negar-lhes?
A forma como o Público denigre a atual ortografia parece ultrapassar o razoável. Fica-se a pensar que os adversários do acordo têm o monopólio do saber linguístico e que aqueles que prepararam, ou aceitam, o acordo são toscos ignorantes e inimigos da pátria língua.O que é manifestamente uma falsidade. Tal sectarismo não fica bem a um jornal como o Público.
O acordo tem fragilidades, decerto. Mas os adversários portugueses, embora o não confessem, julgam-se proprietários de uma língua que há muito se escreve em partes do universo lusófono de maneira divergente daquela que defendem. Seria então a ortografia brasileira pré-acordo inimiga e obstáculo da língua portuguesa?
Ignoram esses adversários que o Brasil é há muito a principal porta de entrada dos falantes de outras línguas para o conhecimento da língua portuguesa? E até por vezes para a lusofilia? E isto nada tem a ver com a ideia peregrina de muitos dos adversários de que o acordo seria uma imposição do Brasil ou uma abrasileiração da nossa língua ou sequer da nossa ortografia.Ignoram eles que o que motiva decisivamente o acordo,seja ele bom ou mau, é uma questão de diplomacia da língua (ou seja, política da língua, mas prefiro diplomacia dado o estado calamitoso em que se encontra a ideia vulgar associada à palavra «política») e da sua afirmação internacional e mundial? Aos adversários do acordo caberia, isso sim, proporem um melhor acordo para quando chegar a hora (que sempre chega) de uma revisão do atual. Mas com os seus pressupostos teóricos ser-lhes-ia impossível proporem qualquer acordocapaz de obter consenso diplomático. O que é, provavelmente, precisamente o que pretendem.
29 de Junho de 2011
José Carlos Costa Marques
Águas Santas

Segunda carta do leitor José Carlos Marques

O jornal Público continua a sua campanha militante, não só contra o AO, o que seria perfeitamente legítimo, mas, implicitamente, contra o bom nome dos que o negociaram e prepararam, quando não dos que o adotam. Curiosamente, com um viés cada vez mais pronunciado, conseguindo abrir quase dois terços de uma página inteira a alguém que “responde” a um terço de meia página do que dias antes tinha ali escrito Jorge Miranda sobre o assunto. A desproporção entre as duas posições no jornal, constantemente manifestada, vai além do direito que o jornal tem de fazer campanha pelas suas opções, pois esquece a obrigação de um mínimo de equilíbrio, como órgão de informação que é.Talvez por pensar que o AO é o “poder” e o jornal um “contra-poder”… e o Público o estandarte de uma justa revolta!
Um extenso artigo aliás que comete o erro típico da maior parte dos ataques feitos ao AO: o de resvalar de uma primeira linha em que fala de ortografia para as centenas de linhas seguintes em que fala de língua. A tese básica é que a língua não se muda por decreto, o que não pode deixar de merecer o apoio de quem quer que tenha um vislumbre de reflexão sobre a realidade linguística. Ignorando no entanto que a ortografia, essa sim, muda-se, e tem mudado várias vezes na história, precisamente por decreto.
Enquanto a língua é uma realidade viva em constante evolução, a ortografia é uma representação gráfica dessa realidade viva num momento determinado, que “congela” por muito tempo essa representação numa posição estática, pois é um sistema convencional cujas repercussões sobre a língua viva e evolutiva, embora existam, não são de modo algum aquelas que lhe são assacadas pelos adversários do AO. E as que o possam ser resultam basicamente de uma compreensão deficiente do que é o ensino da leitura.
Subjacente a muitas das posições desse tipo está no entanto um simples complexo anti-brasileiro (por razões equivocadas, mas enfim), assente num mal disfarçado pressuposto de uma pretensa superioridade cultural e linguística da versão europeia atual da língua portuguesa – que aliás a execução do AO em nada ameaça.
22 de Julho de 2011
José Carlos Marques

Comentários do director adjunto do PÚBLICO Nuno Pacheco

A “desproporção” de que o leitor José Carlos Costa Marques acusa o PÚBLICO nas posições face ao Acordo Ortográfico deve-se a uma coisa simples: são essas as posições que nos chegam, de leitores e comentadores. E reflecte outra realidade: é que do lado dos detractores do Acordo há ainda interesse em discuti-lo, enquanto do lado dos seus apoiantes (que dão o assunto por legalmente arrumado) esse interesse só se manifesta quando os adversários vêm a público apresentar os seus argumentos. Ou seja: para os adversários do AO90 é uma discussão necessária, enquanto para os seus apoiantes será um incómodo responder-lhes, como se nota. O espírito é: o acordo não é perfeito, mas é por uma boa causa…
Quanto à carta do leitor José Carlos Costa Marques desconheço o que se passou. Mas não há o mínimo problema em que seja publicada, antes pelo contrário. Esta ou outra. É bom haver opiniões divergentes sobre o tema, que merece ainda debate por tudo o que envolve.
Já a fórmula, aplicada a dois cronistas do PÚBLICO, “a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico”, nada tem de vexatório porque corresponde à realidade. É, de facto, a seu pedido (não tiveram que pedir, pediram e foi de imediato aceite) que tal se verifica sem o mínimo problema. Na revista ATUAL do Expresso também se lê : o cronista X “escreve de acordo com a antiga ortografia”. Nada de anormal nisto. Quanto à designação “que usa o Acordo Ortográfico”, aplicada ao artigo do constitucionalista Jorge Miranda, é exactamente a fórmula por ele escolhida. O PÚBLICO limitou-se a aceitá-la, sem mais. Nada de anormal nisto.
A “campanha militante” ou “sectária” do PÚBLICO contra o Acordo Ortográfico, como o leitor lhe chama, não visa “o bom nome” de ninguém mas sim, e tão-só, trazer à discussão aquilo que os defensores do AO90 não querem que se discuta: a sua razoabilidade e mesmo a sua legitimidade. A atitude “mais razoável” face ao AO90 que pede, por exemplo, o leitor Manuel Leal, equivaleria a quê? À aceitação das regras, embora delas discordando? E a bem de quê? O mesmo leitor escreve, a propósito do A090: “Não concordo com alguns aspetos do mesmo, mas parece-me que mesmo assim contribui significativamente para o objetivo confesso de homogenização ortográfica do espaço lusófono, que deveria ser uma prioridade estratégica para Portugal.” Ora este objectivo confesso é não apenas uma impossibilidade como uma descarada ilusão. Não existe homogeneização alguma, porque mesmo com a queda forçada de consoantes mudas, acentos gráficos, tremas e hífens, é tal a quantidade de duplas grafias consentidas pelo Acordo que falar-se em “unidade” é enganar-nos a todos. O espaço lusófono já criou grafias dissonantes que vão manter-se e até mesmo acentuar-se no futuro. O acordo corre o risco de ser uma farsa, tanto para portugueses como para brasileiros e africanos
Ortografia unificada houve-a apenas no início do século XX, em finais da monarquia e inícios da República. Usada em Portugal e no Brasil, era uma grafia que se aproximava, claramente, da que ainda hoje se usa em França e em Inglaterra. Anedota (do grego “anékdota”) escrevia-se, por exemplo, “anecdota” em Portugal e no Brasil e “anecdote” em França e Inglaterra, tal como método (do grego “méthodos”) se escrevia “methodo” em Portugal e no Brasil e “method” em França e em Inglaterra. Sucede que Portugal mudou a ortografia, entretanto. E a França e a Inglaterra não. Nem ninguém, por lá, se preocupou ou preocupa com isso.
Hoje, fala-se muito em unificação ortográfica (que no ponto a que se chegou não existe nem existirá nunca, como qualquer pessoa facilmente confirmará) mas na prática o que se quer é a simplificação. Há quem diga: “Falar é o que é. Mas escrever deve ser o mais simples possível”. Este dislate sem paralelo equivale a reduzir a matemática à tabuada, deitando fora as complicações dos cálculos infinitesimais ou dos logaritmos. A verdade é que na maioria das línguas mundiais a grafia está longe de ser simples, como facilmente se confirma.
O leitor José Carlos Costa Marques escreve: “O acordo tem fragilidades, decerto. Mas os adversários portugueses, embora o não confessem, julgam-se proprietários de uma língua que há muito se escreve em partes do universo lusófono de maneira divergente daquela que defendem. Seria então a ortografia brasileira pré-acordo inimiga e obstáculo da língua portuguesa? Ignoram esses adversários que o Brasil é há muito a principal porta de entrada dos falantes de outras línguas para o conhecimento da língua portuguesa?”
O argumento não colhe. Ninguém, a não ser os assinantes do acordo, se acha proprietário de coisa alguma. Quem acha possível impor por lei o que a prática não consigna são os defensores do AO90. Os outros, entre os quais se inclui o PÚBLICO, gostariam de ver consignadas de forma clara as variantes já existentes na grafia da Língua Portuguesa, em lugar de fingir, para efeitos diplomáticos de duvidosa utilidade, que a partir de agora há uma ortografia “comum”.
Para responder directamente ao leitor José Carlos Costa Marques quando diz: “Mas com os seus pressupostos teóricos ser-lhes-ia impossível proporem qualquer acordo capaz de obter consenso diplomático. O que é, provavelmente, precisamente o que pretendem”. É verdade. Portugal , Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste não precisam de nenhum Acordo Ortográfico (e muito menos deste, com os erros crassos que tem, em múltiplas vertentes) para continuarem a falar e escrever português (cada qual com as grafias localmente mais em uso) e serem difusores naturais da Língua Portuguesa no mundo. Mais do que um falso caminho de sentido único, a escrita precisava de uma via que reconhecesse claramente o caminho múltiplo das suas naturais diversidades. E nisto, de facto, não há donos da língua. Excepto aqueles que acreditam que uma simples lei nos porá a todos a fingir (que é coisa de políticos, não de cientistas) que escrevemos da mesma maneira.
25 de Julho de 2011
Nuno Pacheco

Mensagem do leitor Pedro Valente

Sou leitor assíduo do jornal Público e, sem defender com histeria a gafia tradicional, sempre me agradou o facto de o jornal não adoptar o AO. O AO não faz sentido, simplesmente porque vem resolver um problema inexistente: os falantes de português sempre se entenderam. Repare que não coloco a hipótese de o AO pretender uniformizar as variantes da língua, pois, apesar de ser um dos argumentos apresentados, seria uma intenção ingénua, e basta uma leitura atenta do AO para se perceber que isso não é nem nunca será viável. De igual modo, não coloco a hipótese de o AO vir dar resposta a problemas que nós, falantes, sintamos, como é o caso, por exemplo, do uso do hífen, o qual o AO “tenta” resolver mas acaba por complicar ainda mais. Não embarco em histerias de nacionalidades e defesas absurdas da língua e da identidade relativamente ao povo brasileiro, mas não consigo perceber a quem é que o AO é favorável.
Sou professor de Português e este ano, lamentavelmente, terei de adoptar o AO nas aulas e terei de o ensinar, mas, na minha vida privada, continuarei a grafia antiga. Em conjunto com uns amigos benfiquistas, escrevo para um blogue sobre o Benfica, e até nesse blogue, que nada tem que ver com estas questões da língua, recebemos várias mensagens de incentivo quando comunicámos que não adoptaríamos o AO (http://tertuliabenfiquista.blogs.sapo.pt/1060793.html). Mas não percebo por que razão não há mais iniciativas nem por que razão não se fala mais neste assunto, que a todos diz respeito. Talvez seja como os impostos: apenas quando o sentirmos é que nos vamos manifestar.
Escrevi mais do que pretendia inicialmente, pois queria apenas dizer que o Público é o único jornal diário que leio com regularidade, não “apenas” por causa desta questão (porque o jornal não precisa disso para ser bom) mas “também” por essa razão.
15 de Agosto de 2011 
Pedro Valente

 

3 comentários a Ainda o desacordo ortográfico

  1. Estou cada vez mais convencido de que o acordo ortográfico é mau e inútil. Isto ao ler a imprensa que aderiu ao acordo.A leitura torna-se penosa e, às vezes, de difícil compreensão.Deveriamos formar um movimento de resistência ao acordo, recusando-nos a aplicá-lo,a nível individual,das empresas, da imprensa e dos serviços públicos.

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  2. Sou dos que "radicalmente" se opõem ao novo AO. Acho-o um absurdo, uma cedência pelo caminho mais fácil, de um grupo de trabalho que, eventualmente, passou anos a marcar passo, e quando chegou ao tempo de dar uma resposta, seguiu a via mais fraca.Quando começaram a adoptar o novo AO (há cerca de 2 anos) nas edições electrónicas dos períodicos portugueses, simplesmente deixei de ler um deles,porque faz-me impressão ler as palavras mutiladas pelo AO.Não acredito em dados adquiridos…

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    • Texto de apoio ao Presidente Sarney que quiz substituir Portugal pelo seu país como novo colonizador

      Insista-se sempre que na definição de «Lusofonia» só é válido o conceito «língua do luso/português», e nunca a generalização neocolonialista de «expressão portuguesa». Assim, os oito países lusófonos que têm nas suas Constituições políticas o português como sua língua oficial devem entendê-la só como língua comum, e não como expressão cultural lusitana, mas dos respetivos países, brasileira, angolana, etc1.” – diz F. Cristóvão

      Nota: têem-na como “língua oficial”, sim, mas não é essa bacorada brasileira- De resto onde há neocolonialismo é no acordes. Este é uma tentativa de neocolonialismo pela língua

      Tanta erudição, tanta informação científica para isto … para dar no acordês
      A cabeça erudita do Catedrático polifacético Doutoríssimo Fernando Crist\ovão é uma cabeça mal formatada onde a quantidade dos conhecimentos prejudica e até impede a qualidade.

      Acordo Ortográfico: um vídeo penoso de Fernando Cristóvão
      25/07/2012 por António Fernando Nabais

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