"O PÚBLICO viajou a convite de …". Porquê?

(Crónica da edição de 5 de Junho de 2011)

O PÚBLICO aceita com frequência convites para viagens em que as despesas de deslocação ou alojamento ficam a cargo das instituições ou empresas que fazem o convite. A publicação dos trabalhos jornalísticos resultantes dessas viagens é acompanhada de uma nota final, em que se assinala que o jornal “viajou a convite de…”, seguindo-se a identificação da entidade em causa. É uma norma prevista no Livro de Estilo, que também determina que os jornalistas do PÚBLICO não aceitam convites que “possam condicionar a sua independência”.

A regra é justificada pela transparência na relação com os leitores, mas não basta para evitar efeitos perversos. Qualquer convite é, por definição, o convite de uma parte interessada, o que conduz facilmente a questão das viagens pagas por entidades externas ao jornal para um terreno escorregadio, em que cada decisão concreta deve ser ancorada no interesse dos leitores, na salvaguarda da independência e nos valores da ética profissional.

Abordo hoje este tema na sequência das queixas que recebi de vários leitores a propósito da reportagem intitulada “A vida dos que trocaram Tindouf por Marrocos“, publicada na edição de 22 de Maio. Os jornalistas Sofia Lorena (texto) e Nelson Garrido (fotos) deslocaram-se a à cidade de Dakhla, no território do Sara Ocidental sob ocupação marroquina, numa viagem “a convite da embaixada de Marrocos” em Lisboa. Ali, a repórter do PÚBLICO recolheu, em encontros organizados pelas autoridades de Rabat, declarações do governador da cidade e de sarauís regressados dos campos de refugiados na Argélia, coincidentes na defesa das posições oficiais marroquinas e na crítica à Frente Polisário, que luta pela independência da antiga colónia espanhola.

A primeira reclamação chegou do leitor Eduardo Costa Dias: ” (…) Escrevo para, por um lado, protestar contra a unilateralidade do texto, e, por outro, perguntar se acha eticamente correcto um jornalista aceitar, ou alguém o mandar aceitar, viajar ‘a convite da embaixada de Marrocos’ para fazer uma reportagem acerca de um assunto tão politicamente complexo e delicado como é o conflito do Sara Ocidental”. No mesmo tom, Raul Curvelo sustenta que a reportagem reproduz “as posições que têm sido reiteradas por Marrocos”, pergunta se “quando o leitor abre o PÚBLICO não tem o direito ao contraditório” e, “sobre a questão ética”, diz não saber se a referência ao convite a atenua ou agrava. Um outro leitor, A.G. Lourenço, comenta que à jornalista “deram a ver umas coisas sobre as quais queriam que escrevesse” e critica o texto em causa no plano da “isenção” e da “credibilidade”, classificando-o como ”publi-reportagem” ou “encomenda paga”.

Há aqui duas questões diferentes: a crítica ao conteúdo da reportagem e a censura das condições em que ela foi efectuada. Considero que a primeira é, no essencial, injusta e que a segunda levanta um problema real, que exige reflexão.

Uma leitura atenta do texto assinado por Sofia Lorena mostra que não estamos perante uma peça tendenciosa. A jornalista enquadra correctamente a reportagem no contexto da disputa sobre o Sara Ocidental, e fá-lo sob um antetítulo claro: “O conflito visto do lado marroquino”. A peça começa por explicar as perspectivas opostas do governo de Rabat e dos independentistas. Dá conta das perguntas — formuladas a partir das críticas da comunidade internacional à política do Estado ocupante — a que os seus anfitriões se recusaram a responder. Salienta que as declarações do governador de Dakhla representam “a defesa da estratégia de Rabat”. Refere os presos políticos no território e a repressão dos protestos independentistas. Um sarauí “regressado” dos campos de refugiados, que se destaca nas críticas à Polisário, é identificado como um “funcionário público” (da potência ocupante), cujas declarações foram “traduzidas” por um representante do governo marroquino. Foi assegurado, em suma, o indispensável distanciamento profissional.

Na explicação que me enviou, Sofia Lorena defende que “nem sempre é possível – e muitas vezes nem sequer faz sentido – que o contraditório seja dado [em discurso directo] a propósito de uma situação de disputa ou conflito”. E ilustra essa afirmação recordando, entre outras, as peças que escreveu acerca da greve da fome da activista sarauí Aminatu Haidar, em Dezembro de 2009, ou a recente entrevista que fez, para o PÚBLICO, a um dirigente da Polisário — situações em que “não tinha ninguém ali presente que defendesse a posição do Estado marroquino”. Tem razão: é de contextualização que se deve falar nestes casos, com a evocação das posições contraditórias a ser assegurada pela própria jornalista. Cumprido esse dever, o tratamento equilibrado de um determinado tema não pode ser avaliado por uma peça isolada, e sem atenção ao género jornalístico que integra. Por isso considero que Sofia Lorena volta a ter razão quando escreve: “Estas pessoas [as que foram ouvidas para esta reportagem] integram a realidade deste conflito – são uma das suas expressões – e considerei pertinente dar conta da sua existência, das suas histórias e opiniões, algo que nunca tinha sido feito nem por mim nem pelo PÚBLICO”.

Dito isto, é verdade que todas as declarações citadas nesta reportagem em concreto se identificam com o conteúdo da propaganda oficial marroquina sobre a questão do Sara Ocidental. E que foram obtidas numa viagem paga e organizada pelo governo de Marrocos. O que significa que foi, para todos os efeitos, um trabalho efectuado em condições restritivas da liberdade e independência dos jornalistas, dando azo às dúvidas dos leitores sobre a sua credibilidade.

Aceitando que essas dúvidas “são legítimas”, a directora do PÚBLICO, Bárbara Reis, assegura que “aceitar um convite não significa que o jornalista deixe de ser jornalista, ou seja, que não faça perguntas incómodas, não procure diferentes respostas para uma mesma pergunta, ou não tente ver para além do que lhe é mostrado”. Cita o exemplo dos jornalistas “que viajam nos aviões fretados pela presidência da República ou por São Bento”, sem que isso lhes retire “independência” — situação que não me parece comparável à aceitação do convite da embaixada de um país envolvido num conflito.

Bárbara Reis reconhece que a aceitação de convites “não é o ideal”: “Com outros meios gostaríamos de poder definir uma regra semelhante à do New York Times: ‘A nossa empresa paga [sempre] as despesas’”. Sendo as coisas como são, resume a doutrina aplicada no PÚBLICO: “Quando recebemos um convite, e definido que não há quaisquer condições ou contrapartidas, avaliamos sobretudo se tem ou não relevância jornalística, se o resultado do trabalho pode ou não ser relevante para o leitor”.

Julgo que, não sendo o único, esse é um ponto essencial a ter em conta numa questão que não é consensual no universo da imprensa de qualidade e sobre a qual gostaria de deixar aqui algumas observações que possam contribuir para um debate mais aprofundado:

— A reportagem, e nomeadamente a grande reportagem sobre os temas fortes da actualidade internacional, deve ser uma das marcas distintivas de um jornal de referência. Um bom exemplo recente foi o da excelente cobertura no terreno, pelos repórteres do PÚBLICO, das revoltas no Norte de África. Sofia Lorena foi um desses repórteres, na Tunísia. O seu trabalho, como o de Paulo Moura no Egipto e na Líbia, deu aos leitores deste jornal um conhecimento da situação que não lhes seria proporcionado — em português — por outros meios. Sabe-se como os actuais constrangimentos financeiros da imprensa dificultam o desejável alargamento da aposta neste género nobre do jornalismo. É compreensível e louvável que a direcção do PÚBLICO procure, como já foi noticiado, patrocinadores externos para viabilizar essa aposta. E é necessário, em nome da independência e da credibilidade, que tais apoios permaneçam desligados da escolha e da natureza dos trabalhos jornalísticos que venham a tornar possíveis.

— Reportagens “a convite” são outra coisa. Mesmo com todas as garantias de que não são aceites se puderem “condicionar a independência”, tais propostas só deveriam ser consideradas numa lógica de autonomia da iniciativa editorial, determinada por critérios de relevância, oportunidade e agenda própria. Essa autonomia e a própria gestão criteriosa de recursos aconselharão que o jornal só aceite convites para viagens pagas por terceiros quando se trate de deslocações que se enquadrem naturalmente nas suas prioridades de agenda, mas para as quais não haja disponibilidade orçamental. Nem sempre será assim.

— Quem convida move-se por interesse próprio. Seja a empresa que paga uma viagem para a apresentação de um produto, seja o eurodeputado que chama um redactor a Bruxelas para publicitar um projecto, seja a embaixada que quer dar novo fôlego à propaganda do governo que representa. Poderia multiplicar os exemplos. Sendo o espaço noticioso dos jornais um bem escasso, as viagens “a convite” que não cumpram critérios claros de relevância e oportunidade, ou não representem uma mais-valia clara do ponto de vista informativo, deveriam ser rejeitadas.

— As aparências contam. Viagens pagas a um jornalista por instituições ou empresas com que este lida habitualmente enquanto fontes ou partes em qualquer tipo de controvérsia dão azo a suspeições legítimas. Também a recente banalização do pagamento, por entidades promotoras, de deslocações para a cobertura crítica de espectáculos, poderá afectar — ainda que de forma injusta para os jornalistas envolvidos — a credibilidade do que se escreve e a confiança na selecção isenta dos acontecimentos que o jornal escolhe noticiar.

José Queirós

Documentação complementar

Carta do leitor Eduardo Costa Dias

” (…) Escrevo-lhe para por um lado protestar contra unilateralidade do texto ‘A vida dos que trocaram Tindouf por Marrocos’ (Público, 22 de Maio 2011) e, por outro, perguntar-lhe se acha eticamente correcto um jornalista aceitar, ou alguém o mandar aceitar, viajar ‘a convite da embaixada de Marrocos’ para fazer uma reportagem acerca de um assunto tão politicamente complexo e delicado como é o conflito do Sara ocidental. A nota de rodapé ““O PÚBLICO viajou a convite da embaixada de Marrocos » não só não dá garantias de nada, como ainda dá, depois de lido o texto, lugar a todas as interrogações”.
22 de Maio de 2011
Eduardo Costa Dias

Carta do leitor Raul Curvelo

“Poucas palavras para repudiar o teor da reportagem sobre Marrocos, assinada pela jornalista Sofia Lorena, que saiu na edição dominical do Público [22/5]. De facto, todas as posições que têm sido reiteradas por Marrocos, desde 1956,estão ali. Deixe-me perguntar-lhe: quando o leitor abre o Público não tem o direito ao contraditório? Por exemplo, a ideia de ‘pátria’ é uma ideia construída pelos nacionalistas do Istiqlal. Por outras palavras, tratar-se-á do sonho do ‘Grande Marrocos’, que ocuparia a totalidade do Sara Ocidental, bem como da Mauritânia, e parte do Mali e da Argélia. (…) E nada se diz sobre esse sonho expansionista quando se fala nas ‘províncias do sul’? Nem se vinca que ali a descolonização nunca foi efectivada à luz da Carta da ONU e não há maneira de o deixar de ser? É função do Público e do jornalismo a sério fazer coro com o facto consumado? Por fim, uma palavra sobre a questão ética. Que toca tanto na [jornalista] Sofia Lorena como no Público. Não sei se a nota de rodapé, que diz que o Público viajou a convite da embaixada de Marrocos, o/a absolve de alguma forma ou o/a condena ainda mais”.
23 de Maio de 2011
Raúl F.Curvêlo

Carta do leitor A. G. Lourenço

“Enquanto comprador/cliente/leitor diário do jornal apenas peço o seguinte: credibilidade, qualidade, inovação e isenção. Sei que não é fácil cumprir isto mas apesar de tudo o Público continua a merecer a minha escolha diária, em papel mas também na Net. Mas ultimamente confesso o meu desapontamento quanto aos pontos que acima referi, sobretudo no que diz respeito à credibilidade e à isenção, coisa que não sentia já desde os últimos tempos do anterior director, que apesar de tudo me conseguiu manter fiel ao jornal.
Ultimamente o jornal tem tomado, a meu ver, e isto é obviamente subjectivo, deliberadamente partido na política nacional. Não é problemático desde que o assuma. Também nos artigos de opinião as opiniões são cada vez mais restritas e caminham praticamente todas no mesmo sentido, o que é uma pena. Nas notícias peço apenas isenção, seriedade e qualidade, nos artigos de opinião qualidade, seriedade e pluralismo na escolha de quem escreve. O contraditório é essencial, para lermos sempre a mesma opinião compramos um jornal dum partido político.
Mas o que me levou a escrever foi o artigo ‘A vida dos que trocaram Tindouf por Marrocos’, que deveria ter escrito, em letras bem grandes, que se tratava de uma ‘publi-reportagem’, feita por uma ‘jornalista’ que foi passear e a quem deram a ver umas coisas sobre as quais queriam que escrevesse, a quem apresentaram umas pessoas feitas com o sistema, que não investigou nada e que escreveu um artigo sem qualquer rigor ou isenção (…). Costuma dizer-se que os jornais estão em crise por causa da Net. Não é por causa da Net, mas sim devido a este tipo de jornalismo e de encomendas pagas, que se passam por jornalismo. Estão em crise por falta de credibilidade (…)”.
23 de Maio de 2011
A.G. Lourenço
Lisboa

Perguntas dirigidas à autora do texto

1. Quer comentar as alegações de que o texto intitulado “A vida dos que trocaram Tindouf por Marrocos” seria “unilateral” e “sem contraditório”?
2. Independentemente da questão anterior, que pensa da alegação de que uma viagem a convite da embaixada de um país envolvido num conflito afectará a credibilidade do trabalho jornalístico decorrente?
3. Pode esclarecer melhor em que consistiu esse trabalho jornalístico, tendo em conta que a generalidade das declarações que cita terão sido, como explica no texto, prestadas na presença (e, não sei se em todos os casos, com tradução) de um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Marrocos?
24 de Maio de 2011
J.Q.

Respostas da jornalista Sofia Lorena

1. Nem sempre é possível – e muitas vezes nem sequer faz sentido – que o contraditório seja dado na primeira pessoa a propósito de uma situação de disputa ou conflito. Julgo que quem ler o texto com boa fé não pode afirmar que o contraditório não está lá, dado por mim, sempre que as pessoas que ouvi fazem afirmações que são alvo de disputa ou mesmo quando são parciais nos factos que enumeram ou nas opiniões que expressam.
A título de exemplo, cito o parágrafo em que dou conta das questões que coloquei ao director da Agência para a Promoção e o Desenvolvimento das Províncias do Sul e que ficaram sem resposta: “questões sobre o referendo de autodeterminação, o acordo de pescas entre Marrocos e a UE que, segundo um parecer jurídico do Parlamento Europeu, não respeita o direito internacional (os lucros da exploração dos recursos de um Território Não Autónomo têm de ser usados em benefício da sua população) ou o acampamento de protesto erguido em Outubro do ano passado em Gdeim Izik (perto de El Aiún) e desmantelado à força”; a frase em que sublinho que, com as suas afirmações, o governador de Daklha está a “assumir a defesa da estratégia de Marrocos”; ou ainda quando, depois de citar o mesmo governador atribuindo a “infiltrados da Argélia” todos os protestos que regularmente acontecem em El Aiún contra a governação/ocupação marroquina, escrevo que “há activistas pró-independência presos em El Aiún e em Marrocos e os seus protestos são reprimidos”.
E para melhor explicar a minha afirmação inicial, sobre o contraditório, apresento alguns exemplos: quando acompanhei a greve de fome da activista Aminatu Haidar no aeroporto de Lanzarote, naturalmente não tinha ninguém ali presente que defendesse a posição do Estado marroquino (“Ela resiste num parque de estacionamento”, Público, 09-12-2009; “Aminatu Haidar – A luta é dela, mas ela não está sozinha”, P2, 10-12-2009; “Eurodeputados portugueses desembarcam em Lanzarote”, Público, 10-12-2009; “Hoje é um bom dia para a esperança!”, Público, 11-12-2009; “A biologia não entende questões diplomáticas, alerta o médico de Haidar”, Público, 12-12-2009; “Libertar o Sara vai obrigar Marrocos a democratizar-se”, Público, 13-12-2009; “Marrocos prefere que me aconteça uma tragédia”, Público, 14-12-2009, só para citar os textos publicados na edição impressa). O mesmo aconteceu quando estive na manifestação que se seguiu ao seu regresso ao Sara Ocidental, em Madrid (dos meus dias em Lanzarote e da ida a essa manifestação resultou a reportagem “O Sara é deles todos”, capa da revista Pública de 03-01-2010). Ou quando entrevistei Haidar o ano passado em Lisboa, no dia em que o Exército marroquino desmantelou à força o acampamento de protesto de Gdem Izik (Se Espanha e França “esperavam por mortos, já há mortos”), Público, 9-11-2009). Ou quando entrevistei, já em Abril deste ano, o representante da Frente Polisário para as relações com a Minurso, Mohammed Khadad (“Só queremos a protecção das palavras, mas precisamos de palavras fortes”, 17-04-2001, Pág 16 Público). Ou mesmo quando, ainda o ano passado, escrevi sobre activistas espanhóis detidos e espancados em El Aíun (“O meu rosto é o reflexo do que vivem todos os sarauís”, Público, 31-08-2010).
Acrescento que quando em causa estão violações de direitos humanos considero existir um compromisso dos jornalistas a favor das vítimas. A maioria dos meus textos sobre o Sara Ocidental tem reflectido isso mesmo.


2. O Público aceita, com algumas excepções, viagens a convite. Quando o jornalista decide escrever com base no trabalho que faz nessas viagens, informa sempre o leitor do contexto em que elas aconteceram. No meu caso, o que tento em cada viagem a convite é fazer os meus próprios contactos, acrescentando-os aos que me forem proporcionados pela organização da viagem. Foi o que fiz no conjunto da minha viagem a Marrocos, a propósito da qual já foram publicados textos no Público e serão ainda publicados outros. No caso da visita a Dakhla, esta durou apenas 24 horas, limitando assim o meu trabalho. Dakhla, aliás, é uma pequena cidade, a 550 quilómetros da principal cidade do Sara Ocidental, El Aíun, como escrevo no próprio artigo. A opção foi assim a de dar conscientemente o lado dos sarauís que escolhem viver no Sara governado por Marrocos, “os que trocaram a Polisário por Marrocos”, como o título anuncia, que acaba por coincidir com o lado marroquino do conflito, algo que nunca tinha feito, partilhando isso mesmo com o leitor no próprio texto. Julgo que a forma como o fiz fica clara com os exemplos que enumerei acima, mas explico uma vez mais que o fiz apontando sempre que as posições manifestadas pelas pessoas citadas são as posições de Marrocos e acrescentando a informação necessária para o leitor ficar a conhecer as posições divergentes.


3. Como está explicado no próprio artigo, as conversas com todas as pessoas citadas decorreram na presença de um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Marrocos. Como também fica claro no artigo, a conversa com os dois “regressados” foi traduzida pelo mesmo responsável, enquanto a conversa com o governador de Daklha decorreu em espanhol, sem necessidade de tradução. A conversa com o director da Agência para o Desenvolvimento das Províncias do Sara, com o qual os jornalistas portugueses convidados para esta viagem se encontraram em Rabat, decorreu em francês, sem necessidade de tradução. A viagem a Dakhla era parte de um programa mais vasto sobre o qual não vale a pena alongar-me por não estar em causa no artigo alvo das críticas dos leitores. Durou 24 horas, no decorrer das quais a própria organização (neste caso, a embaixada, o MNE e a própria região de Dakhla) nos convidou a conversar com um grupo de “regressados” e membros de associações da região e ainda com um grupo de eleitos.
Estas pessoas integram a realidade deste conflito – são uma das suas expressões – e considerei pertinente dar conta da sua existência, das suas histórias e opiniões, algo que nunca tinha sido feito nem por mim nem pelo Público.
25 de Maio de 2011
Sofia Lorena

Perguntas à direcção editorial

Não é legítimo que uma reportagem decorrente de uma viagem feita a convite da embaixada de um país envolvido num conflito levante dúvidas aos leitores quanto à sua credibilidade e isenção? É possível explicar aos leitores a “política” do jornal no domínio das deslocações “a convite de”, e quais os seus limites?
24 de Maio de 2011
J.Q.

Resposta da directora do PÚBLICO

As dúvidas são legítimas, com certeza. Mas aceitar um convite não significa que o jornalista deixe de ser jornalista. Ou seja, que o jornalista não faça perguntas incómodas, não procure diferentes respostas para uma mesma pergunta, ou não tente ver para além do que lhe é mostrado. Os jornalistas que cobrem a Casa Branca em exclusivo, ou seja, que viajam com os Presidentes americanos para todo o lado, no seu avião, que o seguem todos os dias a todas a horas, não fazem jornalismo de qualidade? Estão mais próximos e envolvidos, é certo, e haverá histórias que, provavelmente, não terão distância para fazer. Mas isso tornou os correspondentes da Casa Branca dóceis em relação a George Bush, para dar um exemplo clássico? O mesmo se passa com os jornalistas portugueses que viajam nos aviões fretados pela presidência da República ou por São Bento nas viagens oficiais (que já foi uma prática comum). Não têm independência porque viajam com o poder? A prática mostra o contrário, com alguns casos recentes bem conhecidos. Os jornalistas não podem aceitar – e no PÚBLICO isso nunca aconteceu – convites com reservas ou condições, sejam elas quais forem.
Não é o ideal, naturalmente, e com outros meios gostaríamos de poder definir uma regra semelhante à do NYT: “A nossa empresa paga [sempre] as despesas”. O facto é que mesmo os jornais de referência “ricos” aceitam convites, de países, empresas ou grandes museus. Não somos o New York Times, que define no seu livro de estilo que os jornalistas “podem aceitar uma bebida quando oferecida como rotina em conferências de imprensa” e, praticamente, nada mais. O nosso livro de estilo define que os jornalistas do PÚBLICO não podem aceitar viagens que “condicionem a independência editorial”. E é isso que tentamos sempre fazer.
Quando recebemos um convite, e definido que não há quaisquer condições ou contrapartidas, avaliamos sobretudo se tem ou não relevância jornalística, se o resultado do trabalho pode ou não ser relevante para o leitor. Muitas destas viagens são aliás úteis na formação dos jornalistas e incluem briefings de background com pessoas que, de outra maneira, não são habitualmente acessíveis, e por vezes nem escrevemos nada finda a viagem.
Neste caso concreto, basta ler o texto da Sofia Lorena para se ver como a jornalista, que conhece bem Marrocos de viagens anteriores, foi visitar “um lado do problema” e fala constantemente sobre as perspectivas “do outro lado do problema”, sobre a visão de instituições internacionais independentes e expõe até as perguntas às quais não teve resposta. Por fim, não sejamos inocentes. Objectividade absoluta é algo que não existe, esteja o jornalista num país longínquo a convite de alguém ou sentado na sua secretária na redacção.
3 de Junho de 2011
Bárbara Reis

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