Negligência sim, plágio não

(Crónica da edição de 27 de Março de 2011)

A acusação de plágio é das mais graves que podem ser feitas a um jornalista. Trata-se, aliás, de uma prática proibida pelas normas éticas a que o PÚBLICO se obriga. No caso de que hoje me ocupo, essa acusação foi dirigida a uma redactora do jornal pelo autor de um blogue. Como irei explicar, considero a acusação injusta, mas penso que os factos que lhe deram origem revelam erros que devem ser corrigidos, tanto na elaboração de textos como na relação do jornal com os seus leitores.

Vamos então aos factos. Nas páginas de abertura do suplemento semanal Cidades, publicado aos domingos, existe uma secção intitulada Antes & Agora, que permite comparar duas fotografias (uma antiga, outra actual) de um mesmo fragmento de paisagem urbana. Um pequeno texto acompanha essas imagens, evocando aspectos da história do local fotografado e sinalizando as transformações nele ocorridas. No passado dia 23 de Janeiro, esse espaço do suplemento foi ocupado, na edição Lisboa, por imagens da Avenida de Roma, sob as quais um apontamento assinado pela jornalista Ana Gomes Ferreira dedicava especial atenção à carreira 7 de autocarros da Carris, que serve há décadas aquela avenida.

Percebe-se, pela leitura desse pequeno texto, que ele foi redigido com base em dados recolhidos “na Internet”. A autora escreve, a certa altura que, “para esta história fotográfica, interessa-nos o blogue que conta a história das carreiras da Carris”, já que “na imagem está a carreira 7, que foi muito importante para esta avenida”. Segue-se uma descrição em traços largos da história da relação entre a avenida e a referida carreira de autocarros, no âmbito da qual se cita, entre aspas, a seguinte frase: “Em 1956, a Câmara iniciou finalmente a grande reconstrução da Avenida de Roma; e durante cerca de um ano o 7 viajou com alterações de percurso, quarteirão a quarteirão, enquanto a avenida ganhava um rosto condizente com a modernidade que apregoava”. Essa frase, segundo se explicava, “lê-se na página dedicada ao 7”.

Trata-se de uma frase retirada, na íntegra, de um longo texto intitulado “7 (e 7A): O autocarro da Avenida de Roma”, publicado em Fevereiro de 2010 num blogue intitulado “História das Carreiras da Carris”, cujo conteúdo e valor informativo aliás se recomendam a todos os interessados pela história dos transportes públicos de Lisboa. O seu autor, Luís Cruz-Filipe, queixa-se, em mensagem que me enviou, de não ter sido feita na peça do PÚBLICO qualquer referência ao nome do blogue, ao respectivo link ou à sua própria identidade de autor do texto sobre a carreira 7, e ainda de não ter sido contactado pela jornalista. Afirma, nomeadamente: “O corpo do artigo não é mais do que um resumo da história do 7, conforme contada no meu blogue, contendo citações textuais sem indicação da fonte e várias expressões por mim usadas”. E, apesar de anteriormente ter reconhecido não saber “se tecnicamente esta situação se considera plágio ou não”, viria afinal a formular essa acusação.

Escreve Luís Cruz-Filipe que a situação criada foi para si “extremamente desagradável”, pois, conforme explica, “o texto com a história do 7 demorou-me várias horas a escrever, não contando com os vários anos de pesquisa para recolher todos os dados que nela refiro”. O seu desagrado é compreensível, e não apenas pelo modo deficiente como o jornal citou o seu blogue. O autor de “História das Carreiras da Carris” queixa-se também do “silêncio” a que terão sido votadas várias comunicações enviadas ao jornal sobre este caso, que terão ficado sem resposta. O que é lamentável, embora possa também ser fruto de equívocos, a avaliar pelo caso de uma mensagem que diz ter-me endereçado a 27/1, e que de facto não recebi (o endereço electrónico do provedor do leitor é publicado diariamente no jornal impresso e é acessível junto de qualquer notícia na edição on line; quando Luís Cruz-Filipe o utilizou, cerca de um mês depois, recebi a mensagem e respondi-lhe).

A única explicação vinda do PÚBLICO chegou ao autor do blogue a 15/2. Nela, a jornalista que redigira o apontamento sobre a Avenida de Roma salientava que a referência “ao blogue que conta a História das Carreiras da Carris” constava do seu texto, mas reconhecia: “Lamentavelmente, o nome do blogue [na peça de 23/1] não está em caixa alta, esse sim um lapso da nossa parte, pelo qual devemos pedir-lhe as maiores desculpas”. A explicação não satisfez o investigador da história dos autocarros lisboetas, para quem o modo como o blogue foi referido não permitiria a sua identificação, e por isso enviou a 21/2 nova mensagem ao jornal, solicitando a publicação, “no mesmo suplemento Cidades e na mesma rubrica”, de uma nota que esclarecesse que o texto se baseava num artigo do seu blogue, cujo nome, título e endereço pedia que fossem indicados. Finalmente, a 26/2, surgiu na secção O PÚBLICO errou uma nota em que se reconhecia que, na peça de 23/1, “foi indevidamente grafado o nome de um blogue, que surge em caixas baixas em vez de maiúsculas” e se apresentavam desculpas “aos leitores e ao autor do blogue História das Carreiras da Carris”.

Penso que se tratou de uma correcção insuficiente, e que a pequena peça sobre a Avenida de Roma revela a existência de más práticas no recurso a sítios da Internet para a obtenção e divulgação de informações. Se no caso do blogue de Luís Cruz-Filipe a referência à origem de uma frase citada é feita no texto, embora de forma negligente e incorrecta, pior é o facto de a peça fechar com outra citação de uma frase entre aspas, que tem por única indicação de origem as palavras “comenta-se na Internet” — um tipo de expressão que deveria ser pura e simplesmente banido dos textos jornalísticos. A citação do excerto de um texto alheio, por pequeno que seja, deve ser sempre acompanhada da referência clara à sua origem ou autoria. Tratando-se de informações ou opiniões encontradas em sítios da Internet, a referência ao seu endereço deve ser vista como um serviço prestado aos leitores que desejem confirmá-las ou conhecer melhor o tema tratado. Sem descurar, ainda, a aferição da credibilidade das fontes utilizadas.

Dito isto, considero desadequada e injusta a acusação de plágio. No plano da ética jornalística, que é o que para aqui importa, o plágio implica a ocultação deliberada da autoria alheia de um texto. Não foi isso que aconteceu. A jornalista Ana Gomes Ferreira citou entre as devidas aspas a frase que retirou do blogue sobre os autocarros lisboetas, tornando claro que esta não era da sua autoria, e identificou — é certo que de forma deficiente — a sua origem. Se a quisesse ocultar, não teria referido “o blogue que conta a história das carreiras da Carris”, que qualquer busca na rede permite de imediato identificar como sendo o que tem por título “História das Carreiras da Carris” e por autor alguém que se identifica apenas como “Luís”, e que aliás designa esse blogue, logo à entrada, como um “espaço de partilha de dados”. Nem teria escrito, como escreveu, que a frase citada se encontrava “na página [do blogue] dedicada ao 7”.

Luís Cruz-Filipe diz que a peça da secção Antes & Agora não é mais do que “um resumo” do seu artigo sobre a carreira 7. Mas não só o que nela se escreve sobre autocarros não é tudo, embora seja parte substancial, como é precedido da referência ao “blogue que conta a história das carreiras da Carris”. E, ainda que a jornalista se tenha inspirado principalmente no seu texto (como parece decorrer da própria referência ao blogue), as poucas linhas em que refere um ou outro facto sobre os autocarros na Avenida de Roma não podem ser vistas como um resumo de um extenso artigo de cerca de 20.000 caracteres. Na ausência de utilização de quaisquer excertos, ou adaptações de excertos, do texto consultado, para além do que foi citado entre aspas, considero que a invocação de plágio, neste caso, não é só desproporcionada. É errada.

O que não impede que se reconheçam como justificados os motivos de desagrado do responsável pelo blogue, que esperou demasiado tempo por uma explicação do PÚBLICO e tinha o direito a ver os seus créditos de estudioso da história dos autocarros de Lisboa salientados com maior nitidez.

Documentação complementar

Mensagem de Luís Cruz-Filipe (25/2)

Venho por este meio manifestar o meu profundo espanto pelo desprezo que o jornal Público tem apresentado no último mês face às minhas tentativas de contacto. No passado dia 23 de Janeiro, uma jornalista deste jornal plagiou um texto meu. Enviei no passado dia 27 de Janeiro, através do formulário de contacto no site, um e-mail ao Provedor do Leitor, que abaixo reproduzo, não tendo obtido até hoje qualquer resposta. Contactei o jornal directamente e obtive uma resposta praticamente ofensiva da jornalista em causa. Enviei uma queixa à Direcção do jornal, novamente através do formulário no site e novamente não obtive qualquer resposta. Finalmente, tentei novamente contactar o jornal através do e-mail geral (publico@publico.pt) para perguntar se por acaso haveria qualquer problema com o formulário – e mais uma vez não obtive qualquer resposta. Fico profundamente incomodado com o facto de o jornal não se importar minimamente com esta situação. (…) Venho insistir pela quinta vez, na esperança de que alguém dê sinais de vida. (…) O desprezo manifestado pelo jornal consegue ser mais ofensivo do que o próprio acto de plágio original.
25 de Fevereiro de 2011
Luís Cruz-Filipe

Seguem-se transcrições da referida mensagem anterior de Luís Cruz-Filipe, que me terá sido enviada a 27 de Janeiro, mas que não recebi:
Foi publicado na edição (…) de 23 de Janeiro, no suplemento “Cidades”, páginas 2 e 3, um artigo sobre a história da carreira 7 da Carris, como legenda de duas fotografias da Avenida de Roma. O início do texto fala brevemente sobre todos os blogs que por aí existem e que falam da Avenida de Roma, para se centrar num: o blog que conta a história das carreiras de autocarros, em particular da página sobre a carreira 7. Constatei com espanto ao ler a peça que o blog a que o texto se refere é da minha autoria, mas que não há qualquer referência nem ao título do blog (“História das Carreiras da Carris”), nem ao link (http://historiaccfl.blogspot.com/), nem ao meu nome (que pode ser facilmente obtido a partir dos links no blog). Tão pouco fui contactado pelo autor do texto, embora o meu e-mail esteja indicado no blog. Acresce ainda que o corpo do artigo não é mais do que um resumo da história do 7, conforme contada no meu blog, contendo citações textuais sem indicação da fonte e várias expressões por mim usadas (como a do “período de decadência” da carreira). Não sei se tecnicamente esta situação se considera plágio ou não, mas é para mim uma situação extremamente desagradável. O texto com a história do 7 demorou-me várias horas a escrever, não contando com os vários anos de pesquisa para recolher todos os dados que nela refiro (…).
27 de Janeiro de 2011
Luís Cruz-Filipe

Mensagem enviada a Luís Cruz-Filipe (1/3)

Analisei a sua reclamação e parece-me claro que o seu texto e o seu blogue foram citados de forma deficiente. Verifiquei que na edição do Público de 26 Fev. foi publicada uma nota (em “O Público errou”, pág. 36) em que se reconhece, pelo menos em parte, o erro cometido e se apresentam as devidas desculpas. Não creio que se trate de um caso de plágio, que implicaria a ausência de citação do seu texto e a ocultação deliberada da fonte consultada. Penso que se terá tratado de um caso de negligência na apresentação da fonte (…).
1 de Março de 2011
J.Q.

Mensagem de Luís Cruz Filipe (2/3)

Começo por agradecer mais uma vez pela prontidão da sua resposta. Infelizmente, considero a sua avaliação (citação deficiente) errada, conforme aliás penso ter deixado bem claro nos vários mails que enviei. A minha questão prende-se com o facto de o artigo ser essencialmente um resumo do meu texto com uma introdução e uma conclusão adicionadas. Se não, vejamos.
1) “Na imagem está a carreira 7, que foi muito importante para esta avenida.” Admito que esta seja uma opinião generalizada, mas é notório que o título do meu texto seja “O autocarro da Avenida de Roma” e que na segunda frase se leia: “[…] é a altura de recordar a história do 7 — aquele que, desde o início, foi por excelência o autocarro da Avenida de Roma.”
2) “A carreira 7 chegou a ser a mais importante da rede, ligando a Praça do Chile à Calçada de Carriche.” O texto no meu blog começa precisamente: “Celebra-se hoje o 60º aniversário duma carreira que já foi das mais importantes da rede.”
3) O texto segue: “Arrancou em Fevereiro de 1950”. O único sítio onde encontrei esta informação, excluindo o meu blog e o meu site, foi num documento que me foi fornecido pela Carris há perto de vinte anos e em consulta dos jornais da época.
4) “A ‘decadência’ do 7 chegou com as estações de metro. Os autocarros ficaram cada vez mais espaçados.” A última secção do texto no meu blog, com o título “A decadência”, começa: “A fase descendente do 7 iniciou-se abruptamente com um acontecimento externo: a inauguração da estação de metropolitano do Campo Grande, a 2 de Abril de 1993. Num ápice, todo o funcionamento da carreira se alterou.” Mais à frente, lê-se: “O resultado a nível de frequência foi brutal. Em termos de horário, a frequência de 10 minutos durante todo o dia (aos dias úteis) em 1992 passou para 11 minutos em 1993 e para 12 minutos em 1995. Em termos de reforço, as viagens extraordinárias praticamente desapareceram […]”
5) “No final de 2010 apregoava-se o fim do sexagenário 7.” Mais uma vez, admito que esta informação esteja referida em mais locais, mas o meu blog começa precisamente: “Com o fim previsto para breve, é a altura de recordar a história do 7 […]” Ou seja, a questão é muito mais do que negligência na apresentação da fonte. Mais de metade do artigo é simplesmente adaptação do meu texto (…) O artigo está escrito com base num trabalho de pesquisa que foi quase integralmente realizado por mim, sem que me tenha sido atribuído qualquer crédito pelo facto. (…) O facto de o Público ter “reconhecido” o erro na secção apropriada (não li a notícia no dia 26 de Fevereiro, nem ninguém ainda me disseque a tivesse lido) de pouco me vale. (…) A única atitude que considero adequada é a publicação duma nota na mesma secção indicando claramente que o texto publicado no passado dia 23 de Janeiro é largamente baseado no meu blog. (…) Agradecia que, caso decida abordar toda esta situação na sua coluna, ponderasse no que acima referi e não descrevesse o caso como “uma citação mal feita” (…).
2 de Março de 2011, Luís Cruz-Filipe

Mensagem de Luís Cruz-Filipe (21/3)

Lamento que nunca tenha achado oportuno responder à questão que lhe coloquei relativa à impossibilidade de contactar o jornal Público. Ao longo dos dois últimos meses, tentei fazê-lo de diversas formas (pelos formulários na página, por e-mail, por telefone), sempre sem qualquer sucesso. Não só nunca consegui receber qualquer resposta do jornal relativa à questão de violação de direitos de autor que lhe referi, como a minha exigência de que fosse publicado um esclarecimento ao abrigo da Lei do Direito de Resposta nunca recebeu qualquer resposta. A única informação que tenho sobre qualquer esclarecimento publicado foi-me dada por si, mas como não compro o jornal ao sábado nunca sequer a consegui ler (…).
21 de Março de 2011
Luís Cruz-Filipe

Mensagem da jornalista Ana Gomes Ferreira (24/3)

(…) O leitor pede, agora, um direito de resposta. Esse pedido não me chegou ou ao editor do Local. (…) Quanto ao não ter conseguido comunicar com o jornal: os dois mails que o leitor enviou ao Local foram respondidos por mim e tiveram mesmo uma contra-resposta da parte dele (…). Não concordo, pois, que não tenha havido comunicação. Admito que desconheço se o leitor tem razão quando diz que é necessário autorização do autor para citar um blogue. Ou se é necessário pôr o nome do autor e a morada completa do blogue, como o leitor diz.
(…) Quando o leitor, logo após a publicação, enviou um primeiro email com a acusação de plágio, percebi que, de facto, há uma incorrecta identificação do nome do blogue, não se percebendo que História das Carreiras da Carris é um nome próprio. Enviei-lhe imediatamente um email com um pedido de desculpas. Mas não reconheço ter cometido plágio. Não se trata de uma tentativa de cópia, clara ou velada, porque, após mencionar um blogue abro aspas e, no final da citação, sublinho que a informação se lê na página do blogue dedicada à carreira 7. Ora a citação de uma página deixa implícito que anteriormente se menciona um documento. Não há qualquer má fé ou tentativa de roubo de algo que assumo que pertence a outro, neste caso um blogue (…).
24 de Março de 2011
Ana Gomes Ferreira

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