Ao leitor do PÚBLICO, com votos de bom futuro

(Cró­nica da edi­ção de 24 de Feve­reiro de 2012)

 

Despeço-me hoje de si, caro lei­tor do PÚBLICO, com a sen­sa­ção de conhe­cer melhor quem está desse lado, por trás dos milha­res de men­sa­gens que recebi, li e ana­li­sei ao longo de três anos nesta fun­ção de pro­ve­dor que agora chega ao fim, e que pro­cu­rei enten­der — bem ou mal, não me cabe jul­gar — como sendo a de defen­sor dos seus inte­res­ses e direitos.

O retrato que de si me ficou — de si que me inter­pe­lou ou atra­vés de mim inter­pe­lou a redac­ção do PÚBLICO, recla­mando, pro­tes­tando, às vezes elo­gi­ando ou apre­sen­tando suges­tões — é o de uma figura múl­ti­pla, feita das opi­niões e inte­res­ses diver­sos de gente diversa, mas com tra­ços comuns que com­põem uma ima­gem coe­rente: a de um lei­tor culto e exi­gente, que apre­cia o rigor, a isen­ção e a pro­fun­di­dade das notí­cias, que valo­riza a qua­li­dade da infor­ma­ção e da opi­nião, que é pouco tole­rante face a erros e falhas pro­fis­si­o­nais. E que está pre­o­cu­pado com o futuro do jor­nal que escolheu.

Na hora do balanço recordo, caro lei­tor par­ti­ci­pa­tivo, o essen­cial do que me disse. Disse-me, em pri­meiro lugar, que quer ser mais ouvido. Quer ver res­pon­di­das as suas dúvi­das e as suas crí­ti­cas e gos­ta­ria que as suas pró­prias opi­niões pudes­sem ser mais vezes aco­lhi­das e par­ti­lha­das com a comu­ni­dade de lei­to­res. Desagrada-lhe que as suas cha­ma­das de aten­ção, aler­tando para erros ou omis­sões nas notí­cias, pare­çam mui­tas vezes cair em saco roto. Terá notado pro­gres­sos neste domí­nio, nome­a­da­mente na edi­ção para a Inter­net, mas sente que ao apreço que lhe é devido como com­pra­dor, assi­nante ou autor do cli­que que gerou mais um alga­rismo na conta das pági­nas con­sul­ta­das na rede, nem sem­pre cor­res­ponde um ver­da­deiro diálogo.

Disse-me que valo­riza notí­cias com­ple­tas e equi­li­bra­das, que tenham por objec­tivo dar-lhe a conhe­cer os fac­tos (e o seu con­texto), e lhe per­mi­tam for­mar o seu pró­prio jul­ga­mento, sem con­tra­bando de opi­niões à mis­tura, sobre o con­teúdo das infor­ma­ções divul­ga­das. Que apre­cia, con­cor­dando ou não com o que lê, o espaço que o PÚBLICO dedica à opi­nião qua­li­fi­cada, mas não quer ver a opi­nião a inva­dir a man­cha infor­ma­tiva. Que estima o valor acres­cen­tado do jor­na­lismo inter­pre­ta­tivo e ana­lí­tico, sem o qual lhe fal­ta­riam ele­men­tos para com­pre­en­der melhor temas e rea­li­da­des que conhece menos bem, mas exige que a inter­pre­ta­ção seja clara, argu­men­tada e infor­mada por fac­tos devi­da­mente com­pro­va­dos e con­tex­tu­a­li­za­dos. Quer, em suma, que o tra­tem como o cida­dão que é, e que res­pei­tem a sua inteligência.

Disse-me que nem sem­pre vê estes valo­res assu­mi­dos de forma exem­plar nas pági­nas impres­sas ou vir­tu­ais do seu jor­nal. Que encon­tra nele notí­cias e títu­los que con­si­dera ten­den­ci­o­sos. Esse é um plano em que por vezes dis­cor­dei de si, por jul­gar que o ale­gado envi­e­sa­mento não exis­tira, e que a maté­ria publi­cada não envol­via que­bra das regras pro­fis­si­o­nais e éticas a que o jor­nal se obriga, explicando-se pro­va­vel­mente a crí­tica pelas suas pró­prias pre­fe­rên­cias e con­vic­ções (polí­ti­cas, ide­o­ló­gi­cas e outras, todos as temos), que não terá visto reflec­ti­das como dese­ja­ria numa opção edi­to­rial inde­pen­dente e jor­na­lis­ti­ca­mente jus­ti­fi­cada. Outras vezes, como recor­dará, con­cor­dei con­sigo, sobre­tudo no caso de títu­los que podiam ser vis­tos como enga­no­sos face à pró­pria notí­cia para que remetiam.

Deu-me conta, em mui­tas cen­te­nas de men­sa­gens, do incó­modo e da indig­na­ção com que vê a mul­ti­pli­ca­ção de aten­ta­dos à lín­gua por­tu­guesa (erros orto­grá­fi­cos, pon­ta­pés na gra­má­tica, excesso de estran­gei­ris­mos) e a outras lín­guas (vocá­bu­los usa­dos ou gra­fa­dos de forma impró­pria, tra­du­ções defi­ci­en­tes) em tex­tos publi­ca­dos no jor­nal impresso e, mais ainda, na edi­ção elec­tró­nica. Não posso estar mais de acordo con­sigo. A qua­li­dade da escrita no PÚBLICO tem vindo a decair de forma alar­mante, e creio que a apa­rente inca­pa­ci­dade para con­tra­riar esse per­curso des­cen­dente só pode explicar-se por erro de apre­ci­a­ção dos seus res­pon­sá­veis sobre o que ele repre­senta de falta de res­peito para com os seus direi­tos de leitor.

Obrigou-me a reflec­tir sobre um rol sig­ni­fi­ca­tivo de ques­tões de natu­reza ética e deon­to­ló­gica, sus­ci­ta­das por tra­ba­lhos publi­ca­dos, e nem todas fáceis de apre­ciar, por envol­ve­rem com frequên­cia esco­lhas dile­má­ti­cas entre valo­res em con­fronto — e sei que é tam­bém do maior ou menor acerto de tais esco­lhas ao longo do tempo que depende a sua con­fi­ança como leitor.

Des­sas ques­tões nas­ceu a mai­o­ria dos tex­tos que aqui assi­nei. Alguns abor­da­ram situ­a­ções pon­tu­ais, que — mesmo nos casos em que jul­guei as quei­xas per­ti­nen­tes ou dig­nas de refle­xão — não cor­res­pon­dem a com­por­ta­men­tos carac­te­rís­ti­cos deste jor­nal, valendo sobre­tudo como cha­ma­das de aten­ção. Outros, porém, apon­ta­ram pro­ce­di­men­tos cri­ti­cá­veis e pre­o­cu­pan­tes que ten­dem a repetir-se, exi­gindo debate e cor­rec­ção. Sem me alon­gar, diria que estão nesse caso, por exem­plo, o recurso exces­sivo a fon­tes anó­ni­mas, a atri­bui­ção de opi­niões a pes­soas não iden­ti­fi­ca­das e a insu­fi­ci­ente veri­fi­ca­ção atem­pada de notí­cias de ori­gem exte­rior à redac­ção do PÚBLICO vei­cu­la­das pela edi­ção na Internet.

Invo­cando os seus inte­res­ses e expec­ta­ti­vas pes­so­ais, falou-me ainda, caro lei­tor, das áreas a que gos­ta­ria que o jor­nal desse maior aten­ção. Foram mui­tas as suges­tões, e nem sem­pre pra­ti­cá­veis ou com­pa­tí­veis entre si. Esco­lhi, por isso, tra­zer aqui ape­nas duas reco­men­da­ções, que me pare­cem essen­ci­ais para a con­so­li­da­ção da ima­gem do PÚBLICO como jor­nal de referência.

A pri­meira, jus­ti­fi­cada pela tra­di­ci­o­nal opa­ci­dade dos vários pode­res que con­di­ci­o­nam a nossa vida colec­tiva, e pela cres­cente impor­tân­cia cívica do seu escru­tí­nio: deve ser atri­buída ao jor­na­lismo de inves­ti­ga­ção uma pri­o­ri­dade edi­to­rial que hoje não se reflecte nes­tas pági­nas. Falo do tra­ba­lho de inves­ti­ga­ção ori­gi­nal, inde­pen­dente, minu­ci­oso, eti­ca­mente sus­ten­tado e deter­mi­nado pelo inte­resse público, não dos reca­dos e das sus­pei­ções ou acu­sa­ções incon­se­quen­tes e não veri­fi­ca­das que por aí detur­pam a nobreza desse género jor­na­lís­tico para gáu­dio de todos os populismos.

A segunda, igual­mente deter­mi­nada pelo tempo que vive­mos: o PÚBLICO deve­ria inves­tir muito mais na infor­ma­ção sobre a Europa, a polí­tica euro­peia, as ten­dên­cias e con­fli­tos que per­cor­rem a União e os seus Esta­dos mem­bros. Sem esque­cer que já há muito a qua­li­dade do acom­pa­nha­mento infor­ma­tivo das ins­ti­tui­ções euro­peias é uma sin­gu­la­ri­dade deste jor­nal na nossa imprensa diá­ria, creio que a incon­tor­ná­vel “euro­pei­za­ção da polí­tica” a que Teresa de Sousa se refe­ria há dias nes­tas pági­nas reclama uma aten­ção edi­to­rial mais forte e mais pró­xima. Não tere­mos vida demo­crá­tica digna desse nome sem uma infor­ma­ção mais deta­lhada e con­ti­nu­ada sobre os deba­tes euro­peus que hoje ver­da­dei­ra­mente nos con­di­ci­o­nam, e sem escru­tí­nio per­ma­nente da acti­vi­dade de quem repre­senta os cida­dãos da Europa na União, por demo­cra­ti­ca­mente defi­ci­ente que seja ainda, como é, a natu­reza dessa representação.

Nem todas as ideias para um PÚBLICO melhor serão con­cre­ti­zá­veis, embora algu­mas pos­sam depen­der ape­nas de um debate con­se­quente sobre pri­o­ri­da­des edi­to­ri­ais. Como bem sabe, caro lei­tor, o pri­meiro pro­blema que este jor­nal enfrenta é o da sua sus­ten­ta­bi­li­dade finan­ceira. Medi­das recen­tes, como o afas­ta­mento de tan­tos pro­fis­si­o­nais com­pe­ten­tes, não pode­riam dei­xar de afec­tar a qua­li­dade da sua redac­ção, e indi­cam que o esforço de sobre­vi­vên­cia con­di­ci­o­nará qual­quer estra­té­gia editorial.

Recordo-lhe por isso o que tan­tas vezes me con­fi­den­ciou entre crí­ti­cas a algo que lhe desa­gra­dara: que o PÚBLICO — na expres­são a que tan­tas vezes recor­reu — “é ape­sar de tudo” o diá­rio da sua pre­fe­rên­cia, aquele com que mais se iden­ti­fica, e cuja falta mais afec­ta­ria o seu quo­ti­di­ano de cida­dão infor­mado. Eu, que a par­tir de hoje sou tam­bém o lei­tor a que aqui sim­bo­li­ca­mente me dirijo, subs­crevo e acres­cento: tal perda dimi­nui­ria de modo sig­ni­fi­ca­tivo — sim, “ape­sar de tudo” — a qua­li­dade do espaço público por­tu­guês. Se lhe falo disto, é por­que poderá che­gar o tempo de nos per­gun­tar­mos o que pode­re­mos tam­bém nós, lei­to­res, fazer pela con­ti­nui­dade deste pro­jecto informativo.

A con­fi­ança dos lei­to­res num jor­nal obriga à con­tra­par­tida da maior trans­pa­rên­cia nas expli­ca­ções que lhes são devi­das. A fun­ção medi­a­dora dos jor­na­lis­tas como escru­ti­na­do­res dos pode­res (de todos os pode­res) implica que estes sejam os pri­mei­ros a acei­tar ver escru­ti­nado o seu tra­ba­lho. Como seu pro­ve­dor, caro lei­tor, con­si­de­rei pri­o­ri­tá­rio comunicar-lhe tudo o que pude apu­rar, em cada caso, sobre o pro­cesso de pro­du­ção de uma notí­cia que lhe tenha sus­ci­tado dúvi­das ou crí­ti­cas. Devo hoje dizer-lhe que só o pude fazer com a coo­pe­ra­ção activa da redac­ção do jornal.

Con­tra­ri­a­mente a ideias fei­tas sobre os pro­fis­si­o­nais deste ofí­cio, encon­trei nos jor­na­lis­tas do PÚBLICO (as muito raras excep­ções só con­fir­mam a regra) uma grande dis­po­ni­bi­li­dade para esta forma de auto-regulação ética e pro­fis­si­o­nal, uma com­pre­en­são genuína da impor­tân­cia da refle­xão e do escla­re­ci­mento sobre as quei­xas apre­sen­ta­das pelos lei­to­res. É um facto que jus­ti­fica um olhar opti­mista sobre o futuro do jor­nal e que irá cer­ta­mente aju­dar — como me aju­dou a mim — quem, com outras pers­pec­ti­vas e expe­ri­ên­cias, me suceda neste cargo.

Fei­tas as des­pe­di­das e agra­de­cendo toda a sua aten­ção par­ti­ci­pante e crí­tica, per­mita, caro lei­tor, que apro­veite as linhas que me res­tam para agra­de­cer tam­bém, à admi­nis­tra­ção e à direc­ção do PÚBLICO, a con­fi­ança que em mim depo­si­ta­ram e o modo como res­pei­ta­ram a abso­luta inde­pen­dên­cia do meu trabalho.

José Quei­rós

 

Comentários on line: balanço e reflexões em curso

Nos meses seguin­tes a ter ini­ci­ado as fun­ções de pro­ve­dor do lei­tor do PÚBLICO, em Março de 2010, grande parte dos pro­tes­tos que me che­ga­vam dos lei­to­res tinham a ver com o facto de as cai­xas de comen­tá­rios às notí­cias da edi­ção on line do jor­nal (já então a mais pro­cu­rada entre as dos media gene­ra­lis­tas) esta­rem a ser inun­da­das por tex­tos gros­sei­ros e ofen­si­vos, exi­bi­ções de boça­li­dade e expres­sões de ódio (racista, homo­fó­bico, xenó­fobo) de uma mino­ria que, geral­mente a coberto do ano­ni­mato, e infrin­gindo as regras de publi­ca­ção em vigor, estava a afas­tar da frequên­cia desse espaço de dis­cus­são os lei­to­res inte­res­sa­dos no debate público sério e civi­li­zado da actu­a­li­dade informativa.

Dedi­quei a esse tema vários tex­tos na minha coluna domi­ni­cal no PÚBLICO e foi com grande satis­fa­ção que vi ser anun­ci­ado, numa ati­tude pio­neira e ainda hoje pouco seguida na imprensa por­tu­guesa on line, a deci­são tomada pela direc­ção do jor­nal, de ins­ti­tuir um sis­tema de ges­tão de comen­tá­rios que punha fim à sua publi­ca­ção auto­má­tica e cri­ava um sis­tema de mode­ra­ção que pas­sava pela aná­lise des­ses tex­tos, a cargo de uma equipa de edi­to­res. Quando esse novo sis­tema entrou final­mente em vigor, em Março de 2011, pôde verificar-se que as dis­cus­sões nas cai­xas de comen­tá­rios ganha­ram de ime­di­ato em qua­li­dade, sem afec­ta­rem a par­ti­ci­pa­ção dos lei­to­res num debate aberto e livre, limi­tado ape­nas por regras ele­men­ta­res de res­peito pelos outros que até aí eram igno­ra­das pelos pro­du­to­res de lixo retó­rico. As únicas des­van­ta­gens desta mudança pare­ciam ser a da impor­tân­cia dos recur­sos edi­to­ri­ais que foi neces­sá­rio afec­tar à mode­ra­ção dos comen­tá­rios, e um maior atraso na publi­ca­ção dos tex­tos, reti­rando viva­ci­dade aos debates.

Já perto do final de 2012, o PÚBLICO fez acom­pa­nhar a remo­de­la­ção do seu site de uma reno­va­ção do sis­tema de publi­ca­ção de comen­tá­rios dos lei­to­res, pro­cu­rando rever os aspec­tos desa­van­ta­jo­sos da regu­la­ção intro­du­zida no ano ante­rior e dar novos pas­sos em frente na qua­li­fi­ca­ção desse espaço de debate. Entre várias outras mudan­ças, foram cri­a­dos um sis­tema de registo dos comen­ta­do­res e um novo modelo de mode­ra­ção, envol­vendo os pró­prios lei­to­res, ao mesmo tempo que os jor­na­lis­tas eram incen­ti­va­dos a par­ti­ci­par na dis­cus­são dos tex­tos da sua auto­ria e eram actu­a­li­za­dos e afi­na­dos os cri­té­rios de publi­ca­ção, que podem ser con­sul­ta­dos junto às notí­cias do Público Online.

Não quis encer­rar o meu man­dato de pro­ve­dor sem pro­cu­rar fazer um balanço des­tas mudan­ças. Dirigi por isso um pequeno ques­ti­o­ná­rio à edi­tora exe­cu­tiva do Público Online, Simone Duarte. Os lei­to­res encon­tra­rão mais abaixo essas per­gun­tas e as res­pos­tas que Simone Duarte par­ti­lhou com o jor­na­lista Hugo Tor­res, res­pon­sá­vel pela rela­ção do PÚBLICO com as redes sociais.

Sem me pro­nun­ciar, neste momento, sobre as nor­mas cri­a­das para pôr em prá­tica o sis­tema de “repu­ta­ção” asso­ci­ado à par­ti­ci­pa­ção dos lei­to­res na mode­ra­ção dos comen­tá­rios — uma opção que só o tempo per­mi­tirá ava­liar melhor —, cons­tato que este novo passo apre­senta já bons resul­ta­dos para o inte­resse e a qua­li­dade do debate das notí­cias, tor­nando tam­bém mais raros os can­sa­ti­vos comen­tá­rios “fora do tópico”, sem afec­tar a par­ti­ci­pa­ção dos lei­to­res e tor­nando quase resi­du­ais as quei­xas diri­gi­das ao sis­tema de mode­ra­ção. Tudo indica que o PÚBLICO está a fazer, neste domí­nio, um bom caminho.

Por mim, con­ti­nuo no entanto a cri­ti­car, por razões de prin­cí­pio que aqui exprimi por várias vezes, a acei­ta­ção de comen­tá­rios anó­ni­mos — que são ainda, aliás, a mai­o­ria dos que são publi­ca­dos. Registo porém com agrado que tam­bém esse debate está agora em curso no PÚBLICO, como decorre das res­pos­tas de Simone Duarte e Hugo Tor­res, e espero que ele venha a con­cluir por uma noção de res­pon­sa­bi­li­dade edi­to­rial e cívica que ponha fim, no que a este jor­nal diz res­peito, à publi­ca­ção de opi­niões a coberto do anonimato.

José Quei­rós

 

 

Per­gun­tas e res­pos­tas sobre o novo sis­tema de mode­ra­ção dos comen­tá­rios às notí­cias on line:

Per­gunta — Que balanço fazem dos cerca de três meses pas­sa­dos sobre a entrada em vigor do novo sis­tema de mode­ra­ção e publi­ca­ção de comen­tá­rios às notí­cias publi­ca­das na edi­ção on line? Têm dados que per­mi­tam ava­liar o grau de satis­fa­ção dos lei­to­res com o novo sistema?

Res­posta — Acre­di­ta­mos que os lei­to­res gos­ta­ram da mudança e que se estão – ainda – a adap­tar bem ao novo sis­tema. O con­ceito de registo, tal como existe agora, é novo no PÚBLICO. O modelo de repu­ta­ção nos comen­tá­rios, tam­bém. Ape­sar de con­ti­nu­ar­mos a rece­ber crí­ti­cas atra­vés dos comen­tá­rios ao pró­prio sis­tema de comen­tá­rio, acusando-nos tanto de cen­sura como de ser­mos dema­si­ado per­mis­si­vos, a ver­dade é que o número des­tas crí­ti­cas dimi­nuiu subs­tan­ci­al­mente nos meses mais recen­tes. É cada vez mais raro rece­ber­mos quei­xas por os comen­tá­rios demo­ra­rem dema­si­ado a serem moderados.

Não exis­tem dados objec­ti­vos para ava­liar o grau de satis­fa­ção dos lei­to­res. Nem rece­be­mos elo­gios direc­tos ao novo modelo (excepto nos pri­mei­ros dias, quando alguns lei­to­res se diri­gi­ram a nós com aplau­sos, dúvi­das, suges­tões e crí­ti­cas). No entanto, a osten­siva queda do número de crí­ti­cas, em rela­ção ao pas­sado, permite-nos con­cluir que os lei­to­res estão mais satis­fei­tos, e o aumento da sua par­ti­ci­pa­ção tam­bém. A par­ti­ci­pa­ção de jor­na­lis­tas nas cai­xas de comen­tá­rios e o des­ta­que de comen­tá­rios na home­page e nas pági­nas de sec­ção tam­bém têm sido impor­tan­tes neste pro­cesso, que pre­tende que os lei­to­res se sin­tam valorizados.

P. — A mudança traduziu-se em aumento ou dimi­nui­ção do número de comen­tá­rios publi­ca­dos? Exis­tem dados que per­mi­tam retra­tar essa evolução?

R. — O número de comen­tá­rios aumen­tou. Em Dezem­bro de 2011, o PÚBLICO regis­tou 23.170 comen­tá­rios. Um ano depois, em Dezem­bro de 2012, 26.731 – o que sig­ni­fica uma subida de 15,4%. Com­pa­rando os meses de Janeiro de 2012 e de 2013 (perío­dos homó­lo­gos), vê-se um aumento no número de comen­tá­rios de 26.809 para 35.289 – isto é, um cres­ci­mento de 31,6%. Este último valor supera o cres­ci­mento do PÚBLICO Online em page­vi­ews (30%) e visi­tas únicas (15%) entre os mes­mos meses, Janeiro de 2012 e de 2013.

Como só esta­mos a com­pa­rar um mês do ano, con­vém ter em conta um certo grau de ale­a­to­ri­e­dade, interno e externo. O pri­meiro obriga-nos a rever as notí­cias publi­ca­das neste mês, tanto num ano como nou­tro, para ava­liar se houve um maior número de notí­cias mais ape­te­cí­veis aos olhos dos nos­sos comen­ta­ris­tas ou mesmo um qual­quer fenó­meno mediá­tico que esteja a afec­tar subs­tan­ci­al­mente a métrica. O segundo, externo, tem que ver com a vul­ga­ri­za­ção do acto de comen­tar nos sites noti­ci­o­sos online: se o hábito esti­ver a dimi­nuir, sig­ni­fica que o PÚBLICO está a con­tra­riar a ten­dên­cia; se esti­ver a aumen­tar, seria pre­ciso con­ta­bi­li­zar a taxa de cres­ci­mento glo­bal com a do PÚBLICO.

P. — Manteve-se uma task-force espe­cí­fica para a gestão/moderação de comen­tá­rios? Em caso afir­ma­tivo, com que fun­ções e com que tipo de cri­té­rios para a sua composição?

R. — A equipa de mode­ra­do­res mudou. Como pre­ten­de­mos criar uma rela­ção mais pró­xima e directa com os lei­to­res, optá­mos por cha­mar os jor­na­lis­tas para desem­pe­nhar esse papel. O jor­na­lista Hugo Tor­res res­pon­sá­vel pela rela­ção com a comu­ni­dade (redes soci­ais),  é que quem gere a mode­ra­ção de comen­tá­rios, que é feita em con­junto com a res­tante redac­ção, em par­ti­cu­lar com os edi­to­res do Online. Os res­tan­tes jor­na­lis­tas estão a ser incen­ti­va­dos a mode­rar os comen­tá­rios nas suas pró­prias peças, para entra­rem em con­tacto em pri­meira mão com suges­tões e crí­ti­cas que nos che­gam por essa via, quer sejam publi­ca­das ou não. Este modelo per­mite uma res­posta mais rápida aos lei­to­res – acres­cen­tando, cor­ri­gindo, tra­tando de novos ângu­los – e conhe­cer melhor o nosso público. Ainda pre­ci­sa­mos de mais ade­são por parte dos jor­na­lis­tas mas acre­di­ta­mos estar no cami­nho certo.

P. — Que balanço fazem da anun­ci­ada par­ti­ci­pa­ção dos lei­to­res na mode­ra­ção de comen­tá­rios em fun­ção da repu­ta­ção? Tem atraído a par­ti­ci­pa­ção de um número sig­ni­fi­ca­tivo de leitores?

R. — Os lei­to­res estão a come­çar a par­ti­ci­par na mode­ra­ção, algo que está a acon­te­cer de forma lenta mas pro­gres­siva – tal como tínha­mos pre­visto. Estes pri­mei­ros meses ser­vi­ram para os nos­sos lei­to­res se regis­ta­rem, par­ti­ci­pa­rem – escre­vendo comen­tá­rios, par­ti­ci­pando em inqué­ri­tos – e, assim, acu­mu­la­rem pon­tos, repu­ta­ção. Ser­vi­ram e con­ti­nuam a ser­vir. Temos milha­res de lei­to­res regis­ta­dos, e, para já, uma pequena par­cela está a mode­rar comen­tá­rios. Isto, como vimos, não sig­ni­fica que a par­ti­ci­pa­ção seja dimi­nuta (está a aumen­tar), mas que pas­sar de um nível de repu­ta­ção para o seguinte exige uma par­ti­ci­pa­ção con­ti­nu­ada e de boa qua­li­dade. Requi­si­tos que, como espe­rado, exi­gem tempo.

Ape­sar de tudo isto, acre­di­ta­mos que mui­tos ainda não per­ce­be­ram que têm que se regis­tar para que os seus comen­tá­rios sejam assi­na­dos e esta­mos a tra­ba­lhar em solu­ções grá­fi­cas que recor­dem aos lei­to­res de repu­ta­ção supe­rior que podem par­ti­ci­par na mode­ra­ção de comen­tá­rios e, nos inqué­ri­tos, de argu­men­tos (já fize­mos pelo menos uma desde o lan­ça­mento do site para faci­li­tar a visu­a­li­za­ção da lista de cri­té­rios e a expli­ca­ção de como o sis­tema funciona).

P. — Con­ti­nuam a chegar-me quei­xas sobre comen­tá­rios rejei­ta­dos (e que geral­mente não posso ava­liar por des­co­nhe­cer os tex­tos), mas bas­tante menos do que ante­ri­or­mente. Do mesmo modo, con­ti­nuam a chegar-me, mas tam­bém menos do que antes, quei­xas sobre comen­tá­rios publi­ca­dos que ale­ga­da­mente infrin­gem — em alguns casos infrin­gem sem som­bra de dúvida — as regras anun­ci­a­das. Que moti­vos pen­sam que esta­rão a pesar nessa dimi­nui­ção de reclamações?

R. — É mais evi­dente para os lei­to­res que existe entre eles, enquanto uti­li­za­do­res do site, uma hie­rar­quia. As com­po­nen­tes grá­fi­cas que intro­du­zi­mos para dife­ren­ciar os lei­to­res regis­ta­dos por nível de repu­ta­ção (adqui­rida com par­ti­ci­pa­ção con­ti­nu­ada e de boa qua­li­dade, isto é, de acordo com os cri­té­rios de publi­ca­ção) e para iden­ti­fi­car cla­ra­mente os lei­to­res anó­ni­mos leva­ram mais lei­to­res a per­ce­ber que exis­tem regras para comen­tar. Pelo menos, é nisso que acre­di­ta­mos. Mas tam­bém sabe­mos que grande parte de comen­tá­rios rejei­ta­dos o são por vezes por­que os lei­to­res não leram os cri­té­rios (cri­té­rios que sem­pre exis­ti­ram no PÚBLICO, como não uti­li­zar letras maiús­cu­las ou não acres­cen­tar links) – ou seja, são rejei­ções que nada têm a ver com o con­teúdo, mas com a falta de conhe­ci­mento das regras. Daí tam­bém as mudan­ças que esta­mos a intro­du­zir e intro­du­zi­mos para tor­nar a lista de cri­té­rios cada vez mais visível.

P. — Podem expli­car por que é que enten­de­ram man­ter a pos­si­bi­li­dade de comen­tar sob ano­ni­mato? Como comen­tam o facto de (con­forme sugere a con­sulta às cai­xas de comen­tá­rios nos últi­mos tem­pos) os comen­tá­rios anó­ni­mos sur­gi­rem agora em esma­ga­dora maioria?

R. — O peso dos comen­tá­rios anó­ni­mos em rela­ção aos comen­tá­rios de lei­to­res regis­ta­dos tem dimi­nuído. Em Dezem­bro de 2011 e Janeiro de 2012, os comen­tá­rios anó­ni­mos repre­sen­ta­vam, res­pec­ti­va­mente, 91,4% e 91,3% do total. Um ano depois, em Dezem­bro de 2012 e Janeiro de 2013, esses valo­res caí­ram ligeira e res­pec­ti­va­mente para 90,9% e 88,7%. O peso real deve ser ainda infe­rior, uma vez que esta con­ta­bi­li­dade é feita com o uni­verso de comen­tá­rios sub­me­ti­dos, ou seja, antes de serem sujei­tos a mode­ra­ção; como o número de comen­tá­rios anó­ni­mos rejei­ta­dos é subs­tan­ci­al­mente supe­rior ao de comen­tá­rios de lei­to­res regis­ta­dos, que por norma são apro­va­dos, estes valo­res devem cair ainda um pouco mais.

A deci­são de pos­si­bi­li­tar o ano­ni­mato não é defi­ni­tiva. Está, aliás, em aná­lise. Nos nos­sos cri­té­rios de publi­ca­ção dize­mos: “O PÚBLICO con­si­dera a pos­si­bi­li­dade de camu­flar a iden­ti­dade do autor de um comen­tá­rio como um direito dos lei­to­res e uma neces­si­dade para garan­tir a livre expres­são de todas as opi­niões em casos sen­sí­veis”. É o argu­mento que mais pesa na deci­são de per­mi­tir, no modelo actual, o anonimato.

Mas tam­bém dize­mos: “Sem­pre que essa neces­si­dade não exista, o PÚBLICO reco­menda aos seus lei­to­res que assi­nem os comen­tá­rios com a sua ver­da­deira iden­ti­dade”. E ainda: “A iden­ti­fi­ca­ção dos auto­res dos comen­tá­rios deve ser a regra e o ano­ni­mato deve ser a excep­ção.” Como este último cri­té­rio cla­ra­mente não se veri­fica, e o ante­rior é vio­lado fre­quen­te­mente, esta­mos a questionar-nos se de facto deve­mos rever esta deci­são, per­mi­tindo ape­nas comen­tá­rios de lei­to­res regis­ta­dos e dei­xando as denún­cias anó­ni­mas para espa­ços mais reser­va­dos como o cor­reio (elec­tró­nico ou analógico).

Uma acção desse tipo estrei­ta­ria a rela­ção dos lei­to­res com os cri­té­rios de publi­ca­ção, uma vez que impli­ca­ria uma uti­li­za­ção mais com­pro­me­tida dos lei­to­res. O que falta pesar, final­mente, é se o que se perde em liber­dade de acção dos lei­to­res não se ganha com a redu­ção – que acha­mos seria sig­ni­fi­ca­tiva – dos abu­sos rei­te­ra­dos dessa liber­dade. Para já, optá­mos por uma dis­tin­ção grá­fica clara entre regis­ta­dos e anó­ni­mos, para que estes últi­mos se sin­tam com­pe­li­dos a ganhar “personalidade”.

Mas antes de con­si­de­rar esta opção, vamos ver o resul­tado de algu­mas mudan­ças grá­fi­cas que vamos intro­du­zir na caixa de comentários.

P. — A nova fun­ci­o­na­li­dade des­ti­nada a apon­tar erros nas notí­cias apre­senta um grau de uti­li­za­ção razoá­vel? É pos­sí­vel quan­ti­fi­car os erros que tenham sido cor­ri­gi­dos atra­vés dessa forma de par­ti­ci­pa­ção dos leitores?

R. — Não exis­tem dados que nos per­mi­tam dizer exac­ta­mente quan­tas vezes essa fer­ra­menta foi uti­li­zada. Mas temos rece­bido muito pouco feed­back atra­vés dessa fun­ci­o­na­li­dade. Os lei­to­res têm-se socor­rido das cai­xas de comen­tá­rios e das redes soci­ais para suge­rir cor­rec­ções. O que nos per­mite responder-lhes direc­ta­mente, mui­tas vezes pelo jor­na­lista que assina a peça, e à vista de todos, aumen­tando a trans­pa­rên­cia do pro­cesso e fazendo com que o lei­tor não se sinta a enviar men­sa­gens para uma redac­ção sem rosto. Acre­di­ta­mos na rela­ção com o lei­tor e o nosso objec­tivo de que­rer ser o jor­nal que melhor rela­ção tem com o lei­tor é uma pri­o­ri­dade. O novo sis­tema de comen­tá­rios é uma parte ful­cral nesta rela­ção.
21 de Feve­reiro de 2013
Simone Duarte e Hugo Torres

Limpando a gaveta — 5

Sob este título, recu­pero peri­o­di­ca­mente alguns casos que não me foi pos­sí­vel tra­tar, por falta de espaço, na edi­ção em papel do PÚBLICO. Trata-se, em geral, de temas resul­tan­tes de recla­ma­ções ou dúvi­das dos lei­to­res e que foram objecto de comen­tá­rios ou expli­ca­ções da redac­ção do jornal.

 

Adop­ção de cri­an­ças por casais do mesmo sexo

Carta do lei­tor Diogo Morais Oliveira

(…) Esta men­sa­gem prende-se com uma notí­cia que hoje (20–02-2013) saiu no jor­nal no for­mato ‘bre­ves’, com o título “Tri­bu­nal Euro­peu diz que Por­tu­gal viola direi­tos huma­nos”, tendo já sido desen­vol­vida no Público Online com o título “Tri­bu­nal Euro­peu diz que Por­tu­gal viola direi­tos huma­nos na adop­ção por casais do mesmo sexo”.
Sou defen­sor desta ques­tão há muito e por isso achei estra­nho o TEDH ter dito uma coisa deste género num caso que envolvi outro Estado, que não o nosso.
E se ao ler a ‘breve’ fiquei com a sen­sa­ção de que o Público se limi­tava a trans­cre­ver um comu­ni­cado da ILGA-Portugal, sem ter rea­li­zado uma pes­quisa rápida para afe­rir da vali­dade do mesmo, ao ler o desen­vol­vi­mento na pla­ta­forma on-line reparo que a ati­tude do Público em nada mudou, con­ti­nu­ando a escre­ver sobre um assunto com um título total­mente errado.
Por isso tive de ir pes­qui­sar e, numa visita de cinco minu­tos ao site do Tri­bu­nal Euro­peu dos Direi­tos do Homem (que facil­mente elu­ci­dará o jor­na­lista que escre­veu a peça),  obtive a infor­ma­ção cor­recta: o Tri­bu­nal nunca diz que Por­tu­gal viola os direi­tos huma­nos; o Tri­bu­nal rea­liza sim uma aná­lise com­pa­ra­tiva dos dife­ren­tes orde­na­men­tos jurí­di­cos euro­peus para fun­da­men­tar a sua deci­são, e nessa aná­lise refere que Por­tu­gal não per­mite a adop­ção.
Claro que pode­mos, então, dizer que ao con­de­nar a Áustria nesse caso con­creto e ao ser idên­tica a situ­a­ção em Por­tu­gal, o Tri­bu­nal está tam­bém a con­de­nar Por­tu­gal.
Mas infe­liz­mente não se pode dizer isso. As deci­sões são rela­ti­vas ao caso  con­creto.
A inter­pre­ta­ção exten­siva desta deci­são pode e deve fazer-se no decurso de uma argu­men­ta­ção da peça. Porém fazê-la como uma afir­ma­ção no título da peça revela sen­sa­ci­o­na­lismo e falta de pro­fis­si­o­na­lismo.
Pes­so­al­mente tenho pena que o Público tenha optado por esta via. Por­que o tema em ques­tão revela de facto uma dis­cri­mi­na­ção grande na nossa soci­e­dade, que, na minha opi­nião, viola os direi­tos fun­da­men­tais dos por­tu­gue­ses. A peça jor­na­lís­tica vem de facto sus­ten­tar esta opi­nião, mas lê-la com o título errado acaba por com­pro­me­ter o juízo crí­tico e escla­re­cido do lei­tor, dei­tando por terra argu­men­tos que seriam bem úteis num debate já com­pli­cado.
E digo isto tudo por desi­lu­são neste assunto. Fiquei con­tente ao ler no jor­nal. E depois per­cebi que afi­nal não era bem assim…
20 de Feve­reiro de 2013
Diogo Morais Oliveira

 

Infor­ma­ção pres­tada pela jor­na­lista Cláu­dia Bancaleiro

Depois do alerta do lei­tor fomos ler o docu­mento do tri­bu­nal e alte­rá­mos a notí­cia “Tri­bu­nal Euro­peu diz que Por­tu­gal viola direi­tos huma­nos na adop­ção por casais do mesmo sexo”.
A notí­cia tem agora o título “Áustria con­de­nada por dis­cri­mi­nar casal de lés­bi­cas no direito à co-parentalidade” (http://www.publico.pt/sociedade/noticia/tribunal-europeu-diz-que-portugal-viola-direitos-humanos-na-adopcao-por-casais-do-mesmo-sexo-1585068).
O lei­tor tem razão na ques­tão que levanta e com base num excerto do docu­mento do tri­bu­nal é expli­cado em que con­texto surge Por­tu­gal.
No final do texto é feito um alerta sobre a cor­rec­ção rea­li­zada.
20 de Feve­reiro de 2012
Cláu­dia Bancaleiro

 

Nota

Acerca deste caso, em que a recla­ma­ção do lei­tor era total­mente jus­ti­fi­cada, recebi tam­bém um escla­re­ci­mento da jor­na­lista e edi­tora Bár­bara Wong, em que se lê:
“O que se pas­sou é que pegá­mos no texto publi­cado pela agên­cia Lusa e jun­tá­mos infor­ma­ção dis­po­ní­vel sobre o caso aus­tríaco e ale­mão avan­çada pela AFP e pela Reu­ters. De facto não con­sul­tá­mos o docu­mento do Tri­bu­nal Euro­peu dos Direi­tos Huma­nos, erra­da­mente. O texto publi­cado no site do PÚBLICO foi escrito com base no que saiu nas agên­cias, às quais com­pra­mos um ser­viço que jul­ga­mos de con­fi­ança e, por isso, nem sem­pre con­fir­ma­mos os dados”.
Como tenho aqui defen­dido, a publi­ca­ção de notí­cias de agên­cia não deve dis­pen­sar pro­ce­di­men­tos de veri­fi­ca­ção, para mais quando apa­re­cem subs­cri­tas pela assi­na­tura gené­rica PÚBLICO, e quando, como se demons­trou, pode­ria ter sido facil­mente con­sul­tada a fonte pri­má­ria (neste caso, o docu­mento do TEDH). Neste caso, o erro foi rapi­da­mente cor­ri­gido na edi­ção on line, e a cor­rec­ção do título e do texto foi assi­na­lada de acordo com as boas prá­ti­cas pro­fis­si­o­nais. Deve­ria, no entanto, e em coe­rên­cia, ter sido tam­bém publi­cada uma cor­rec­ção no jor­nal impresso.
José Quei­rós

 

 

Impor­tân­cia da cla­reza na cor­rec­ção de erros

Carta do lei­tor João Fraga de Oliveira

Como é pos­sí­vel? Sub­ja­cente a esta inter­ro­ga­ção está o facto de, lei­tor (e com­pra­dor) do Público assi­du­a­mente desde o seu pri­meiro número, (me) per­gun­tar como é pos­sí­vel um jor­na­lista escre­ver um artigo em que cita “decla­ra­ções” de alguém que “em nenhum momento” foram por este pro­fe­ri­das.  E ainda por cima “decla­ra­ções” rela­ti­va­mente exten­sas e ela­bo­ra­das.
Con­cre­ti­zando:
1. No Público de domingo, 27/01/2013, foi publi­cada (págs. 32/33) uma peça com o título “O Porto é um palco que teme fechar a cor­tina”;
2. Nessa peça, o autor (Sér­gio Andrade) atri­bui cla­ra­mente a uma pes­soa (Pedro Apa­rí­cio, do Tea­tro do Bolhão), a cor­ro­bo­ra­ção de “decla­ra­ções” (transcrevendo-as com aspas, logo, presume-se, tex­tu­al­mente) rela­ci­o­na­das com  a pos­tura da Câmara do Porto para com as com­pa­nhias de tea­tro;
3. Pos­te­ri­or­mente, no Público de 01/02/2013, na sec­ção “Car­tas à Direc­tora”, o “citado”, Pedro Apa­rí­cio, vem negar “ter pro­fe­rido esses comen­tá­rios”;
4. É certo que, no mesmo local, vem publi­cada uma nota da redac­ção (N.R.) em que se dá razão ao “citado” Pedro Apa­rí­cio e se reco­nhece que “em nenhum momento este mem­bro da direc­ção do Tea­tro do Bolhão fez os comen­tá­rios que erra­da­mente” lhe foram atri­buí­dos. Mas é jus­ta­mente aqui que está a ques­tão.
Não conheço nenhum dos inter­ve­ni­en­tes, não me inte­ressa aqui reflec­tir sobre a pos­tura da Câmara do Porto, nem, em geral, de alguma forma, sobre o tema da repor­ta­gem. O motivo deste mail é estri­ta­mente jor­na­lís­tico.
O que me deixa per­plexo é saber que um jor­na­lista, ainda por cima expe­ri­ente e de um jor­nal que con­si­dero o melhor jor­nal diá­rio por­tu­guês da actu­a­li­dade e que leio há mais de 20 anos, escreve numa peça “decla­ra­ções” de alguém que em “nenhum momento foram pro­fe­ri­das”.
Fico con­fuso. Sem­pre pen­sei que isso não podia acon­te­cer no Público.
Excesso de “ima­gi­na­ção”? Que­bra ética? Negli­gên­cia? Falha orga­ni­za­ci­o­nal?
Como é pos­sí­vel?
1 de Feve­reiro de 2013
João Fraga de Oli­veira
Santa Cruz da Trapa

 

Escla­re­ci­mento do jor­na­lista Sér­gio Andrade

Tratou-se de um erro meu, lamen­tá­vel, mas que tem uma expli­ca­ção sim­ples. Quando eu escrevi  “E se a nova legis­la­ção afecta natu­ral­mente os gru­pos e os cri­a­do­res do país inteiro, Car­los Costa — cor­ro­bo­rado por Pedro Apa­rí­cio (Tea­tro do Bolhão/Academia Con­tem­po­râ­nea do Espec­tá­culo), Ricardo Alves (Pal­mi­lha Den­tada) e Cata­rina Lacerda (Tea­tro do Frio), tam­bém ouvi­dos pelo PÚBLICO — alerta para as con­sequên­cias mais gra­vo­sas que ela terá no caso espe­cí­fico do Porto, autar­quia cujo pre­si­dente tem man­tido “uma rela­ção de per­ma­nente hos­ti­li­dade com as com­pa­nhias de tea­tro” e “desde o iní­cio diz que a cri­a­ção artís­tica é uma des­pesa que impede a des­pesa social.”, que­ria citar Pedro Apa­rí­cio a cor­ro­bo­rar ape­nas o alerta para as con­sequên­cias gra­vo­sas da nova legis­la­ção dos apoios [ao tea­tro] para o caso do Porto. No fim dessa afir­ma­ção, onde colo­quei uma vír­gula, deve­ria ter colo­cado um ponto, e aberto novo pará­grafo a citar exclu­si­va­mente Car­los Costa. Foi um erro de for­mu­la­ção, que criou uma situ­a­ção que muito lamento, e da qual já pedi des­cul­pas pes­so­ais a Pedro Apa­rí­cio, e tam­bém aos lei­to­res, com a nota nas Car­tas.
2 de Feve­reiro de 2013
Sér­gio Andrade

 

Nota

Fica expli­cada a natu­reza do lapso, já devi­da­mente cor­ri­gido. O epi­só­dio alerta no entanto para a impor­tân­cia da cla­reza nas cor­rec­ções, que não visam escla­re­cer ape­nas os envol­vi­dos, mas todos os lei­to­res. Nos ter­mos em que foi redi­gida (ver a carta de João Fraga de Oli­veira), a nota em que se reco­nhece o erro não pode­ria dei­xar de pro­vo­car a per­ple­xi­dade deste e de outros lei­to­res.
J. Q.

 

 

Títu­los e verbos

Men­sa­gem do lei­tor Duarte Martinho

Sabendo-se que a apli­ca­ção dos duo­dé­ci­mos [notí­cia publi­cada na pág. 21 da edi­ção do pas­sado dia 16 de Janeiro de 2013, acerca do paga­mento em duo­dé­ci­mos de metade dos sub­sí­dios de férias e de Natal aos tra­ba­lha­do­res] serve ape­nas para criar a ilu­são de que não vamos ter um “enorme aumento de impos­tos”, porquê escre­ver notí­cias com o título de «Duo­dé­ci­mos com­pen­sam agra­va­mento fis­cal até salá­rio bruto de 2700 euros», aju­dando a aumen­tar e espa­lhar essa ilu­são?
17 de Janeiro de 2013
Duarte Martinho

 

Res­posta do jor­na­lista Sér­gio Aníbal

O texto foi feito para ten­tar dizer às pes­soas o que é que irão rece­ber de salá­rio líquido men­sal já a par­tir deste mês. O facto de os duo­dé­ci­mos pode­rem criar a ilu­são nas pes­soas de que não existe aumento de impos­tos é evi­dente. E foi noti­ci­ado por nós e pela gene­ra­li­dade dos jor­nais em diver­sos arti­gos ante­ri­o­res a este. No artigo a que se refere o lei­tor, essa ideia não está explí­cita no título, tendo-se dado des­ta­que ao efeito men­sal que cons­ti­tuía a ideia forte deste artigo. Jun­tar estas duas ideias no mesmo título (o efeito dos duo­dé­ci­mos no salá­rio men­sal e a ilu­são que isso pode cau­sar a um assa­la­ri­ado des­pre­ve­nido) foi ten­tado, mas não con­se­guido. Ainda assim, no texto, é assi­na­lado por mais que uma vez que a con­tra­par­tida para rece­ber os duo­dé­ci­mos é não rece­ber os sub­sí­dios de Natal e de férias na sua tota­li­dade.
21 de Janeiro de 2013
Sér­gio Aníbal

 

Nota

A opção para o título, expli­cada por Sér­gio Aní­bal , é per­fei­ta­mente com­pre­en­sí­vel: pretendeu-se des­ta­car o ângulo esco­lhido para a peça em ques­tão. Resta notar que o verbo esco­lhido (com­pen­sar) é mani­fes­ta­mente infe­liz neste con­texto, dando razão à obser­va­ção crí­tica do lei­tor.
J.Q.

 

 

 

Assinatura de notícias: responsabilidade e integridade

(Cró­nica da edi­ção de 17 de Feve­reiro de 2013)

 

Dedi­quei vários tex­tos, neste espaço, a pro­ble­mas rela­ci­o­na­dos com a impor­tân­cia da cla­reza na iden­ti­fi­ca­ção da auto­ria das peças jor­na­lís­ti­cas e aos pro­ce­di­men­tos que devem ser segui­dos na assi­na­tura das notí­cias. Fi-lo a par­tir de quei­xas jus­ti­fi­ca­das dos lei­to­res con­tra más prá­ti­cas nesse domí­nio, geral­mente detec­ta­das na edi­ção on line e quase sem­pre rela­ci­o­na­das com falta de res­peito pelo tra­ba­lho alheio.

Entre outros, foram alvo de recla­ma­ções casos de notí­cias assi­na­das por jor­na­lis­tas do PÚBLICO (ou, mais fre­quen­te­mente, subs­cri­tas com a men­ção gené­rica PÚBLICO) que se limi­ta­vam a repro­du­zir (ou a uti­li­zar com ligei­ras adap­ta­ções) o con­teúdo de des­pa­chos de agên­cias noti­ci­o­sas ou de tex­tos ori­gi­nal­mente publi­ca­dos em outros sites infor­ma­ti­vos, ou que se limi­ta­vam a tra­du­zir, ainda que em forma resu­mida, tex­tos publi­ca­dos em órgãos de comu­ni­ca­ção estrangeiros.

A mul­ti­pli­ca­ção des­tes casos, com uma maior vul­ne­ra­bi­li­dade a estas prá­ti­cas noci­vas a resul­tar da dinâ­mica pró­pria das edi­ções elec­tró­ni­cas, pro­vo­cou um debate interno na redac­ção do PÚBLICO, moti­vado pela per­cep­ção de que coe­xis­tiam pro­ce­di­men­tos dife­ren­tes, nome­a­da­mente entre a edi­ção impressa e a edi­ção on line, e nem sem­pre res­pei­ta­do­res do espí­rito e da letra do que a este res­peito esti­pula, e a meu ver bem, o Livro de Estilo do jornal.

Esse debate, em que par­ti­ci­pei a con­vite dos res­pon­sá­veis edi­to­ri­ais, con­du­ziu à apro­va­ção de um con­junto de nor­mas e reco­men­da­ções para vigo­ra­rem após a recente remo­de­la­ção do site do PÚBLICO, de acordo com o prin­cí­pio geral de que “a assi­na­tura deve reflec­tir a auto­ria do texto sem mar­gem para dúvidas”.

São essas nor­mas e reco­men­da­ções que hoje coloco à dis­po­si­ção dos lei­to­res, para que pos­sam ser­vir como refe­rên­cia face a situ­a­ções que sus­ci­tem dúvi­das, repro­du­zindo para esse efeito um docu­mento interno que me foi reme­tido pela direc­tora exe­cu­tiva do Público Online, Simone Duarte:

1. Todos os tex­tos são assi­na­dos, inde­pen­den­te­mente da sua exten­são [esta regra não se aplica às notí­cias bre­ves da edi­ção impressa].

2. [No caso da uti­li­za­ção de des­pa­chos de agên­cias noti­ci­o­sas] deve creditar-se intei­ra­mente a peça à agên­cia se ela tiver sido sim­ples­mente trans­crita ou tra­du­zida, ainda que possa ter sido redu­zida ou alvo de ligei­ras adap­ta­ções ao estilo do jornal.

3. Deve ser assi­nada pela agên­cia e pelo PÚBLICO quando ao(s) despacho(s) utilizado(s) se acres­cen­tam ele­men­tos de con­tex­tu­a­li­za­ção ou escla­re­ci­men­tos jul­ga­dos necessários.

4. Deverá assi­nar com o nome quem é o ver­da­deiro autor de um texto e da pes­quisa ou reco­lha de infor­ma­ções que o ante­cede (devendo, se tiver recor­rido a um ou outro ele­mento reco­lhido em des­pa­chos de agên­cia ou outros media, atri­buir sem­pre esses cré­di­tos no texto), e isto mesmo quando o des­pa­cho de agên­cia foi o ponto de par­tida para o seu trabalho.

5. Nos casos em que a con­tri­bui­ção infor­ma­tiva da agên­cia tenha um peso rele­vante, propõe-se que o jor­na­lista assine com o nome da agên­cia (exem­plo: José Silva e Lusa). (…) Se um autor con­tou ape­nas com infor­ma­ção de con­tex­tu­a­li­za­ção dada por outra peça assi­nada por um outro autor, sendo este da redac­ção, deve ava­liar com os edi­to­res como fazer reflec­tir no texto essa situação.

6. A assi­na­tura de um texto nunca deve ser apa­gada. Se se trata de um texto que está em evo­lu­ção, a assi­na­tura deve reflec­tir, da mesma forma como num texto fechado, os con­tri­bu­tos que estão a actu­a­li­zar essa peça.

7. O recurso à assi­na­tura PÚBLICO deve ser con­si­de­rado uma excep­ção e não a regra. Isto por­que toda a redac­ção deve sentir-se obri­gada a tra­ba­lhar por si pró­pria as infor­ma­ções, mesmo quando se trate de maté­ria que tenha che­gado pri­meiro como des­pa­cho de agên­cia. A assi­na­tura gené­rica PÚBLICO nunca deve ser usada para evi­tar a iden­ti­fi­ca­ção do autor por ele não escre­ver habi­tu­al­mente sobre um assunto, por haver vários jor­na­lis­tas a con­tri­buir para um texto ou por haver erros que foram cor­ri­gi­dos, tendo-se alte­rado a ver­são do texto. Os tex­tos assumem-se, tal como os erros.

8. No caso de um texto base­ado numa notí­cia publi­cada nou­tro jor­nal, que é de actu­a­li­dade, que foi con­fir­mada, mas cuja redac­ção não acres­centa uma novi­dade, o jor­na­lista não deve assi­nar, por­que não é o autor. A notí­cia deve ser atri­buída com toda a cla­reza, e logo na aber­tura (ou mesmo na titu­la­gem, em cer­tos casos) ao órgão que a divulgou.

9. Nas peças inte­gral­mente ela­bo­ra­das (ainda que tenham sido resu­mi­das ou sofrido alte­ra­ções for­mais) a par­tir de tex­tos publi­ca­dos em outros media, nome­a­da­mente estran­gei­ros, como é comum na edi­ção online, dever-se-á:

a) evi­tar o abuso de assi­nar o texto por um jor­na­lista do PÚBLICO (ou sim­ples­mente pelo PÚBLICO) se nada de rele­vante tiver sido acrescentado;

b) evi­tar o vício de não atri­buir cla­ra­mente a auto­ria da notí­cia ao órgão que a publi­cou em pri­meira mão, seja citando-o ape­nas como tendo reco­lhido uma ou outra infor­ma­ção ou decla­ra­ção, seja colo­cando essas cita­ções ao mesmo nível das de outras fon­tes, por exem­plo cita­das já na peça ori­gi­nal (isto sem pre­juízo de que, em mui­tos casos, não se deve­ria avan­çar para a publi­ca­ção sem con­sulta, quando pos­sí­vel, de fon­tes docu­men­tais pri­má­rias ou intermédias);

c) refe­rir não só o órgão que publi­cou a notí­cia, mas tam­bém o seu autor, nos casos em que a marca de auto­ria de uma peça seja espe­ci­al­mente relevante.

d) Nos casos em que seja feita ou auto­ri­zada a trans­cri­ção inte­gral (ou par­cial, mas com cor­tes devi­da­mente assi­na­la­dos) de uma peça ou de um docu­mento colhido num órgão estran­geiro, a única marca de auto­ria que o PÚBLICO deve rei­vin­di­car e assu­mir é a do tra­du­tor”.

Subs­crevo, no essen­cial, estas nor­mas e reco­men­da­ções. Em alguns casos, trata-se ape­nas de regras con­ven­ci­o­nais, que visam har­mo­ni­zar pro­ce­di­men­tos a bem da cla­reza e da iden­ti­dade do jor­nal. Outras são exi­gên­cias de ordem ética e deon­to­ló­gica, de leal­dade de pro­ces­sos, a que os redac­to­res de um jor­nal de refe­rên­cia não pode­rão furtar-se. Pode­rão cer­ta­mente ser aper­fei­ço­a­das, na cer­teza de que as melho­res prá­ti­cas na assi­na­tura de tex­tos jor­na­lís­ti­cos são as que melhor con­si­gam arti­cu­lar valo­res como o res­peito pela auto­ria, a trans­pa­rên­cia e o rigor.

Penso que se jus­ti­fi­cam, ainda assim, algu­mas obser­va­ções que pode­rão con­tri­buir para com­ple­tar este esforço de regulação:

— No caso de auto­ria par­ti­lhada entre uma agên­cia noti­ci­osa e um ele­mento da redac­ção do PÚBLICO (ver ponto 5), não deverá ser indi­fe­rente a ordem de subs­cri­ção da peça publi­cada. Se o peso da con­tri­bui­ção infor­ma­tiva da agên­cia for pre­pon­de­rante, deve­ria ser esta a ser refe­rida em pri­meiro lugar.

— A regra de nunca “apa­gar” uma assi­na­tura numa notí­cia em actu­a­li­za­ção (ver ponto 6) não deve per­mi­tir que possa ser atri­buída ao autor da pri­meira ver­são a res­pon­sa­bi­li­dade por acres­cen­tos ou alte­ra­ções que tenham sido fei­tos sem o seu conhecimento.

— A assi­na­tura gené­rica PÚBLICO, que é natu­ral­mente enten­dida como res­pon­sa­bi­li­zando o colec­tivo redac­to­rial ou a sua direc­ção, deve ser res­trin­gida (ver ponto 7) a casos não só excep­ci­o­nais como bem tipi­fi­ca­dos. O recurso ina­de­quado e ainda fre­quente a essa fór­mula — na data em que escrevo foi uti­li­zada, por exem­plo, na repro­du­ção ligei­ra­mente adap­tada da notí­cia ori­gi­nal de outro site infor­ma­tivo — repre­senta uma men­ção enga­nosa quando não existe um con­tri­buto jor­na­lís­tico autó­nomo que a justifique.

José Quei­rós

Uma resposta de Macário Correia

Em res­posta à cró­nica inti­tu­lada “Reco­nhe­cer os erros sem dei­xar de per­sis­tir na pro­cura da verdade”(publicada neste blo­gue e na edi­ção do PÚBLICO de 10 de Feve­reiro de 2013), em que me pro­nun­ciei sobre o teor de uma recla­ma­ção da sua auto­ria, o pre­si­dente da Câmara de Faro, Macá­rio Cor­reia, enviou-me a men­sa­gem que a seguir trans­crevo, dizendo pre­ten­der que “seja reposta a ver­dade em dois fac­tos con­cre­tos”. Sobre o mesmo assunto, e apa­ren­te­mente em refe­rên­cia à afir­ma­ção de Macá­rio Cor­reia (citada nessa cró­nica) sobre o licen­ci­a­mento do pro­jecto turís­tico Pal­mei­ras Resort (“Não sei se che­gou a ser emi­tido o alvará”, PÚBLICO, edi­ção de 6 de Janeiro de 2013), recebi uma outra men­sa­gem que abaixo repro­duzo, assi­nada por Vera Thel­lier, advo­gada em Tavira.

 

Escla­re­ci­mento do pre­si­dente da Câmara de Faro

1- Se me dirigi a si e à senhora dire­tora, seis meses depois da notí­cia errada, não foi por má inten­ção da minha parte. Na ver­dade, o jor­na­lista Idá­lio Revez disse-me qua­tro vezes, entre julho e dezem­bro, que o colega José Augusto Moreira me iria ligar e pedir des­culpa, além de cor­ri­gir a infor­ma­ção. Eu acre­di­tei nessa sin­ce­ri­dade suces­si­vas vezes, por isso só quando veri­fi­quei que não estava a ser res­pei­tado é que me dirigi a si. Quem durante meses não fez o que pro­me­teu não fui eu.

2- Na sua peça de modo claro é dito que eu não estava a ser ver­da­deiro no que disse em dezem­bro, quando referi que o caso não esta­ria a cor­rer em tri­bu­nal. Ou seja é dito que eu sabia, mas que disse que não sabia.
Lamento a gra­vi­dade desta ina­de­quada ofensa à minha cons­ci­ên­cia e ao meu carác­ter.
Como saberá, supo­nho eu, há mui­tos anos que não tenho qual­quer con­tacto com esse assunto, nem tenho que ter. Não fui infor­mado, nem noti­fi­cado de nada, nem tinha que ser. Por isso, disse o que sin­ce­ra­mente sabia de memó­ria de há anos. Des­co­nheço total­mente qual­quer evo­lu­ção pos­te­rior que o caso terá tido. Fui sin­cero e ver­da­deiro.
Sei que se trata de uma área total­mente urba­ni­zada e edi­fi­cada com um hotel e mora­dias há quase 50 anos, pelo que li com curi­o­si­dade que se trata de uma área pro­te­gida, em alu­são à Reserva Agrícola”.

10 de Feve­reiro de 2012
José Macá­rio Cor­reia
(Pre­si­dente da Câmara Muni­ci­pal de Faro)

 

Comen­tá­rio à men­sa­gem do pre­si­dente da Câmara de Faro

A men­sa­gem acima publi­cada não vem “repor a ver­dade” em rela­ção ao que escrevi.

Em rela­ção ao pri­meiro ponto, por­que não referi que a recla­ma­ção que Macá­rio Cor­reia me enviou em 31 de Dezem­bro pas­sado resul­tasse de “má inten­ção”. Limitei-me a estra­nhar a sua opor­tu­ni­dade, tanto tempo decor­rido após a notí­cia em ques­tão e por se refe­rir, não ao tópico cen­tral e ver­da­deiro dessa notí­cia (a deci­são judi­cial divul­gada em Julho pas­sado, san­ci­o­nando o autarca com a perda do man­dato, por vio­la­ção de nor­mas de orde­na­mento e urba­nismo), mas à causa desse pro­cesso — aspecto em rela­ção ao qual, con­forme escrevi, o PÚBLICO come­teu um erro infor­ma­tivo, que na minha opi­nião deve­ria ter cor­ri­gido de ime­di­ato e de forma clara, o que não fez, embora tenha expli­cado cor­rec­ta­mente nos dias seguin­tes qual era essa causa.

Em rela­ção ao segundo ponto (o caso Pal­mei­ras Resort, que corre ainda nos tri­bu­nais e resulta de uma queixa apre­sen­tada con­tra outras deci­sões ale­ga­da­mente ile­gais toma­das pela Câmara de Tavira ao tempo em que esta era pre­si­dida por Macá­rio Cor­reia), por­que não afir­mei, nem podia afir­mar, que era do seu conhe­ci­mento, em final de Dezem­bro pas­sado, o que diz que des­co­nhe­cia sobre a evo­lu­ção judi­cial desse pro­cesso. Fiz, é certo, um juízo de vero­si­mi­lhança: pareceu-me pouco crí­vel — e con­ti­nua a parecer-me estra­nho — que ao ainda pre­si­dente da Câmara de Faro não tivesse che­gado essa infor­ma­ção. Mas registo, natu­ral­mente a sua decla­ra­ção de que tal não sucedeu.

Afir­mei, por outro lado, não ser ver­da­deira a afir­ma­ção atri­buída pelo PÚBLICO a Macá­rio Cor­reia, e que o pró­prio não des­mente ter pro­fe­rido, de que os tri­bu­nais tinham con­cluído pela lega­li­dade do licen­ci­a­mento do empre­en­di­mento turís­tico em causa. E não o é de facto, inde­pen­den­te­mente do grau de conhe­ci­mento que o autarca afirma ter sobre a evo­lu­ção do pro­cesso. O Tri­bu­nal Admi­nis­tra­tivo Cen­tral (Sul) orde­nou no iní­cio de Dezem­bro pas­sado a repe­ti­ção do jul­ga­mento do caso na pri­meira ins­tân­cia, num acór­dão em que cri­tica seve­ra­mente uma pri­meira sen­tença pro­fe­rida pelo Tri­bu­nal Admi­nis­tra­tivo de Loulé.

Final­mente, não fiz no meu texto qual­quer refe­rên­cia espe­cí­fica à Reserva Agrí­cola no caso do Pal­mei­ras Resort, mas a refe­rên­cia à vio­la­ção das regras que a pro­te­gem — e ainda do Plano Direc­tor Muni­ci­pal e das nor­mas pro­tec­to­ras do Par­que Natu­ral da Ria For­mosa — consta de facto de uma notí­cia do PÚBLICO do pas­sado dia 26 de Janeiro, bem como da queixa da asso­ci­a­ção ambi­en­ta­lista Quer­cus con­tra o muni­cí­pio de Tavira que irá vol­tar a ser jul­gada em Loulé.

14 de Feve­reiro de 2013
José Quei­rós

 

Men­sa­gem da advo­gada Vera Thellier

(…) Macá­rio Cor­reia sabe muito bem que o lote­a­mento foi apro­vado, pois tal acon­te­ceu antes de ir para a Câmara de Faro. Não dei­xou Tavira sem que este assunto ficasse arru­mado. Fui eu, de meu punho e assi­na­tura, que denun­ciei, à então IGAL, as ile­ga­li­da­des pra­ti­ca­das neste caso (todas elas supor­ta­das por docu­men­tos). Bem como e tam­bém à PGR”.

10 de Feve­reiro de 2013
Vera Thel­lier (advo­gada em Tavira)

 

Reconhecer os erros sem deixar de persistir na procura da verdade

(Cró­nica da edi­ção de 10 de Feve­reiro de 2013)

 

Foi já a 4 de Julho do ano pas­sado que o PÚBLICO noti­ciou que o Supremo Tri­bu­nal Admi­nis­tra­tivo (STA) deter­mi­nara a perda de man­dato do pre­si­dente da Câmara de Faro, José Macá­rio Cor­reia, por actos ilí­ci­tos pra­ti­ca­dos alguns anos antes, quando pre­si­dia à autar­quia de Tavira. Os lei­to­res recordar-se-ão de que mais recen­te­mente (a 16 de Janeiro) foi noti­ci­ado que a con­de­na­ção do autarca se tor­nara defi­ni­tiva, dado que o Tri­bu­nal Cons­ti­tu­ci­o­nal (TC) se recu­sou a apre­ciar o recurso que apre­sen­tara con­tra a sen­tença do STA.

Pouco mais de duas sema­nas antes da divul­ga­ção desta última notí­cia, con­cre­ta­mente no último dia de 2012, recebi uma men­sa­gem de Macá­rio Cor­reia, em que o ainda pre­si­dente da Câmara de Faro me dava conhe­ci­mento de uma expo­si­ção envi­ada na vés­pera à direc­tora do jor­nal, acu­sando o PÚBLICO de se ter afas­tado “gra­ve­mente” da “linha de rigor pro­fis­si­o­nal de outros órgãos” na peça que publi­cara no iní­cio de Julho, que seria “total­mente infundada”.

Queixando-se de que essa notí­cia não fora até então “des­men­tida”, nem lhe fora dada qual­quer expli­ca­ção, Macá­rio Cor­reia infor­mava Bár­bara Reis de que dei­xa­ria de pres­tar “qual­quer infor­ma­ção” a este jor­nal e iria tor­nar público “o atro­pelo à ver­dade e ao rigor e ética pro­fis­si­o­nais” de que afir­mava ter sido vítima, “salvo se hou­ver uma digna e res­pon­sá­vel ati­tude da Direc­ção do jornal”.

Sem dei­xar de estra­nhar que esta recla­ma­ção me che­gasse cerca de meio ano após a publi­ca­ção da notí­cia em causa, pro­cu­rei apu­rar o que se pas­sara. Depa­rei com um longo enredo jurí­dico, polí­tico e jor­na­lís­tico, que se estende — e avanço já as con­clu­sões a que che­guei — entre um ponto de par­tida mar­cado por um lapso infor­ma­tivo do PÚBLICO, que não foi devi­da­mente cor­ri­gido em tempo útil, e um ponto de che­gada que obriga a ques­ti­o­nar o com­por­ta­mento do autarca algar­vio no plano da boa-fé em rela­ção à imprensa e à opi­nião pública e da trans­pa­rên­cia de pro­ce­di­men­tos devida a elei­to­res e munícipes.

Recu­ando à peça de 4 de Julho, assi­nada pelo jor­na­lista José Augusto Moreira, pude veri­fi­car que não se tra­tava, de modo algum, de uma notí­cia “total­mente infun­dada”. Em acór­dão datado de 20 de Junho, o STA tinha de facto orde­nado a perda de man­dato de Macá­rio Cor­reia, por con­du­tas “vio­la­do­ras dos ins­tru­men­tos de ges­tão ter­ri­to­rial e orde­na­mento urba­nís­tico” ao tempo em que pre­si­dia à Câmara de Tavira. A notí­cia não só era ver­da­deira nesse ponto essen­cial, como se mos­trava espe­ci­al­mente rele­vante, tendo em conta que a acu­sa­ção do Minis­té­rio Público aco­lhida pelo tri­bu­nal abran­gia diver­sas vio­la­ções das nor­mas pro­tec­to­ras da Reserva Eco­ló­gica Naci­o­nal, em cuja defesa se dis­tin­guira pre­ci­sa­mente Macá­rio Cor­reia, enquanto secre­tá­rio de Estado do Ambi­ente do então primeiro-ministro Cavaco Silva.

Redi­gida em cima da hora de fecho do jor­nal, a notí­cia con­ti­nha no entanto um erro fac­tual impor­tante. Ligava a sen­tença do STA a irre­gu­la­ri­da­des rela­ci­o­na­das com o licen­ci­a­mento do empre­en­di­mento “Pal­mei­ras Resort”, des­ti­nado a aco­lher 800 viven­das, que tinha sido objecto de uma queixa apre­sen­tada pela asso­ci­a­ção ambi­en­ta­lista Quer­cus. O caso dera ori­gem a notí­cias ante­ri­o­res, em que se refe­ria nome­a­da­mente a absol­vi­ção da autar­quia no tri­bu­nal de pri­meira ins­tân­cia, mas não estava ainda encer­rado no plano judicial.

Na ver­dade, como resul­tava da lei­tura de notí­cias mais desen­vol­vi­das publi­ca­das nos dias seguin­tes, não fora esse o pro­cesso que dera ori­gem à deci­são do STA. As ile­ga­li­da­des que o tri­bu­nal supe­rior enten­deu deve­rem con­du­zir à perda de man­dato diziam res­peito ao licen­ci­a­mento de diver­sas obras dis­per­sas pelo con­ce­lho de Tavira, que Macá­rio Cor­reia terá apro­vado, entre 2005 e 2007, con­tra o pare­cer dos ser­vi­ços téc­ni­cos do muni­cí­pio e em vio­la­ção dos pla­nos de orde­na­mento em vigor.

Em suces­si­vas peças pos­te­ri­o­res, ao longo do mês de Julho, o PÚBLICO refe­riu sem­pre cor­rec­ta­mente os fac­tos que esti­ve­ram na ori­gem da con­de­na­ção do autarca, não repe­tindo o erro da notí­cia ini­cial, que o jor­na­lista atri­bui à cir­cuns­tân­cia de o caso “Pal­mei­ras Resort” ser até então o único conhe­cido como tendo dado ori­gem a uma inter­ven­ção judi­cial con­tra Macá­rio Cor­reia, e ao facto de, na vés­pera da publi­ca­ção, o autarca se ter escu­sado a “escla­re­cer os fac­tos que esti­ve­ram na ori­gem do processo”.

Embora não tenha sido repe­tida, a refe­rên­cia ini­cial ao caso “Pal­mei­ras Resort” repre­sen­tou um erro infor­ma­tivo que deve­ria ter sido ime­di­ata e expli­ci­ta­mente cor­ri­gido, por res­peito aos lei­to­res, o que não suce­deu. “Deve­ría­mos ter feito um ‘Público Errou’ na altura”, reco­nhece a direc­tora do jor­nal, enquanto o autor da notí­cia explica que o PÚBLICO deu pri­o­ri­dade nos dias seguin­tes a ten­tar ouvir o autarca sobre o lití­gio em torno do licen­ci­a­mento do “Pal­mei­ras Resort”, mas depa­rou sem­pre com a sua recusa em pres­tar escla­re­ci­men­tos. Depois, o assunto “saiu da agenda” e Macá­rio Cor­reia, que diz ter soli­ci­tado expli­ca­ções, que não rece­beu, atra­vés do jor­na­lista do PÚBLICO que habi­tu­al­mente o con­tacta no Algarve, Idá­lio Revez, reto­mou com este um “rela­ci­o­na­mento normal”.

O que não saiu da “agenda” foi o pro­blema polí­tico resul­tante da deci­são de perda de man­dato, com Macá­rio Cor­reia a manter-se no cargo enquanto aguar­dava uma deci­são sobre o recurso que inter­pu­sera junto do TC, ale­gando que sobre os actos con­cre­tos de licen­ci­a­mento con­si­de­ra­dos ilí­ci­tos pelo STA decor­riam ainda pro­ces­sos judi­ci­ais por con­cluir. A pres­são do calen­dá­rio polí­tico, com o PSD — que vê aproximar-se o período de anún­cio das can­di­da­tu­ras autár­qui­cas — a fazer depen­der a con­fir­ma­ção do seu apoio ini­cial a uma recan­di­da­tura do pre­si­dente da Câmara de Faro de uma deci­são “atem­pada” do TC, e este a recusar-se a avan­çar uma data con­creta para anun­ciar um vere­dicto (notí­cia de Idá­lio Revez no PÚBLICO de 6 de Janeiro), terá feito cres­cer o ner­vo­sismo nos meios polí­ti­cos locais.

Foi neste con­texto que Macá­rio Cor­reia deci­diu recu­pe­rar, no final do ano, a antiga ale­ga­ção de “fal­si­dade” da notí­cia de Julho, o que levou o seu autor a prestar-lhe, então, as expli­ca­ções soli­ci­ta­das. Em con­sequên­cia, foi des­men­tida pela pri­meira vez de forma clara nas pági­nas do jor­nal a infor­ma­ção errada que em 4 de Julho atri­buíra essa deci­são judi­cial ao caso “Pal­mei­ras Resort” (notí­cia de José Augusto Moreira na edi­ção de 6 de Janeiro). Pode­ria dar-se o caso por encer­rado, se o jor­na­lista não tivesse enten­dido, e bem, obter infor­ma­ção actu­a­li­zada sobre o tema “Pal­mei­ras Resort”. A isto res­pon­deu Macá­rio Cor­reia, con­forme foi publi­cado, que os tri­bu­nais tinham con­cluído pela lega­li­dade do licen­ci­a­mento desse empre­en­di­mento turístico.

Sucede que, à data des­tas decla­ra­ções, a ver­dade era outra, con­forme o PÚBLICO noti­ciou no pas­sado dia 26. Após uma deci­são judi­cial de facto favo­rá­vel ao autarca, tomada em Feve­reiro pelo Tri­bu­nal Admi­nis­tra­tivo de Loulé, e tendo os ambi­en­ta­lis­tas recor­rido da sen­tença, o Tri­bu­nal Cen­tral Admi­nis­tra­tivo Sul (TAC) obri­gou à rea­ber­tura do pro­cesso na pri­meira ins­tân­cia, num acór­dão em que é cri­ti­cada em ter­mos inu­si­ta­da­mente seve­ros a deci­são da juíza de Loulé e decla­rada a “nuli­dade abso­luta e total” da sen­tença que pro­fe­riu. Este acór­dão é datado de 6 de Dezem­bro pas­sado, não pare­cendo crí­vel que o pre­si­dente da Câmara de Faro o pudesse des­co­nhe­cer quando afir­mou ao PÚBLICO ser esse um assunto já “arqui­vado” pela justiça.

Entre­tanto, e como o PÚBLICO rela­tou com des­ta­que a 16 de Janeiro pas­sado, Macá­rio Cor­reia viu con­fir­mada, atra­vés da posi­ção tomada pelo TC, a perda do man­dato em Faro. Tem agora à sua frente dias difí­ceis no plano jurí­dico — pro­cu­rando adiar atra­vés dos últi­mos expe­di­en­tes legais dis­po­ní­veis o cum­pri­mento da deli­be­ra­ção que o obriga a aban­do­nar a autar­quia — e no plano polí­tico, se ainda tiver razões para acre­di­tar numa indi­gi­ta­ção do PSD para a sua recandidatura.

Quanto ao pro­cesso, afi­nal rea­berto, do mega-empreendimento em Tavira, que sur­pre­en­den­te­mente deci­diu recor­dar — ao insis­tir, seis meses depois, num des­men­tido do PÚBLICO sobre fac­tos acerca dos quais o jor­nal infor­mou cor­rec­ta­mente os lei­to­res, tendo no entanto errado ao associá-los, na notí­cia de 4 de Julho, às cau­sas da sua con­de­na­ção judi­cial —, difi­cil­mente o inte­resse público dei­xará de ser lesado, seja pela cons­tru­ção de cen­te­nas de viven­das em espaço pro­te­gido, seja por indem­ni­za­ções ou con­tra­par­ti­das a que a autar­quia se veja obri­gada perante os promotores.

Tendo come­tido, por falta de veri­fi­ca­ção em tempo útil, um erro infor­ma­tivo que só tar­di­a­mente reco­nhe­ceu de forma clara, o PÚBLICO evi­tou no entanto, com as notí­cias publi­ca­das nas últi­mas sema­nas, o erro maior de se dei­xar ins­tru­men­ta­li­zar por mano­bras polí­ti­cas num tema de evi­dente inte­resse público. Embora Macá­rio Cor­reia diga agora não saber “se che­gou a ser emi­tido o alvará” para o “Pal­mei­ras Resort”, o que se passa, segundo o jor­na­lista que acom­pa­nhou o caso, é que os pro­mo­to­res “tive­ram o cui­dado de não o dei­xar cadu­car” e estão “na posse de um licen­ci­a­mento que lhes per­mite cons­truir as tais 800 viven­das” numa área espe­ci­al­mente sen­sí­vel do ponto de vista ambi­en­tal. O que só vem refor­çar a impor­tân­cia de uma inves­ti­ga­ção jor­na­lís­tica apro­fun­dada acerca do con­tro­verso empreendimento.

José Quei­rós

 

 

Números: o que dizem e o que escondem

(Cró­nica da edi­ção de 3 de Feve­reiro de 2013)

 

O tra­ta­mento edi­to­rial de dados esta­tís­ti­cos e o ângulo a pri­vi­le­giar na divul­ga­ção de núme­ros que retra­tam uma rea­li­dade mul­ti­fa­ce­tada é um dos ter­re­nos em que o jor­na­lismo de qua­li­dade deve dei­xar a sua marca. O caso de que hoje me ocupo — a man­chete da edi­ção do pas­sado dia 21 de Janeiro, que vários lei­to­res cri­ti­ca­ram, por enten­de­rem que dava “um retrato dis­tor­cido da rea­li­dade” no que se refere à cri­a­ção e encer­ra­mento de empre­sas no país — é pra­ti­ca­mente idên­tico ao que deu ori­gem a um texto aqui publi­cado em 28 de Outu­bro do ano pas­sado. O tema é o mesmo, e as crí­ti­cas são do mesmo teor. Ainda assim, julgo que valerá a pena par­ti­lhar algu­mas refle­xões sobre as recla­ma­ções que me che­ga­ram, já que se tra­tou, desta vez, do assunto esco­lhido para o título prin­ci­pal da pri­meira página.

O que nesse título se escre­veu foi o seguinte: 28 mil empre­sas fecham e cri­a­ção de novos negó­cios cai em 2012. Na peça noti­ci­osa para que esta frase reme­tia divulgavam-se núme­ros for­ne­ci­dos pelo Minis­té­rio da Jus­tiça sobre a cri­a­ção e a extin­ção de empre­sas ao longo do ano pas­sado e procedia-se à com­pa­ra­ção des­sas cifras com o que nesse domí­nio ocor­rera nos anos ante­ri­o­res. O objecto da notí­cia de Outu­bro pas­sado fora exac­ta­mente o mesmo, com a dife­rença de que então se tra­tava de noti­ciar os dados conhe­ci­dos rela­ti­va­mente ao período de Janeiro a Setem­bro de 2012. A com­pa­ra­ção com o título então esco­lhido (Já fecha­ram 14 mil empre­sas este ano…) aponta para o agra­va­mento do fenó­meno nos últi­mos meses.

Os pós-títulos da man­chete de 21 de Janeiro des­ta­ca­vam ainda três outros aspec­tos da rea­li­dade noti­ci­ada: Falên­cias reais aumen­ta­ram quase 10% face a 2011; O saldo ainda é favo­rá­vel à cri­a­ção de empre­sas, mas com pouco impacto no emprego; Há mais negó­cios a sur­gir na agri­cul­tura e menos nos ser­vi­ços. Todas estas afir­ma­ções se encon­tra­vam devi­da­mente sus­ten­ta­das na infor­ma­ção publi­cada no inte­rior do jor­nal, onde um grá­fico que ilus­trava a notí­cia per­mi­tia reter, entre outras, as seguin­tes con­clu­sões esta­tís­ti­cas: o número de empre­sas extin­tas des­cera de 33.758 em 2011 para 27. 683 em 2012; o número de novas empre­sas dimi­nuíra de 33.163 cri­a­das em 2011 para 29.311 no ano pas­sado; o saldo entre encer­ra­men­tos e aber­tu­ras de negó­cios mostrava-se posi­tivo (mais 1.628) em 2012, ao con­trá­rio do que suce­dera no ano anterior.

É prin­ci­pal­mente esse “saldo posi­tivo” que os lei­to­res que cri­ti­ca­ram a man­chete invo­cam para argu­men­tar que deve­ria ter sido esse o ângulo infor­ma­tivo pri­vi­le­gi­ado nos títu­los, e não o número de empre­sas fecha­das e a queda na cri­a­ção de novos negó­cios. “Acho inad­mis­sí­vel o título de pri­meira página, onde mais uma vez se des­mo­ra­liza o país (…), quando na pág. 16 o qua­dro mos­tra uma cri­a­ção líquida de 1628 [empre­sas]”, escre­veu o lei­tor Ricardo d’Azevedo, que já cri­ti­cara a mesma opção edi­to­rial em Outu­bro pas­sado. “Parece-me que o PÚBLICO não con­se­gue domi­nar essa ânsia de trans­mi­tir um retrato dis­tor­cido da rea­li­dade (…). Vol­tou a esquecer-se de noti­ciar, nas mes­mas gran­des paran­go­nas da pri­meira página, que foram entre­tanto cri­a­das 29.311 empre­sas”, comenta o lei­tor Fer­nando San­tos. Subli­nhando tam­bém o “saldo posi­tivo” entre nas­ci­mento e morte de pro­jec­tos empre­sa­ri­ais, o lei­tor Ricardo Alves diz ver no “cri­té­rio edi­to­rial” que atri­bui à direc­ção do PÚBLICO motivo para afir­mar que “não sur­pre­ende a esco­lha (…) do des­ta­que” da capa.

A autora da notí­cia, Raquel Almeida Cor­reia, apre­senta dife­ren­tes argu­men­tos em defesa do enfo­que esco­lhido. Des­taco o que me parece mais rele­vante: “Importa dizer que para a esco­lha deste ângulo tam­bém con­tri­buiu o facto de os cha­ma­dos fechos ‘reais’, que reflec­tem de uma forma mais autên­tica as difi­cul­da­des que o tecido empre­sa­rial por­tu­guês atra­vessa, terem aumen­tado 9,4% face a 2011″. Por fechos “reais” deve entender-se, con­forme explica a jor­na­lista, o número de falên­cias que ver­da­dei­ra­mente ocor­re­ram ao longo do ano, que se dis­tin­guem das “dis­so­lu­ções admi­nis­tra­ti­vas, efec­tu­a­das pelos ser­vi­ços quando as empre­sas estão inac­ti­vas mas ainda cons­tam nos ficheiros”.

De facto, como ficava claro pela lei­tura da peça — e era des­ta­cado no pós-título da man­chete —, das cerca de 28.000 empre­sas desa­pa­re­ci­das do cadas­tro eco­nó­mico no ano pas­sado, mais de 16.600 cor­res­pon­diam a extin­ções real­mente ocor­ri­das em 2012, o que repre­sen­tou uma subida de quase 10% em rela­ção ao ano ante­rior. Acon­tece ainda que, como tam­bém se expli­cava na notí­cia, a lim­peza de fichei­ros, ini­ci­ada em 2008 no âmbito do pro­grama Sim­plex, está já perto de se encon­trar con­cluída, levando a que o peso dos encer­ra­men­tos “admi­nis­tra­ti­vos” de empre­sas inac­ti­vas tenha já sido pro­por­ci­o­nal­mente muito menor (como se escre­veu, “caí­ram 40,4% no ano pas­sado”, em rela­ção a 2011).

Por isso, escreve Raquel Almeida Cor­reia, o que se trans­mi­tiu aos lei­to­res não foi um “retrato dis­tor­cido da rea­li­dade”, mas sim “um retrato do país, num momento em que mais empre­sas encer­ram do que em anos ante­ri­o­res (sem que seja por via admi­nis­tra­tiva), e em que a cri­a­ção de novos negó­cios, ape­sar de supe­rar os fechos, está a cair e a mostrar-se insu­fi­ci­ente para colo­car um tra­vão ao desem­prego”. Nesse sen­tido aponta outra con­clu­são extraída dos núme­ros ofi­ci­ais: “Verificou-se em 2012 uma queda de 11,6% na aber­tura de novos negó­cios, quando em 2011 houve uma subida de 24,9%”.

A lei­tura iso­lada de alguns núme­ros pode, como se vê, con­du­zir a con­clu­sões apa­ren­te­mente dis­cre­pan­tes, que ten­de­rão a ser valo­ri­za­das de acordo com a pers­pec­tiva (mais opti­mista ou mais pes­si­mista) de cada lei­tor sobre a evo­lu­ção eco­nó­mica do país. Neste caso, a con­si­de­ra­ção de todos os dados dis­po­ní­veis mos­tra que a opção de des­ta­car o apa­rente “saldo posi­tivo” resul­tante da apre­sen­ta­ção em bruto dos núme­ros ofi­ci­ais para retra­tar essa evo­lu­ção teria redun­dado, afi­nal, num erro informativo.

Na ver­dade, “os núme­ros sobre o fecho de empre­sas e a queda na cri­a­ção de novos negó­cios reflec­tem o abran­da­mento da eco­no­mia”, como cons­tata o direc­tor adjunto do PÚBLICO Miguel Gas­par, que escla­rece que “a direc­ção do jor­nal acom­pa­nha a argu­men­ta­ção da autora da notí­cia” e revela que “a esco­lha do título de capa e a selec­ção deste tema para man­chete foram acom­pa­nha­das por um debate interno”. Esse debate con­du­ziu à opção pela ideia pri­vi­le­gi­ada na capa (“o número de empre­sas que fecham e não o saldo entre empre­sas que fecham e empre­sas que abrem”), o que acon­te­ceu “pre­ci­sa­mente por se ter con­cluído” que esse outro ângulo “intro­du­zi­ria, ele sim, uma visão fala­ci­osa da realidade”.

Subli­nhando que “as notí­cias e as esco­lhas edi­to­ri­ais do PÚBLICO não têm por cri­té­rio ‘mora­li­zar’ ou ‘des­mo­ra­li­zar’ o país, Miguel Gas­par con­clui: “Neste caso, verifica-se que um con­junto de dados esta­tís­ti­cos foi tra­ba­lhado jor­na­lis­ti­ca­mente de forma cui­dada e com a con­tex­tu­a­li­za­ção ade­quada. Sem essa capa­ci­dade, o jor­nal teria ape­nas feito uma lei­tura super­fi­cial dos dados, aí sim dis­tor­cendo, mesmo que invo­lun­ta­ri­a­mente ou por omis­são, a rea­li­dade con­creta. O valor que é urgente real­çar é a capa­ci­dade de, atra­vés de jor­na­lis­tas espe­ci­a­li­za­das, con­se­guir ana­li­sar esta­tís­ti­cas para além do óbvio”.

Por mim, subs­crevo intei­ra­mente esta con­clu­são, o que me dis­pensa de repe­tir argu­men­tos que sobre este tema aqui ali­nhei há alguns meses. Na minha opi­nião, os lei­to­res acima cita­dos não têm razão quando suge­rem que a man­chete do pas­sado dia 21 seria ten­den­ci­osa. O PÚBLICO fez muito bem em não se limi­tar a trans­cre­ver buro­cra­ti­ca­mente os valo­res glo­bais das esta­tís­ti­cas ofi­ci­ais e em apro­fun­dar a lei­tura dos núme­ros divul­ga­dos, con­se­guindo assim trans­mi­tir mais fiel­mente a trans­for­ma­ção real­mente ocor­rida na pai­sa­gem empre­sa­rial. Não houve aqui envi­e­sa­mento infor­ma­tivo. Houve, pelo con­trá­rio, um exem­plo de bom jornalismo.

Ainda assim, a repe­ti­ção das crí­ti­cas de lei­to­res a um tra­ba­lho infor­ma­tivo que por sua vez repete no essen­cial o que sobre o mesmo tema se escre­vera três meses antes — as mes­mas opções de título, as mes­mas solu­ções info­grá­fi­cas, uma estru­tura infor­ma­tiva e grá­fica em tudo seme­lhante — sus­cita uma refle­xão sobre outras face­tas que con­tri­buem para a qua­li­dade jor­na­lís­tica, como a cla­reza e a diver­si­dade de abordagens.

Ter-se-ia ganho em cla­reza, por exem­plo, apre­sen­tando um grá­fico em que não se igno­rasse a dis­tin­ção entre o número de falên­cias reais e o que resulta da sim­ples lim­peza de fichei­ros, evi­tando assim que se repe­tis­sem as lei­tu­ras equí­vo­cas que o tra­ba­lho publi­cada em Outu­bro já pro­vo­cara. Por outro lado, o sig­ni­fi­cado dos núme­ros divul­ga­dos tornar-se-ia mais nítido se tivesse sido dada maior visi­bi­li­dade nos títu­los ao dado mais reve­la­dor da situ­a­ção des­crita: o cres­ci­mento real do número de falên­cias. Final­mente, a sem­pre dese­já­vel diver­si­dade de abor­da­gens infor­ma­ti­vas deve­ria ter acon­se­lhado o apro­fun­da­mento de algu­mas pis­tas pro­por­ci­o­na­das pelos núme­ros ofi­ci­ais, como por exem­plo a que aponta para o fenó­meno, con­tra a cor­rente, do notó­rio cres­ci­mento da cri­a­ção de empre­sas no sec­tor agrícola.

José Quei­rós

 

 

 

Docu­men­ta­ção complementar

 

Men­sa­gem do lei­tor Ricardo d’Azevedo

Acho inad­mis­sí­vel o título de 1ª página do Público de hoje, onde, mais uma vez, se des­mo­ra­liza o país: “28 mil empre­sas fecham e cri­a­ção de novos negó­cios cai em 2012″, quando na pág. 16 o qua­dro mos­tra uma cri­a­ção líquida de 1628 [empre­sas]. Claro que, no qua­dro, o que cresce foi colo­cado a ama­relo cla­ri­nho para se não notar e o que decresce é ver­me­lho.
No ultimo pará­grafo do artigo, refere se que a Madeira é a única área do país em que o saldo foi nega­tivo. (…) Estou, mais uma vez, abis­mado com o Público… pois começa a ser recor­rente.
21 de Janeiro de 2013
Ricardo Char­ters d’Azevedo
S. Pedro do Estoril

 

Men­sa­gem do lei­tor Fer­nando Santos

Há uns meses atrás o senhor dava razão a dois lei­to­res, que tinham cha­mado a sua aten­ção para o facto de o Público ter dis­tor­cido a rea­li­dade dos factos, quando se limi­tou, em gran­des paran­go­nas da pri­meira página, a indi­car o número de empre­sas que tinham aberto falên­cia até ao final do ter­ceiro tri­mes­tre de 2012. Efec­ti­va­mente e tal como reco­nhe­ceu, os lei­to­res do Público foram assim indu­zi­dos em erro por­que, na pri­meira página, não figu­rava a indi­ca­ção de que tinha sido entre­tanto cri­ado um número muito supe­rior de empre­sas.  [ver Nota]. Parece-me que o Público não con­se­gue domi­nar essa ânsia de trans­mi­tir um retrato dis­tor­cido da rea­li­dade, por­que vol­tou a come­ter exac­ta­mente o mesmo erro e exac­ta­mente em rela­ção ao mesmo assunto.
No número de 21 do cor­rente volta à carga, com as mes­mas parangonas,afirmando, na pri­meira página, que, em 2012 “28 mil empre­sas fecham …”.
Mas constata-se, nova­mente, pelo artigo da página 16, que :
Pri­meiro - não são 28 mil. São menos de 28 mil. São somente 27.683.
Segundo - o Público vol­tou a esquecer-se de noticiar, nas mes­mas gran­des paran­go­nas da pri­meira página, que foram entre­tanto cri­a­das 29.311 empre­sas, ou seja, mais 1.628 do que as extin­tas (…).
22 de Janeiro de 2013
Fer­nando Pinto dos Santos

NotaTrata-se de um lapso do lei­tor. No texto em ques­tão, publi­cado 28 de Outu­bro de 2012, não dei razão às crí­ti­cas que acu­sa­vam o PÚBLICO de ter “dis­tor­cido a rea­li­dade”. Pelo con­trá­rio.
J.Q.

 

Men­sa­gem do lei­tor Ricardo Alves

Na página 16 do Público [de 21.01] é desen­vol­vida uma notí­cia basi­ca­mente com base na infor­ma­ção de um grá­fico (bas­tam 30 segun­dos para ver com aten­ção). Quem ana­li­sar esse grá­fico pode reti­rar a seguinte infor­ma­ção:
Posi­tivo — saldo entre empre­sas cri­a­das e extin­tas volta a ficar posi­tivo em 2012
Posi­tivo — extin­ção de empre­sas caiu 18% (6000 empre­sas) em 2012;
Nega­tivo — cri­a­ção de novas empre­sas caiu 12% (3.850 empre­sas) em 2012;
Posi­tivo — 29.311 empre­sas cri­a­das em 2012;
Nega­tivo — 27.683 empre­sas fecham em 2012.
Conhe­cendo o cri­té­rio edi­to­rial que a pre­sente dire­ção do Público tem dado ao jor­nal, não sur­pre­ende a esco­lha da notí­cia de des­ta­que da pri­meira página…
22 de Janeiro de 2013
Ricardo Pinheiro Alves

 

Depoi­mento da jor­na­lista Raquel Almeida Correia

Como tive opor­tu­ni­dade de refe­rir ante­ri­or­mente, o PÚBLICO tem vindo a acom­pa­nhar desde 2010 a evo­lu­ção da cons­ti­tui­ção e dis­so­lu­ção de empre­sas em Por­tu­gal, com base nos dados cedi­dos pelo Minis­té­rio da Jus­tiça. Da aná­lise des­ses dados têm resul­tado tex­tos com dife­ren­tes ângu­los. Se na notí­cia de 21 de Janeiro de 2013, com o título “Quase 28 mil empre­sas fecha­ram em 2012 e a cri­a­ção de negó­cios caiu 11,6%”, des­ta­cá­mos a subida no número de encer­ra­men­tos e a que­bra na cri­a­ção de novos negó­cios, outros momen­tos houve em que optá­mos por ângu­los dife­ren­tes, como (…) na notí­cia “Encer­ra­mento de empre­sas cai para míni­mos dos últi­mos qua­tro anos”, publi­cada a 16 de Abril de 2012. A esco­lha des­tes ângu­los reflecte tam­bém o acom­pa­nha­mento que temos vindo a fazer dos dados cedi­dos pelo Minis­té­rio da Jus­tiça e a con­tex­tu­a­li­za­ção que esse acom­pa­nha­mento nos per­mite.
No que diz res­peito à notí­cia publi­cada a 21 de Janeiro, os dados per­mi­tem con­cluir que houve, de facto, mais empre­sas cri­a­das do que dis­sol­vi­das em 2012. Mas esco­lher este ângulo seria fazer uma aná­lise sim­plista, por­que, além de ser uma ten­dên­cia que se repete de ano para ano, verificou-se em 2012 uma queda de 11,6% na aber­tura de novos negó­cios, quando em 2011 houve uma subida de 24,9. Além disso, e tal como refere o texto, o cru­za­mento da cons­ti­tui­ção de soci­e­da­des com a taxa de desem­prego permite-nos con­cluir que esta “subs­ti­tui­ção” de empre­sas não está a com­pen­sar total­mente os pos­tos de tra­ba­lho per­di­dos com a subida no número de encer­ra­men­tos. Quanto à dis­so­lu­ção de soci­e­da­des, importa dizer que para a esco­lha deste ângulo tam­bém con­tri­buiu o facto de os cha­ma­dos fechos “reais”, que reflec­tem de uma forma mais autên­tica as difi­cul­da­des que o tecido empre­sa­rial por­tu­guês atra­vessa, terem aumen­tado 9,4% face a 2011. É que, ape­sar de o número glo­bal de encer­ra­men­tos ter sido infe­rior em 2012, isso deveu-se ape­nas ao facto de ter havido menos dis­so­lu­ções admi­nis­tra­ti­vas, efec­tu­a­das pelos ser­vi­ços quando as empre­sas estão inac­ti­vas mas ainda cons­tam nos fichei­ros. No que diz res­peito ao saldo líquido entre cons­ti­tui­ção e dis­so­lu­ção de empre­sas, refere-se logo na entrada da notí­cia que este “vol­tou a ter­reno posi­tivo”, tal como acon­tece tam­bém no lead e na segunda linha da infro­gra­fia, por baixo do título.
Não con­cordo que o ângulo esco­lhido sirva para “des­mo­ra­li­zar o país” ou “trans­mi­tir um retrato dis­tor­cido da rea­li­dade”. É, sim, um retrato do país, num momento em que mais empre­sas encer­ram do que em anos ante­ri­o­res (sem que seja por via admi­nis­tra­tiva), e em que a cri­a­ção de novos negó­cios, ape­sar de supe­rar os fechos, está a cair e a mostrar-se insu­fi­ci­ente para colo­car um tra­vão ao desem­prego. Tal como acon­tece desde 2010, con­ti­nu­a­re­mos a acom­pa­nhar todas as evo­lu­ções que se fize­rem sen­tir a este nível. A aná­lise des­tes dados é sem­pre feita em refle­xão com os edi­to­res, dada a deli­ca­deza da maté­ria e o facto de reco­nhe­cer­mos que encon­trar o ângulo mais cor­recto cons­ti­tui uma tarefa difí­cil.
29 de Janeiro de 2013
Raquel Almeida Correia

 

Depoi­mento do direc­tor adjunto do PÚBLICO Miguel Gaspar

A esco­lha do título de capa e a selec­ção deste tema para man­chete foram acom­pa­nha­das por um debate interno que visou pre­ci­sa­mente as razões para esco­lher­mos este ângulo – o número de empre­sas que fecham e não o saldo entre empre­sas que fecham e empre­sas que abrem – pre­ci­sa­mente por se ter con­cluído que este último ângulo intro­du­zi­ria ele sim uma visão fala­ci­osa da rea­li­dade. A direc­ção do jor­nal acom­pa­nha a argu­men­ta­ção da autora da notí­cia, no sen­tido de con­si­de­rar que os núme­ros sobre o fecho de empre­sas e a queda na cri­a­ção de novos negó­cios reflec­tem o abran­da­mento da eco­no­mia e da cri­a­ção de emprego. As notí­cias e as esco­lhas edi­to­ri­ais do PÚBLICO não têm por cri­té­rio “mora­li­zar” ou “des­mo­ra­li­zar” o país. Neste caso, verifica-se que um con­junto de dados esta­tís­ti­cos foi tra­ba­lhado jor­na­lis­ti­ca­mente de forma cui­dada e com a con­tex­tu­a­li­za­ção ade­quada. Sem essa capa­ci­dade, o jor­nal teria ape­nas feito uma lei­tura super­fi­cial dos dados, aí sim dis­tor­cendo, mesmo que invo­lun­ta­ri­a­mente ou nem que fosse por omis­são, a rea­li­dade con­creta. O valor que é urgente real­çar é a capa­ci­dade de, atra­vés de jor­na­lis­tas espe­ci­a­li­za­das, con­se­guir ana­li­sar esta­tís­ti­cas para além do óbvio.
30 de Janeiro de 2013
Miguel Gaspar

Ainda a “regra do Palácio Foz” e o direito dos leitores à informação

(Cró­nica da edi­ção de 27 de Janeiro de 2013)

 

Já muito se escre­veu sobre o desas­tre mediá­tico em que se trans­for­mou a con­fe­rên­cia patro­ci­nada pelo Governo para ale­ga­da­mente ouvir a soci­e­dade civil sobre a “reforma do Estado”, acon­te­ci­mento que aca­bou por ser mar­cante, não pelas con­tri­bui­ções que possa ter tra­zido a esse debate, mas pelos entra­ves que os seus orga­ni­za­do­res qui­se­ram colo­car à liber­dade de informação.

Como referi na minha cró­nica ante­rior, a imprensa viu-se con­fron­tada nessa con­fe­rên­cia — que decor­reu no Palá­cio Foz, em Lis­boa, nos pas­sa­dos dias 15 e 16 — com a ten­ta­tiva de impo­si­ção de uma regra insó­lita, segundo a qual os jor­na­lis­tas pode­riam assis­tir aos deba­tes (supos­ta­mente para deles darem conhe­ci­mento aos seus lei­to­res), desde que não citas­sem nenhum dos inter­ve­ni­en­tes sem a sua “expressa auto­ri­za­ção”. Em con­sequên­cia, este jor­nal optou por não acom­pa­nhar e não noti­ciar as ses­sões de debate, em pro­testo con­tra o que clas­si­fi­cou em edi­to­rial como um caso de “cen­sura pré­via”. Na prá­tica, tratou-se de um boi­cote infor­ma­tivo, que no entanto não foi (e isso deve ser cri­ti­cado) nem for­mal­mente assu­mido como tal, nem devi­da­mente expli­cado aos leitores.

Regresso hoje ao tema por­que con­ti­nu­a­ram a manifestar-se pon­tos de vista dife­ren­tes sobre esse epi­só­dio. Sus­ten­tei aqui, há uma semana, que o mais que jus­ti­fi­cado pro­testo do PÚBLICO con­tra a ati­tude dos orga­ni­za­do­res da con­fe­rên­cia não era incom­pa­tí­vel com o dever de infor­mar os lei­to­res sobre o con­teúdo dos deba­tes. Posi­ção con­trá­ria defen­deu, entre­tanto, em men­sa­gem que me diri­giu em nome pes­soal, o direc­tor adjunto do jor­nal Manuel Car­va­lho. Parece-me útil alar­gar aos lei­to­res a troca de argu­men­tos que se seguiu, sus­ci­tando even­tu­al­mente outros con­tri­bu­tos para uma dis­cus­são que não incide sobre prin­cí­pios rígi­dos, mas sobre esco­lhas edi­to­ri­ais que, sendo sem­pre dis­cu­tí­veis, con­tri­buem para dese­nhar a ima­gem de um jornal.

Em causa estão, essen­ci­al­mente, dife­ren­ças de opi­nião sobre dois pon­tos, cujo debate poderá con­tri­buir para cla­ri­fi­car ori­en­ta­ções futu­ras. Deve a “regra do Palá­cio Foz” ser enten­dida como uma mani­fes­ta­ção de “cen­sura à imprensa”? Deve a reac­ção a esse con­di­ci­o­na­mento do tra­ba­lho jor­na­lís­tico ser o boi­cote informativo?

Sobre o pri­meiro ponto, Manuel Car­va­lho explica por que man­tém a expres­são “cen­sura pré­via” para clas­si­fi­car este caso: “Num evento que é anun­ci­ado como o ponto de par­tida de um debate de solene inte­resse naci­o­nal, há na exi­gên­cia de que haja res­tri­ções à vei­cu­la­ção das opi­niões aí mani­fes­ta­das um esforço de garan­tir que par­tes ou o todo de algu­mas inter­ven­ções pudes­sem ser man­ti­das sob reserva, deci­são que ficava sob a alçada dos inter­ve­ni­en­tes. Eram eles, em última ins­tân­cia, e não os jor­na­lis­tas, quem tinha o poder de dizer o que devia ou não devia ser tor­nado público. Eram eles quem tinha o poder de cen­su­rar pre­vi­a­mente o que podia, ou não podia, ser tra­tado jor­na­lis­ti­ca­mente, atra­vés da impo­si­ção de um meca­nismo que, na prá­tica, tinha o poder de selec­ci­o­nar toda a infor­ma­ção ali produzida”.

Assim, na sua pers­pec­tiva, “ao exi­gir a auto­ri­za­ção ex ante do uso de qual­quer cita­ção, a orga­ni­za­ção do evento estava a pro­mo­ver a prá­tica de cen­sura”. Ora, con­clui, “encaro sem­pre estas ten­ta­ti­vas de cer­ce­a­mento de direi­tos fun­da­men­tais com o aviso de Bre­cht pre­sente: pri­meiro é a auto­ri­za­ção pré­via, depois a proi­bi­ção de noti­ciar alguns assun­tos, depois…”.

Eu admito que uma ten­ta­tiva canhes­tra, como foi esta, de con­di­ci­o­nar a liber­dade de infor­ma­ção pode suge­rir que os seus auto­res con­vi­ve­riam bem com um regime de cen­sura ou “exame pré­vio”. Porém, o con­ceito de cen­sura à imprensa tem um sig­ni­fi­cado his­tó­rico pre­ciso, que não deve ser bana­li­zado: implica a acti­vi­dade de cen­so­res que cor­tam ou alte­ram peças jor­na­lís­ti­cas para impe­dir a livre publi­ca­ção do que se escre­veu, ou que proí­bem a abor­da­gem de cer­tos temas ou a men­ção de deter­mi­na­dos fac­tos. Como não era nem podia ser esse o caso, parece-me mais ade­quado invo­car aqui, não a adap­ta­ção do sem­pre ins­pi­ra­dor aviso de Bre­cht, mas a fábula do rapaz e do lobo: de tanta vez agi­tar­mos o fan­tasma da cen­sura, cor­re­mos o risco de não a reco­nhe­cer quando pre­ci­sar­mos de o fazer.

Na ver­dade, a orga­ni­za­ção da con­fe­rên­cia não tinha “o poder de selec­ci­o­nar toda a infor­ma­ção ali pro­du­zida”, numa reu­nião que ela pró­pria quis aberta à pre­sença da imprensa, e menos ainda de con­tro­lar a infor­ma­ção pro­du­zida. Tanto não tinha que não teve: outros meios de comu­ni­ca­ção rela­ta­ram os deba­tes. Ainda que o qui­sesse, não estava ao seu alcance impor o silen­ci­a­mento do que ali fosse dito e de por quem fosse dito. Essa é a dife­rença, e é enorme, para com um regime de cen­sura. Valerá a pena recor­dar que, mesmo sob um tal regime (o “exame pré­vio” da dita­dura), o melhor jor­na­lismo não res­pon­dia com boi­co­tes. Sabia que a sua mis­são era infor­mar os lei­to­res e esforçava-se por fazê-lo, ten­tando, é certo que geral­mente sem êxito, fin­tar os censores.

Neste caso o PÚBLICO optou pelo que clas­si­fi­quei de boi­cote infor­ma­tivo, expres­são que Manuel Car­va­lho con­si­dera desa­pro­pri­ada (“Não houve essa deli­be­ra­ção. O que houve foi a recusa em acei­tar as regras. Não as acei­tando, entendeu-se que não as devía­mos vio­lar”). O direc­tor adjunto jus­ti­fica depois a opção tomada argu­men­tando que não esta­vam em causa “opi­niões ou o anún­cio de ali­cer­ces pre­li­mi­na­res de medi­das polí­ti­cas por parte de mem­bros do Governo, que temos de escru­ti­nar com per­ma­nên­cia”, e que por isso deve­riam “ser noti­ci­a­das, cus­tasse o que custasse”.

O que estava em causa”, subli­nha, “eram ideias de dife­ren­tes per­so­na­li­da­des da dita soci­e­dade civil sobre a reforma do Estado. Era, por­tanto, maté­ria de opi­nião. E a opi­nião ou se exerce livre por inteiro, ou tem um valor infor­ma­tivo dúbio. Se achar­mos, como acha­mos, que o debate público é fun­da­men­tal, se nos ins­cre­ve­mos na pri­meira linha dos que o que­rem ins­ti­gar e desen­vol­ver, não pode­mos ter sobre este tipo de even­tos ati­tu­des cin­zen­tas. Somos con­tra, ponto final”. “A expres­são de opi­niões de cida­dãos numa soci­e­dade demo­crá­tica” — con­clui Manuel Car­va­lho — “só tem valor se for exer­cida sem cons­tran­gi­men­tos. As opi­niões que inte­res­sam ao jor­na­lismo são as que são lan­ça­das e deba­ti­das no espaço público, e não as que se desen­vol­vem em espa­ços semi-privados, como era o caso”.

Pelo meu lado, embora admita que pos­sam inte­res­sar ao jor­na­lismo opi­niões deba­ti­das em “espa­ços semi-privados” (depen­derá da sua rele­vân­cia, na óptica do inte­resse público), subs­crevo natu­ral­mente a ideia de que é a sua expres­são livre e res­pon­sá­vel no espaço do debate demo­crá­tico que deve ser valo­ri­zada pela imprensa. Por isso me tenho insur­gido con­tra a bana­li­za­ção de fon­tes anó­ni­mas, a atri­bui­ção de opi­niões a pes­soas não iden­ti­fi­ca­das ou os comen­tá­rios sob ano­ni­mato que são per­mi­ti­dos, por exem­plo, no site deste jor­nal. Nada me per­mite con­cluir, no entanto, que os inter­ve­ni­en­tes na con­fe­rên­cia em causa, aberta à pre­sença de jor­na­lis­tas, tenham falado de forma “constrangida”.

Perante o duplo dever de pro­tes­tar con­tra a “regra do Palá­cio Foz” e de infor­mar os lei­to­res, várias solu­ções eram pos­sí­veis. O que impe­di­ria, por exem­plo, que jor­na­lis­tas e res­pon­sá­veis edi­to­ri­ais deci­dis­sem igno­rar a ten­ta­tiva de con­di­ci­o­nar o seu tra­ba­lho (atra­vés de uma regra ile­gí­tima de que nem fora dado conhe­ci­mento pré­vio ao jor­nal) e rela­tas­sem, como pro­fis­si­o­nal­mente melhor enten­des­sem, o que ali se deba­teu e quem defen­deu o quê? O que suce­de­ria, afi­nal, se as decla­ra­ções dos con­fe­ren­cis­tas fos­sem cita­das e devi­da­mente atri­buí­das aos seus auto­res, como aliás fize­ram outros órgãos de comu­ni­ca­ção? Na minha opi­nião, uma dis­cus­são pública cla­ri­fi­ca­dora sobre a liber­dade de infor­ma­ção e o esta­tuto dos jornalistas.

Exis­tindo à par­tida uma expec­ta­tiva de inte­resse público da con­fe­rên­cia, face à impor­tân­cia dos temas a dis­cu­tir, no actual qua­dro polí­tico, e ao facto de o governo a ter anun­ci­ado como des­ti­nada a ouvir opi­niões exter­nas com vista à defi­ni­ção de polí­ti­cas cru­ci­ais, impunha-se, como se fez, o seu agen­da­mento jor­na­lís­tico. A deci­são de noti­ciar os deba­tes, essa depen­de­ria natu­ral­mente de tal expec­ta­tiva ser ou não con­fir­mada — uma opção que com­pete aos res­pon­sá­veis edi­to­ri­ais, devendo ser tomada com base na ava­li­a­ção do inte­resse público da maté­ria infor­ma­tiva, para o que teria sido útil assis­tir aos trabalhos.

Do que foi publi­cado em outros meios, é pos­sí­vel con­cluir que sur­gi­ram na con­fe­rên­cia opi­niões e pro­pos­tas sobre as quais, em situ­a­ção “nor­mal”, o PÚBLICO não dei­xa­ria de infor­mar os seus lei­to­res. Acresce que, tendo “boi­co­tado” as ses­sões de debate, o jor­nal não estará nas melho­res con­di­ções para escru­ti­nar as con­clu­sões da con­fe­rên­cia, se por­ven­tura estas se reve­la­rem — como é legí­timo temer face à ten­ta­tiva de limi­tar a cober­tura jor­na­lís­tica — envi­e­sa­das ao ser­viço de objec­ti­vos de propaganda.

Acei­tar a “regra do Palá­cio Foz” sig­ni­fi­ca­ria entre­gar aos seus orga­ni­za­do­res um ina­cei­tá­vel poder edi­to­rial sobre as notí­cias a que a ini­ci­a­tiva desse ori­gem. Porém, tendo em conta o ape­tite que os orga­ni­za­do­res reve­la­ram pelo con­trolo da infor­ma­ção, valerá a pena interrogarmo-nos se a res­posta mais efi­caz, e até mais peda­gó­gica, não teria sido a que fizesse acom­pa­nhar a obri­ga­tó­ria denún­cia dessa “regra” pela demons­tra­ção da sua incon­sequên­cia e insu­cesso, infor­mando os lei­to­res com isen­ção sobre o que de rele­vante hou­vesse a noti­ciar sobre os debates.

O PÚBLICO esco­lheu o boi­cote infor­ma­tivo. Poderá haver situ­a­ções em que esse seja, no plano sim­bó­lico, o recurso mais digno face a uma ame­aça con­sis­tente à liber­dade de infor­ma­ção. Neste caso, perante os fac­tos que foram divul­ga­dos, julgo que teria sido mais acer­tado pro­tes­tar… e informar.

 José Quei­rós

Um debate que passou ao lado dos leitores do PÚBLICO

(Cró­nica da edi­ção de 20 de Janeiro de 2013)

 

Anun­ci­ada como um debate que terá par­tido da ini­ci­a­tiva do primeiro-ministro, para ouvir a “soci­e­dade civil” sobre “a reforma do Estado”, realizou-se nas últi­mas terça e quarta-feira no Palá­cio Foz, em Lis­boa, uma con­fe­rên­cia inti­tu­lada “Pen­sar o Futuro — um Estado para a Soci­e­dade”. Os lei­to­res deste jor­nal foram infor­ma­dos do que lá foi dito nos dis­cur­sos de aber­tura e de encer­ra­mento — a cargo, res­pec­ti­va­mente, do secre­tá­rio de Estado Car­los Moe­das e do pró­prio Pas­sos Coe­lho —, mas foram man­ti­dos na igno­rân­cia do que se deba­teu nas diver­sas ses­sões dedi­ca­das a temas como, entre outros, a edu­ca­ção, a saúde, a segu­rança social ou a defesa. Isto é, não foram infor­ma­dos sobre as teses e argu­men­tos que terão ali­men­tado uma dis­cus­são (se é que houve dis­cus­são) dos pro­fun­dos cor­tes na des­pesa pública que o Governo se pre­para para anun­ciar com o rótulo de “reforma do Estado”.

Na ori­gem desta ausên­cia de infor­ma­ção esteve a dis­cor­dân­cia dos res­pon­sá­veis edi­to­ri­ais do PÚBLICO face às regras de cober­tura jor­na­lís­tica que os pro­mo­to­res da con­fe­rên­cia ten­ta­ram impor. Segundo rela­tou a jor­na­lista Sofia Rodri­gues em notí­cia publi­cada no pas­sado dia 16, essas regras foram anun­ci­a­das no iní­cio da ses­são de aber­tura por Sofia Gal­vão, figura des­ta­cada do PSD a quem foi con­fi­ada a orga­ni­za­ção da ini­ci­a­tiva. Nes­tes ter­mos: “Não haverá regis­tos de ima­gem e som senão nesta ses­são de aber­tura e na de encer­ra­mento. A per­ma­nên­cia de jor­na­lis­tas na sala pode manter-se, mas não haverá cita­ções de nada que aqui seja dito sem expressa auto­ri­za­ção dos cita­dos”. A orga­ni­za­dora terá ainda acres­cen­tado que tais regras tinham sido “per­ce­bi­das e acei­tes pela comu­ni­ca­ção social”.

A jor­na­lista do PÚBLICO, que aban­do­nou o local na sequên­cia deste anún­cio — tal como fize­ram outros repre­sen­tan­tes de órgãos de infor­ma­ção (mas não todos) —, garan­tiu, na notí­cia já refe­rida, que o jor­nal “não tinha sido infor­mado pre­vi­a­mente des­tas limi­ta­ções” ao seu tra­ba­lho. Infor­mada da deci­são tomada por Sofia Rodri­gues, a direc­ção do PÚBLICO aprovou-a e optou por renun­ciar ao acom­pa­nha­mento jor­na­lís­tico dos deba­tes. À excep­ção de uma peça em que se repor­tou, na edi­ção de quinta-feira, o dis­curso final do primeiro-ministro (não abran­gido pelas res­tri­ções anun­ci­a­das), o espaço noti­ci­oso dedi­cado à ini­ci­a­tiva limitou-se assim ao relato do con­di­ci­o­na­mento infor­ma­tivo que a mar­cou, denun­ci­ado em edi­to­rial como “uma ina­cei­tá­vel ten­ta­tiva de vedar aos cida­dãos um debate que lhes inte­ressa”. Nesse edi­to­rial — que, tal como se tor­nou regra nos últi­mos anos, não é assi­nado, mas res­pon­sa­bi­liza natu­ral­mente a direc­ção do jor­nal — afirma-se ainda que “a con­fe­rên­cia foi feita sob o signo do segredo e da cen­sura prévia”.

A posi­ção assu­mida pelo PÚBLICO foi ques­ti­o­nada por alguns lei­to­res, em sen­ti­dos dife­ren­tes e con­tra­di­tó­rios. Houve quem cri­ti­casse o que foi enten­dido como um boi­cote infor­ma­tivo a uma ini­ci­a­tiva gover­na­men­tal, e houve quem, pelo con­trá­rio, sus­ten­tasse que o jor­nal deve­ria ter igno­rado tam­bém o dis­curso de Pas­sos Coe­lho, como forma de pro­testo con­tra um aten­tado à liber­dade de infor­ma­ção. Duarte Mar­ti­nho, por exem­plo, per­gunta se “não deve­riam os jor­na­lis­tas ter boi­co­tado toda a con­fe­rên­cia” e faz notar que o primeiro-ministro cau­ci­o­nou pes­so­al­mente o con­di­ci­o­na­mento imposto à comu­ni­ca­ção social, ao dizer nesse dis­curso final que aguar­dava que lhe fos­sem entre­gues nos pró­xi­mos dias as con­clu­sões dos deba­tes, que “repre­sen­tam fide­dig­na­mente o que foi dito”, não sendo assim con­ta­mi­na­das, no seu enten­der, pela medi­a­ção jor­na­lís­tica. O mesmo “incon­ve­ni­ente”, afi­nal, invo­cado por Sofia Gal­vão quando jus­ti­fi­cou as regras adop­ta­das no Palá­cio Foz como uma medida para evi­tar que apa­re­ces­sem na imprensa “afir­ma­ções des­con­tex­tu­a­li­za­das” atri­buí­das aos oradores.

Nem todos os res­pon­sá­veis por órgãos de comu­ni­ca­ção rea­gi­ram do mesmo modo à situ­a­ção cri­ada pelos pro­mo­to­res da con­fe­rên­cia. Entre os que opta­ram por acom­pa­nhar e noti­ciar os deba­tes houve quem garan­tisse ter sido avi­sado das regras res­tri­ti­vas, presumindo-se que com elas se tenha con­for­mado, quer as tenha ou não cum­prido à letra. Soube-se, entre­tanto, que um des­pa­cho dis­tri­buído pela agên­cia Lusa ao iní­cio da noite de segunda-feira expli­cava que, segundo Sofia Gal­vão, “a comu­ni­ca­ção social não poderá regis­tar nem citar as decla­ra­ções fei­tas nos pai­néis de debate “.

O PÚBLICO, segundo me expli­cou a direc­tora, Bár­bara Reis, “não foi con­vi­dado” a acom­pa­nhar a ini­ci­a­tiva, tendo sabido da sua exis­tên­cia “atra­vés de outros meios de comu­ni­ca­ção”. Não teve, tam­bém, conhe­ci­mento atem­pado da con­tro­versa norma adop­tada: “Che­gá­mos à con­fe­rên­cia sem saber as regras. Na vés­pera à noite, ao con­sul­tar a agenda da Lusa (não uma notí­cia, a agenda), lemos uma breve nota que fazia refe­rên­cia a limi­ta­ções”. Tratava-se, porém, de uma nota “con­tra­di­tó­ria e con­fusa”, em que se lia que “o encon­tro é aberto à imprensa escrita, excepto as ses­sões de aber­tura e fecho, que podem ser cober­tas tam­bém pela imprensa de audio e vídeo” (!).

Nesse mesmo dia, pros­se­gue Bár­bara Reis, “a jor­na­lista Sofia Rodri­gues falou com a orga­ni­za­dora da con­fe­rên­cia, para lhe pedir o pro­grama. Nesse con­tacto, em momento algum Sofia Gal­vão falou de regras par­ti­cu­la­res sobre a cober­tura da con­fe­rên­cia ou limi­ta­ções de qual­quer tipo. O pro­grama que nos enviou a seguir tam­bém não aborda o tema”. “Com­pre­en­de­mos, conhe­ce­mos e res­pei­ta­mos”, escreve a direc­tora do jor­nal, “dife­ren­tes tipos de con­fe­rên­cias e regras para a sua cober­tura. Quando são dife­ren­tes da norma e da tra­di­ção, dife­ren­tes do expec­tá­vel, as regras são apre­sen­ta­das, dis­cu­ti­das e acor­da­das com o jor­nal com ante­ce­dên­cia. (…) Não foi o caso. Pelo con­trá­rio: a con­fe­rên­cia foi apre­sen­tada como sendo ‘aberta à soci­e­dade civil’ e ao PÚBLICO não che­gou qual­quer aviso pré­vio de que esta seria uma con­fe­rên­cia com regras diferentes”.

Assim, a afir­ma­ção gené­rica de que a “comu­ni­ca­ção social” acei­tara as nor­mas em ques­tão não é de todo rigo­rosa, devendo ainda notar-se que uma nego­ci­a­ção nesse sen­tido não é subs­ti­tuí­vel por uma decla­ra­ção uni­la­te­ral à Lusa. Bár­bara Reis con­si­dera por isso que o que se pas­sou con­fi­gura “uma que­bra dos vín­cu­los de con­fi­ança, leal­dade e res­peito pelo tra­ba­lho dos jor­na­lis­tas”, e explica que foram pon­de­ra­das várias opções para rea­gir à situ­a­ção, tendo pre­va­le­cido a que os lei­to­res já conhecem.

Não valerá a pena repro­du­zir aqui todas as crí­ti­cas já diri­gi­das aos pro­mo­to­res da ini­ci­a­tiva. Parece-me evi­dente que a ten­ta­tiva de difi­cul­tar a infor­ma­ção sobre quem disse o quê no Palá­cio Foz (com a notó­ria excep­ção para Moe­das e Pas­sos Coe­lho), tal como a entrega exclu­siva da cap­ta­ção e edi­ção de sons e ima­gens dos deba­tes a fun­ci­o­ná­rios do Governo, se inse­rem numa lógica de pro­pa­ganda e con­trolo da infor­ma­ção, que só pode pre­ju­di­car o escru­tí­nio inde­pen­dente e a cre­di­bi­li­dade das con­clu­sões que serão entre­gues ao primeiro-ministro.

É óbvio que nada impede os gover­nan­tes ou quem os apoia de orga­ni­za­rem as reu­niões que enten­de­rem, com as regras que enten­de­rem, e não custa ima­gi­nar bons moti­vos para con­ci­liá­bu­los mais dis­cre­tos ou dis­cus­sões de divul­ga­ção limi­tada. Não se con­funda é isso com debate público sobre a “reforma do Estado”, des­ti­nado a ouvir “o que a soci­e­dade civil quer”, como disse Moe­das. Nem se con­funda a soci­e­dade civil com um punhado de con­vi­da­dos para uma troca de ideias patro­ci­nada pelo Governo. Nem, muito menos, se aceite a ideia, invo­cada pela orga­ni­za­ção, de que a regra da não cita­ção dos inter­ve­ni­en­tes se jus­ti­fi­ca­ria para evi­tar um “cons­tran­gi­mento das con­ver­sas”. Quem, de entre as figu­ras públi­cas que pas­sa­ram pelo Palá­cio Foz, se rebai­xa­ria à exi­gên­cia do ano­ni­mato para emi­tir opi­niões, nas suas áreas de conhe­ci­mento, sobre alguns dos mais gra­ves pro­ble­mas do país?

Nada tenho a opor, assim, às crí­ti­cas diri­gi­das pelo PÚBLICO à orga­ni­za­ção do debate, embora dis­corde dos ter­mos uti­li­za­dos no edi­to­rial do dia 16, em que se fala de uma con­fe­rên­cia feita “sob o signo do segredo e da cen­sura pré­via”, uma acu­sa­ção mani­fes­ta­mente des­pro­por­ci­o­nada. Nem cri­tico a ati­tude de pro­testo assu­mida por Sofia Rodri­gues, que em qual­quer caso per­tence ao foro indi­vi­dual do livre exer­cí­cio da cons­ci­ên­cia profissional.

Falta, no entanto, res­pon­der às dúvi­das dos lei­to­res. Fez bem o PÚBLICO em igno­rar o con­teúdo dos deba­tes no Palá­cio Foz? Por mim, julgo que não. Pela impor­tân­cia e actu­a­li­dade dos temas dis­cu­ti­dos, pela repu­ta­ção de alguns dos con­fe­ren­cis­tas, tinham à par­tida indis­cu­tí­vel inte­resse noti­ci­oso, sem des­cu­rar o seu enqua­dra­mento no plano polí­tico. A orga­ni­za­ção quis “proi­bir” a cita­ção de decla­ra­ções não auto­ri­za­das pelos seus auto­res? Por que não pedir essa auto­ri­za­ção, se a sua rele­vân­cia o jus­ti­fi­casse? Por que não, em alter­na­tiva, igno­rar essa absurda “proi­bi­ção”, em nome do direito e dever de infor­mar? Por que não, mesmo não assis­tindo ao encon­tro, recu­pe­rar o que fosse rele­vante atra­vés de fon­tes fiáveis?

Qual­quer que fosse a solu­ção esco­lhida, deve­ria ter pre­va­le­cido, na minha opi­nião, o dever pri­ma­cial dos jor­na­lis­tas, que é o de infor­mar os seus lei­to­res. Sem pre­juízo do pro­testo con­tra limi­ta­ções cen­su­rá­veis ao livre exer­cí­cio da pro­fis­são. A menos que (como pode sem­pre acon­te­cer na cober­tura de um acon­te­ci­mento) as expec­ta­ti­vas ini­ci­ais de inte­resse público fos­sem defrau­da­das por falta de rele­vân­cia ou novi­dade da maté­ria noti­ci­osa. Porém, pelo que vi refe­rido na imprensa que repor­tou os deba­tes, algu­mas suges­tões e pro­pos­tas mar­can­tes em áreas como o cál­culo das pen­sões, o dese­nho do Ser­viço Naci­o­nal de Saúde, a polí­tica sala­rial ou o grau de auto­no­mia das esco­las — quer se apro­xi­mas­sem ou se afas­tas­sem das actu­ais ori­en­ta­ções gover­na­men­tais — deve­riam cer­ta­mente ter sido dadas a conhe­cer aos lei­to­res deste jornal.

José Quei­rós

 

 

 

Os provedores também se queixam

(Cró­nica da edi­ção de 13 de Janeiro de 2013)

 

Não é pre­ciso ser-se his­to­ri­a­dor ou inves­ti­ga­dor de uma qual­quer maté­ria para se com­pre­en­der a impor­tân­cia dos arqui­vos dos jor­nais e o inte­resse público da sua boa con­ser­va­ção e orga­ni­za­ção. O advento da Inter­net tor­nou mais fácil o acesso gene­ra­li­zado, gra­tuito ou pago, à con­sulta do que foi escrito num pas­sado pró­ximo, com mui­tos jor­nais a colo­ca­rem em linha as suas edi­ções dos últi­mos anos.

As novas faci­li­da­des trou­xe­ram con­sigo novos pro­ble­mas, que já aqui abor­dei, como os que se rela­ci­o­nam com a cor­rec­ção de erros detec­ta­dos em notí­cias do pas­sado, e novos desa­fios éticos, como o da impor­tân­cia de assi­na­lar essas cor­rec­ções no pró­prio mate­rial arqui­vado — um novo ser­viço pres­tado à busca da ver­dade, que não é viá­vel efec­tuar no campo da memó­ria jor­na­lís­tica pre­ser­vada nas heme­ro­te­cas. Um ser­viço tanto mais impor­tante quando a expe­ri­ên­cia nos ensina que notí­cias já anti­gas, reti­ra­das do seu con­texto his­tó­rico e even­tu­al­mente erra­das, mas entre­tanto cap­tu­ra­das por moto­res de busca, podem ganhar vida nova e propagar-se de modo viral atra­vés das redes sociais.

As enor­mes van­ta­gens dos arqui­vos vir­tu­ais de fácil acesso geral pres­su­põem, natu­ral­mente, que o que neles se encon­tra é uma repro­du­ção fiel e com­pleta do que um dia foi publi­cado numa efé­mera edi­ção em papel. Se isto não acon­tece — e, como se verá, por vezes não acon­tece —, o resul­tado pode ser desas­troso e ofen­der o res­peito à ver­dade his­tó­rica e às regras éticas do jornalismo.

Foi o que suce­deu com uma ini­ci­a­tiva recente, e à par­tida lou­vá­vel, deste jor­nal. Uma das novi­da­des asso­ci­a­das ao lan­ça­mento do novo site do PÚBLICO, em Novem­bro pas­sado, foi a cri­a­ção de “pági­nas de autor”, nas quais qual­quer lei­tor pode­ria con­sul­tar, segundo foi anun­ci­ado, todos os tex­tos publi­ca­dos ao longo do tempo por um mesmo autor, fosse ele jor­na­lista ou colu­nista. É uma fun­ci­o­na­li­dade útil, não ape­nas para a con­sulta de ele­men­tos infor­ma­ti­vos (devendo, na minha opi­nião, vir a ser enri­que­cida por um sis­tema de sina­li­za­ção de tópi­cos que per­mita encon­trar com rapi­dez o que se pro­cura), mas tam­bém, por exem­plo, para acom­pa­nhar a evo­lu­ção do pen­sa­mento de comen­ta­do­res com influên­cia na opi­nião pública e conhe­cer o modo como inter­pre­ta­ram, em cada momento, os sinais da actualidade.

Ape­sar de todas essas van­ta­gens, acon­se­lho os lei­to­res inte­res­sa­dos a uti­li­za­rem com a maior cau­tela, pelo menos no ime­di­ato, essa fun­ci­o­na­li­dade de con­sulta às “pági­nas de autor”, a que se acede facil­mente atra­vés da página de aber­tura do site do PÚBLICO. Para expli­car porquê, conto com a com­pre­en­são dos lei­to­res para recor­rer à des­cri­ção de uma expe­ri­ên­cia que me envol­veu pes­so­al­mente, enquanto autor desta coluna sema­nal. Julgo que a melhor forma de o fazer será a de a nar­rar atra­vés da cor­res­pon­dên­cia tro­cada nos últi­mos dias com a direc­tora do PÚBLICO.

Desta vez”, escrevi em carta diri­gida a Bár­bara Reis na última terça-feira, “não venho comu­ni­car qual­quer recla­ma­ção rece­bida de um lei­tor. Venho apre­sen­tar eu pró­prio uma queixa, para a qual peço a melhor aten­ção”. Após expli­car que con­si­de­rava posi­tiva a ino­va­ção de agre­gar em pági­nas pró­prias os tex­tos de cada autor, refe­ria: “Só há dias tive a curi­o­si­dade de ir esprei­tar a ‘minha’ página. O que encon­trei deixou-me alar­mado, pois ima­gino que os erros e defi­ci­ên­cias que encon­trei pode­rão repetir-se nas pági­nas de outros auto­res, defrau­dando os lei­to­res que as consultam”.

Come­cei por rela­tar os pro­ble­mas e incon­gruên­cias que detec­tara. Lar­gas deze­nas de tex­tos que aqui assi­nei como pro­ve­dor do lei­tor tinham sido omi­ti­dos. A mai­o­ria dos que cons­ta­vam da página apre­sen­tava erros de data­ção. O pior, porém, viria depois, quando veri­fi­quei que, a par­tir de deter­mi­nado ponto na ordem cro­no­ló­gica inversa em que estão arru­ma­dos, sur­giam títu­los de tex­tos que, como jor­na­lista e comen­ta­dor, escre­vera para o PÚBLICO em 2000 e 2001, quando per­ten­cia aos qua­dros do jornal.

A par­tir daqui”, expli­quei à direc­tora, “é que as coi­sas se tor­nam real­mente gra­ves: (…) na quase tota­li­dade dos casos, os tex­tos que lá se encon­tram, depois de cli­car nos títu­los, não são meus, nem sei o que são ou de quem são, nem têm nada a ver com os títu­los, mas são-me atri­buí­dos”, com assi­na­tura e foto­gra­fia, indi­cando ao lei­tor que “as pro­sas que apa­re­cem são da minha auto­ria”. Des­crevi ainda outras “fal­si­fi­ca­ções”, como a de me ser atri­buída uma entre­vista que não fiz.

A ter­mi­nar, dei conta de um facto que ver­da­dei­ra­mente me indig­nou: “Na (…) ‘minha’ página de autor, apa­rece, com data de 1 de Feve­reiro de 2001 (ou de 1 de Março, con­forme se lê a cha­mada ou o texto) e assi­na­tura minha, uma prosa inti­tu­lada  José Antó­nio Cerejo: delí­rio, fan­ta­sia e fal­si­da­des. Trata-se de um texto de tom mar­ca­da­mente agres­sivo, de ata­que pes­soal ao [jor­na­lista] J. A. Cerejo, que visa pôr em causa a sua repu­ta­ção pro­fis­si­o­nal”. Após a sur­presa ini­cial de ver ser-me fal­sa­mente atri­buída essa prosa que nunca escrevi nem subs­crevo, e como resul­tado de uma pes­quisa que não foi fácil, per­cebi, con­forme comu­ni­quei a Bár­bara Reis, que se tra­tava de “um texto da auto­ria do então minis­tro do Ambi­ente José Sócra­tes, que foi efec­ti­va­mente publi­cado no jor­nal em 1 de Março desse ano”. Fiz notar que, “a agra­var a situ­a­ção, o texto escrito por Sócra­tes pre­tende apresentar-se como uma crí­tica a prá­ti­cas jor­na­lís­ti­cas, o que poderá refor­çar junto de qual­quer lei­tor mais incauto a ideia falsa de que se trata de uma inter­ven­ção …do pro­ve­dor do leitor”.

Pedi, natu­ral­mente, a “remo­ção do texto de Sócra­tes” dessa página — o que foi feito de ime­di­ato —, bem como “uma expli­ca­ção a quem possa ter sido levado ao engano ou possa vir a sê-lo no futuro face a uma even­tual repli­ca­ção por ter­cei­ros do que está em linha” — o que, até ao momento, não foi feito. E con­cluí cha­mando a aten­ção para a pro­ba­bi­li­dade de não ter sido a única vítima de um pro­cesso de arqui­va­mento incom­pe­tente, que pode­ria afec­tar outros jor­na­lis­tas e colunistas.

A direc­tora do PÚBLICO respondeu-me no dia seguinte, para asse­gu­rar que tinham sido “reti­ra­dos todos os tex­tos até 2003″ e que a situ­a­ção estava a ser inves­ti­gada, “para per­ce­ber como e porquê isto acon­te­ceu e se é ou não gene­ra­li­zado”. Uma rápida pes­quisa ale­a­tó­ria tinha-me já levado a con­fir­mar, entre­tanto, a sus­peita de que erros seme­lhan­tes afec­ta­vam outras “pági­nas de autor”, nome­a­da­mente as de alguns colu­nis­tas. Con­si­de­rando neces­sá­rio infor­mar desse facto auto­res e lei­to­res, pedi infor­ma­ções sobre a ori­gem e exten­são do pro­blema detec­tado, e acerca das medi­das a tomar para repa­rar os danos que pode­riam ter ocor­rido, já que “nada garante que os tex­tos erra­da­mente atri­buí­dos não pos­sam já ter sido con­sul­ta­dos ou reproduzidos”.

Na res­posta que recebi ante­on­tem não é escla­re­cida a exten­são dos erros de arqui­va­mento, mas é dada uma expli­ca­ção para a sua causa. “A ori­gem do pro­blema”, escreve Bár­bara Reis, “está na impor­ta­ção de dados feita em 2005 a par­tir de um sis­tema obsoleto. Este pro­cesso con­ti­nha erros que até agora não tinham sido detec­ta­dos”, à excep­ção do caso de “uma única pes­soa [que] iden­ti­fi­cara erros na sua página”. Como medida ime­di­ata, acres­centa, “as asso­ci­a­ções dos auto­res aos tex­tos ante­ri­o­res a 2005 foram remo­vi­das esta semana, assim como o nome do autor” (uma nova pes­quisa ale­a­tó­ria mostrou-me, no entanto, que, na vés­pera da publi­ca­ção deste texto, essa infor­ma­ção não se con­fir­mava). A direc­tora do PÚBLICO escla­rece, por outro lado, que “está a ser estu­dada uma solu­ção” para que os tex­tos reti­ra­dos sejam cor­rec­ta­mente repos­tos, e que o objec­tivo final é o de que estas “pági­nas de autor” venham a con­ter, de facto, todos os tex­tos assi­na­dos por cada um dos colu­nis­tas ou jornalistas.

Espero que a nor­ma­li­za­ção com­pleta desta área do site do PÚBLICO possa ser feita com a dese­já­vel rapi­dez e que os lei­to­res sejam infor­ma­dos quando isso acon­te­cer, para que pos­sam bene­fi­ciar da con­sulta às “pági­nas de autor” sem cor­re­rem o risco de depa­rar com “fal­si­fi­ca­ções” que, sendo invo­lun­tá­rias, indi­ciam no entanto uma grande falta de rigor nos pro­ces­sos de arqui­va­mento online. Não é acei­tá­vel que um ser­viço deste tipo seja lan­çado sem que antes seja devi­da­mente tes­tada a sua qua­li­dade, nem é com­pre­en­sí­vel que, a ter exis­tido algum tipo de teste, não tenha sido detec­tado o erro cometido.

A con­cluir, julgo que a direc­ção do PÚBLICO deve­ria con­si­de­rar como auto­res, para efeito desta con­sulta por pági­nas indi­vi­du­ais, todos os que, não escre­vendo actu­al­mente no jor­nal, aqui assi­na­ram peças jor­na­lís­ti­cas e arti­gos de opi­nião a par­tir da data de publi­ca­ção a que remonta esta moda­li­dade de arqui­va­mento. A memó­ria de um jor­nal não se com­pa­dece com exclusões. 

José Quei­rós