A informação das redes sociais

A informação das redes sociais

1. A SENSIBILIDADE DOS LEITORES: «Escrevo para lhe manifestar o meu profundo desagrado e estupefacção pela forma como o Público tratou, na edição 17 de Julho, o relatório recentemente apresentado pelo PSD para subir a natalidade em Portugal
Depois de, no dia de ontem, o Público ter tratado o tema com a seriedade que merece, hoje volta volta à carga, mas para ridicularizar o assunto.
Fazendo um jornalismo preguiçoso, consegue-se encher uma página de jornal (que custa 1,10€ convém lembrar), com o feedback nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais. Começando por um título que se ouviria num café ou num táxi mas não num jornal de referência (?), escreve-se: “Querem pôr os portugueses a ter mais bebés? Arranjem-lhes um emprego. “Assim mesmo, sem aspas nem nada.»(…)
A mim apetece-me perguntar: Querem mais leitores e pôr o jornal a dar lucro? Façam jornalismo».
2. A REACÇÃO DA JORNALISTA: «Não podia estar mais em desacordo com o desabafo do leitor – que aproveito para agradecer – por considerar estar errado nos pressupostos em que se baseia. O PÚBLICO tem dado enorme destaque às questões da natalidade e ao consequente envelhecimento da população, dando voz a inúmeros especialistas e noticiando com espírito crítico os diferentes estudos/projecções sobre o tema. Recordo, aliás, que a 17 de Fevereiro, antes de Pedro Passos Coelho ter anunciado a constituição da comissão que elaborou as propostas de promoção da natalidade, o PÚBLICO dedicara duas páginas à quebra da natalidade, mais exactamente ao problema dos filhos únicos, tendo-lhe dedicado o editorial desse dia. (…) Quando, a 23 desse mês, o líder do PSD anunciou a constituição da comissão independente, o PÚBLICO dedicou duas páginas ao tema, veiculando a opinião de demógrafos, geógrafos e sociólogos, recuperando as estatísticas que dão conta da evolução da natalidade nas últimas décadas, passando em revistas as medidas que foram sendo tomadas pelos anteriores Governos em nome da promoção da natalidade e oferecendo uma leitura comparada com o cenário noutros países da Europa». (…)
E a jornalista Natália Faria, que a este assunto tem dedicado particular atenção, enumera seguidamente uma série de artigos, entrevistas e até editoriais com que o PÚBLICO tem acompanhado este importante problema social de Portugal. Entre outros temas, as páginas do PÚBLICO deram particular relevo: às palavras do próprio coordenador deste relatório, Joaquim Azevedo, em que este, desabridamente, acusa «a maioria das empresas não é amiga da natalidade»; às projecções do INE (Instituto Nacional de Estatística), que indicavam o risco de Portugal chegar a 2060 reduzido a 63 milhões de habitantes; ao declínio populacional por via das migrações, etc., etc.
Depois deste bem documentado elenco de conteúdos do PÚBLICO, a jornalista Natália Faria comenta: «Eis-nos finalmente no “exercício preguiçoso” que indignou o leitor. Ao longos dos últimos meses e anos – e antes, muito antes de o tema ter “saltado” para o discurso político, portanto, numa altura em que era preocupação quase exclusiva de académicos – o PÚBLICO sempre tratou exaustivamente este tema. No dia seguinte ao da divulgação das propostas, o jornal tinha dois caminhos: ouvir pela enésima vez os mesmos especialistas, aos quais vem dando voz desde há anos sobre um apanhado de propostas que não têm ainda garantia de virem a ser concretizadas, ou, naquilo que se pretendia fosse um exercício mais próximo da realidade das pessoas, apanhar os “ecos” que aquelas mesmas propostas tinham deixado junto daqueles a quem se destinavam: cidadãos, entre os quais muitos pais e mães, que, a partir das suas experiências mais ou menos pessoais, reagiam ao tema nos blogues e nas redes sociais como o Facebook. Fico assim sem perceber o que é que, na opinião do leitor, ridiculariza o assunto: o facto de termos optado por “dar voz às caixas de comentários e às redes sociais” — nas quais, gostemos ou não, se materializa cada vez mais uma parte substancial da realidade que designamos por espaço público — ou as opiniões que aquelas vozes expressaram, com argumentos e de forma civilizada, sobre as propostas em causa.»

3. O OPINIÃO DO PROVEDOR: Estas reacções, quer da parte do leitor, quer da parte da jornalista, evidenciam questões com que se defronta, umas de hoje, outras de sempre, o jornalismo. Por um lado, a diversificada sensibilidade com que reagem aos conteúdos dos media, a qual, na maior parte das vezes, não é vislumbrada por quem constrói ou produz a notícia, o comentário. Quem escreve para o grande público confronta-se com o insondável «universo mental» dos diferentes leitores que percepcionam, interpretam, com sentidos bem diversos a construção literal do texto. Estamos perante um dos campos, porventura, ainda menos estudado, que é o da percepção do que está escrito, da sua óptica, da intenção da sua mensagem. É claro que esta dimensão do processo da escrita e da leitura não pode condicionar quem escreve num jornal para o grande público. Mas não deixa de ser uma componente a ter sempre presente no processo da produção jornalística.
Evidentemente que no caso que dá azo a estas reflexões não me parece que a estupefacção manifestada pelo leitor tenha razão de ser. Não há qualquer intenção em ridicularizar um assunto tão grave para o país, como este da diminuição da natalidade. Um país que já atinge períodos em que morrem mais habitantes do que aqueles que nascem caminha para a sua própria morte. Esse texto que, efectivamente, para evitar estas confusões, poderia ter trocado o subtítulo pelo título, vem dar conta das reacções manifestadas ao relatório em questão através das redes sociais. É um capítulo não menos pertinente a ser considerado para prever o impacto da aceitação dos bons propósitos do relatório agora apresentado. Com todos os excessos verificáveis, as redes sociais constituem, hoje, um espelho reflector da opinião pública, cobrindo as mais imediatistas reacções, porém, essenciais para um conhecimento mais exacto do que pensa uma população, sem a adesão da qual nenhuma reforma será levada a efeito. As redes sociais serão, hoje, um prolongamento indistinto da opinião popular. No seu vertiginoso carácter hipodérmico são construídas sem a contenção de um órgão de imprensa pautada por compromissos sociais, éticos e morais, do «statu quo», mas, por isso mesmo, merecem uma atenção especialíssima.