A decapitação de James Foley e a metáfora da morte do mensageiro

A decapitação de James Foley

e a metáfora da  morte do mensageiro.

As imagens da decapitação do jornalista James Foley, emitidas através do You Tube para todo o mundo, chocaram a opinião pública. Barack Obama, um dos homens com mais poder no planeta, declarou-se profundamente chocado. Obahma está a braços com uma outra quase «decapitação», sem anúncio prévio, registado no bairro de Ferguson, no estado de Missouri, onde um jovem negro, Michel Brown, foi alvejado com seis tiros, todos disparados pelas «forças da ordem». As razões ou explicações estão sob inquérito. Mas os factos estão aí e foram suficientes para colocar a violência nas ruas da pequena cidade de Ferguson, envolvendo grandes contingentes de polícias e população local. E sobretudo fazem reemergir o fenómeno das lutas racistas que, surdamente, de vez em quando, pensamos arredado dos E.U.A. e do Ocidente. Gaza e Lugansk continuam palco de medo, destruição e morte. Entretanto, nos mares da costa italiana, milhares de «fugidos» ao «vulcão» das Áfricas levam o governo da Itália a declarar que se os outros países da Europa não ajudarem terá, forçosamente, de suspender esta «repesca» salvadora do mar cemitério desta pobre gente esfomeada e desesperada. Por sua vez, o Papa Francisco, no seu último discurso na Coreia manda uma «indirecta» ao mesmo Obama e ao esfíngico Hollande que, aliás se fazem desentendidos, a dizer que para estabelecer a paz, no Iraque ou na Síria, não basta enviar armas ou bombardear apenas um dos lados da guerra. E talvez por estas e outras, desenganado das «forças» que tem para mudar este estado de coisas, ainda mal aqueceu a cadeira de Pedro e já fala de uma resignação.

É por estas situações e outras que eu provedor dos leitores do PÚBLICO não me sinto confortável no múnus das minhas funções a dirimir pequenos deslizes que fazem o somatório das acusações a relapsos jornalísticos, em si, de pouca monta, quando comparados com as enormes questões com que se defronta, hoje, à escala planetária, o jornalismo mundial e local. A tendência muitas vezes manifestada nas notícias, nas reportagens, nos artigos de opinião, para estar por um dos lados, sem estar de lado nenhum, traz algumas consequências da fraca eficácia do discurso jornalístico diante dos poderes organizados. E particularmente desfralda ao jornalismo, aos media, algumas debilidades enquanto «janelas abertas» para ver para além daquilo que nos mostram. Através das diferentes guerras ou dos fenómenos de lutas racistas ou outras, os jornalistas sabem que, historicamente, já foram por mais de uma vez enganados e bem enganados.

Não deixa de ser intrigante o espanto com que certos analistas «descobrem» que o «exército» desse dito EI – Estado Islâmico está pejado de estrangeiros advindos de países como E.U.A., Inglaterra, França, Espanha e porque não de Portugal. Com milhões de desempregados, a Europa é, hoje, um excelente campo de recrutamento. Como dizia o politólogo norte-americano, Max Abrahms, citado no artigo do PÚBLICO, (edição de 21.08.14), da autoria de Ana Fonseca Pereira, «o terrorismo é por definição uma estratégia de comunicação» e «se as maiorias das pessoas no mundo se sentem horrorizadas, ela atrai os elementos radicalizados da sociedade». E aliás, como anota Ana Fonseca, não é por acaso que Foley é mostrado ao mundo, ajoelhado, de cabeça rapada e vestido com um uniforme de cor laranja a fazer lembrar os presos de Guantánamo. E a propósito do homicídio de Michael Brown (em Missouri), o jornalista Peniel E. Joseph, em crónica do The Washington Post, transcrita no PÚBLICO de 20.08.2014, adverte: «Não se enganem, o homicídio de Brown não é a verdadeira origem da violência em Fergusson, mas antes a faísca que ateou. A pobreza, a segregação, o desemprego e um clima de racismo assombram esta pequena cidade».

A imagem dada ao mundo através daquele indefeso jornalista James Foley, raptado no norte da Síria, no final de 2012, não foi escolhida aleatoriamente. James é jornalista. Jornalista norte-americano. Nenhum personagem «personifica» melhor e de modo mais imediato à comunicação para o mundo e à comunicação do mundo do que um jornalista. Ele andava naqueles sítios para enviar informação. Ele era o mensageiro de lá para cá e de cá para lá. Mas para os jihadistas «tornar» Foley o megafone da terrível mensagem transmitida ao mundo tem um forte significado. Ele era o «mensageiro». O terror pode ser para o mundo. Mas a ameaça é particularmente para aqueles que põem no mundo a narração dos acontecimentos. Aquela imagem é a metáfora da aniquilação que todos os poderosos tentam dos «mensageiros», porventura fora dos seus quadros de referência. Dos seus interesses. E não se venha dizer que a história é nova. É de todos os tempos. O confronto entre o(s) Poder(es) e os «mensageiros», é desde sempre uma luta. Por vezes, surda, mas constante e que existe em todos os cantos do mundo.

Continuamos a olhar o terror como «filho» do(s) radicalismo(s). Mas também persistimos em não perceber como e sempre através da história os radicalismos tiveram origem. E por tudo, o primeiro radicalismo a evitar ou a combater é o que emerge do jornalismo, do sectarismo informativo.