Pode uma criança morrer a rir?

Pode uma criança morrer a rir?
1 — Entre os vários códigos de escrita e leitura com que o jornalista terá de lidar para comunicar com o público há um que, por vezes, se não é esquecido, é objecto de controvérsia. E esse é a sensibilidade. A sensibilidade do(s) público(s). Se para o exercício da escrita dos jornalistas lhe são tantas vezes recordados os princípios do seu código deontológico, no cumprimento de regras de rigor, exactidão, de independência e integridade pessoal, a variável da sensibilidade não tem uma sinalização de presença a ter em conta tão acentuada. É verdade que estamos perante um código de enorme subjectividade, multicultural, complexo e complicado. Nem por vivermos hoje um período em que, muito especialmente, os media audiovisuais mais se interessam pelo “fazer sentir” do que pelo “fazer entender”, nem por isso, este vector da sensibilidade do público deve estar ausente da responsabilidade de quem lida de modo tão imediato com os públicos. Não é novo. O filosofo George BerKeley ( 1685–1753) dizia que a sensibilidade é o meio através do qual as coisas são percebidas e a inteligência aquilo pelo qual elas são activamente reunidas e conhecidas. Esta dimensão da interpretação dos acontecimentos que os media têm na construção da visão por parte dos públicos do sentido das coisas é um capítulo, porventura, pouco cuidado no estudo do mundo extremamente mediatizado que nos envolve. Obviamente, neste espaço, estou a chamar à atenção desta envolvência. Não a tratá-la. Deixo aos cientistas destes fenómenos.
Este factor da sensibilidade dos públicos toma particular acutilância quando nos casos relatados pelos media as crianças são actores/sujeitos em foco. Nestas últimas semanas, dois crimes de violência brutal sobre crianças (um no bairro de Zambujal, em Loures, e um outro em Oeiras), tiveram largo tratamento na comunicação social. Crimes que, descritos em fenómenos de tragédia dizem pouco, pois deveriam imediatamente reconfigurar os efeitos do clima social que estamos a viver.
2. Com uma indesmentível intenção de chamar a atenção para a situação de crianças em risco de maus tratos e violência selvática, a jornalista do PÚBLICO Ana Dias Cordeiro, retomando informações recolhidas pela colega, Mariana Oliveira, escreveu um artigo/reportagem, sob o título “ Era uma menina feliz. Morreu com um sorriso na cara, de certeza”. Em reacção a este título e texto, a leitora Sofia Pacheco insurgiu-se profundamente indignada. Entre palavras duras e de reprovação para o texto das jornalistas e para a responsabilidade editorial do PÚBLICO, a leitora interrogava: «Como é possível que o PÚBLICO, um jornal que pretende ser de referência, tenha publicado esta pseudo-peça jornalística com um título tão abjecto, (…), cretino, sensacionalista?!». E faz uma lancinante pergunta: “ Uma criança que morre espancada pode lá morrer feliz e a sorrir?!” (…)
Ouvi a este propósito as jornalistas e da sua explicação julgo ser de registar estas passagens: «Reconheço que, face à violência da situação, o título possa ferir a sensibilidade de alguns leitores que viram nele a ideia de que a menina estaria a sorrir no momento em que morreu. Houve porém leitores que entenderam o título da forma pretendida. Esta menina era uma criança como as outras: não deveria se lembrada apenas pela forma violenta como morreu.
Quem ler o texto com atenção verá que, em nenhum momento, é referido que a criança morreu feliz. Na reportagem, diz-se sim, e citando a expressão de um residente do bairro e amigo da família, que a menina era uma criança feliz. Essa pessoa, devidamente identificada no texto, usa essa expressão reproduzida no título, para com ela reforçar a ideia de que a criança tinha sempre um sorriso na cara e não para dizer, literalmente, que a criança “morreu a sorrir”. A expressão foi reproduzida por mim, por ver nela a tentativa de esta pessoa guardar uma boa recordação da menina. Mas admito que tenha sido um título mal escolhido por dar azo a interpretações nunca pretendidas.» E continua a jornalista Ana Dias Cordeiro: «A intenção foi sempre a de proteger a menina e a família de uma indevida exposição. Por respeito pela criança e pela família, nunca, em momento algum, o PÚBLICO citou os nomes da menina, do irmão, da mãe ou de quaisquer outros elementos da família, embora dispusesse dessa informação. Os repórteres do PÚBLICO podiam ter trazido uma foto do irmão da menina para publicação. Não o fizeram, mais uma vez, para evitar a violência redobrada que representa a exposição pública num momento como este».
Diz a leitora, Sofia Pacheco: “Todo o artigo é de uma pobreza confrangedora, pois não só é factualmente incorreto (a família estava já sinalizada e já havia queixas de violência sobre as duas crianças)”.
Comenta a jornalista: «Tentei saber por vários meios se as duas crianças estavam ou se já tinham estado sinalizadas por maus-tratos ou negligência. Para isso contactei por telefone a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Loures, duas vezes: antes de me deslocar ao Bairro do Zambujal e depois de regressar. Também contactei a Unidade de Saúde da Câmara Municipal de Loures e por fim, três ou quatro vezes, a Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR) em Lisboa.
Da CPCJ de Loures, apesar da insistência, uma responsável recusou dar qualquer informação, recusando também esclarecer-me se essa postura de “não dar quaisquer informações” (referida no texto) era para este caso em particular ou para todos; e isto apesar de eu ter lembrado que, de acordo com a Lei de Protecção de Crianças e Jovens, no seu art.º 90, a comunicação social deve ser informada sobre os factos, decisão e circunstâncias necessárias para a correcta compreensão [dos casos]. Não foi o que aconteceu. Falei também com uma técnica da CNPCJR, que disse não saber se esta família estava sinalizada como sendo de risco e que remeteu para a CPCJ de Loures, por ser quem mais facilmente daria essa informação.
Ainda para Lisboa, tentei várias vezes falar com a direcção da CNPCJR. O secretário-executivo estava ocupado das duas vezes que liguei. E à terceira tentativa, ninguém atendeu. Também não houve resposta do número directo do presidente da CNPCJR. Contactei igualmente, mas por email, o gabinete de imprensa e a porta-voz do Instituto da Segurança Social (ISS), para perceber se esta família era acompanhada pela Segurança Social – tal implicaria visitas de técnicos/as ao domicílio. Enviei perguntas que não tiveram resposta.
A ausência da informação sobre existência de queixas não foi, como diz a leitora, para reproduzir “o discurso de que o agressor era muito boa pessoa e que ninguém deu por nada”. E em relação à afirmação da leitora, “Entrevistar curiosos na rua que só dizem alarvidades não é jornalismo sério!”, a jornalista esclarece:
«O PÚBLICO pretendeu, com esta reportagem, chegar o mais perto possível da vivência das crianças e da família, falando com pessoas que lhes são próximas, indo ao local, percebendo e transmitindo, com isso, que há lugares esquecidos e realidades escondidas.»
3. Chegados a este ponto, os leitores esperam, talvez, o veredicto do provedor. Remeto a todos para o ponto 1 deste texto. E, hoje, deixem-me ficar por aqui. Casos destes não merecem apenas “crónica negra”. Comentada e criticada. Merecem reflexão e estudo aprofundado.