Performance Arte Portuguesa 3

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O último dia começou com as comunicações “Traduzir Oralidade: O futuro da arte? de Ernesto de Sousa”, de Pedro Barateiro; “Os Rituais Tradicionais Portugueses na performance de Armando Azevedo e Albuquerque Mendes”, de Beatriz Albuquerque; e “O engajador engajado”, apresentada por mim.

Falei sobre as evocações do Brasil nas peças Velocidade Máxima (2009), do Coletivo 84; Vontade de Ter Vontade (2012), de Cláudia Dias; Os Serrenhos do Caldeirão (2012), de Vera Mantero; Espectáculo Absoluto (2014), do grupo Sr. João; Museu Encantador (2015), de Rita Natálio e Joana Levi; Colecção de Amantes (2015), de Raquel André; I Can’t Breathe (2015), de Elmano Sancho; e Alla Prima (2015), de Tiago Cadete (na foto — Alla Prima que pode ser vista ainda hoje na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, e, de hoje a oito, no Citemor). Entre o teatro, a dança e a performance art, esta mão cheia de peças é inclassificável quanto ao género, mas também quanto ao tema e ao contexto de produção. Dão origem a experiências híbridas, mestiças e precárias, quando muito. Alguns traços têm em comum: a exposição do corpo dos próprios autores, que são também actores, bailarinos ou performers; a companhia de não-actores em cena; a enumeração de factos, imagens, hipóteses, citações e encontros. No horizonte, a emigração.

A seguir, Cláudia Giannetti, a segunda keynote speaker, fez uma intervenção intitulada “Metaformance: Corpo – Interface – Interactor”. À tarde, foi a vez de António Contador, com “A polidez, grau zero do gesto artístico : o caso do senhor do adeus”; Ana Pais, com “Longe da vista, perto do coração”; Susana Chiocca, com “Corpos laminais”; e Ana Dinger e Fernanda Eugénio, com “METÁLOGO #4 – histórias & geografias da performance”. Seguiu-se a terceira parte dos Diálogos Performativas, com Vânia Rovisco, Manoel Barbosa e António Olaio, e logo depois a sessão de encerramento do simpósio. Este encontro continua no Porto e em Coimbra, em datas formatos a anunciar.

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Duas cronologias, uma do ACARTE entre 1984 e 1989, da autoria de Ana Bigotte Vieira, e outra da Arte da Performance Portuguesa, de Sandra Guerreiro Dias, marcam esta segunda manhã do simpósio Performance Arte Portuguesa. No primeiro painel, além de Bigotte Vieira, intervieram Hélia Marçal e Daniela Salazar. No segundo, Guerreiro Dias e Ana Rito. À tarde, falarão Rui Mourão, Rita Castro Neves e João Garcia Miguel. No fim do dia, Paulo Mendes apresenta uma nova versão da performance “THE POSTCOLONIAL SINGER”, a que se seguirá um debate com, além do performer, Filipa César, Manuel Botelho, Albuquerque Mendes e Susana Mendes Silva.

Na tarde de quarta-feira houve intervenções de Mariana Brandão, Verónica Metello, Bruno Marques e Alexandra do Carmo. Depois, foi projectado um curto filme, “O laboratório artístico saltou para a rua em 1974, uma conversa entre Ernesto de Sousa e Melo E. Castro”, a que se seguiu uma mesa-redonda com Fernando Aguiar, Rui Orfão, Manoel Barbosa e o próprio E. M. de Melo e Castro, que abriu a sessão com uma performance inédita em Portugal.

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Começa hoje o simpósio Performance Arte Portuguesa: 2 ciclos para 1 arquivo, no Museu Coleção Berardo. Abriu agora com Cláudia Madeira, Fernando M. de Oliveira, Hélia Marçal, Paulo Filipe Monteiro e Pedro Lapa na mesa da sessão de abertura. O orador que dará o tom para as intervenções de hoje é — dentro de minutos — António Olaio. O programa está aqui. A brochura do evento aqui.

(No coffee-break houve pastéis de Belém.)

O primeiro painel do dia, com moderação de Liliana Coutinho, tem intervenções de Filomena Serra, sobre Ângelo de Sousa; de Sónia Pina, sobre o movimento Fluxus, e em especial Ernesto de Sousa; e de Isabel Nogueira, sobre várias ações no pós-25 de Abril, e sobre Egídio Álvaro. O dia de hoje é dedicado às histórias da performance em Portugal. Este painel dá notícia de várias acções, performances e happenings em várias cidades de norte a sul do país, desde o final dos anos sessenta aos anos oitenta.

Antes só que mal acompanhado

Viajantes Solitários

Chega amanhã a Lisboa, ao D. Maria II, a dupla de atores camionistas Estêvão Antunes e Simon Frankel, a bordo do espectáculo “Viajantes Solitários”, estreado o ano passado em Viseu. No Porto, o espectáculo pôde ser visto uns tempos antes de “Espólios”. Este último espectáculo, recorde-se, tinha uma ligação mais estreita a “Esta é a minha cidade” (2012) e a “Até comprava o teu amor” (2014). Todas estas peças remetem para negócios propriamente ditos, ou para a compra e venda de mercadorias. Ironicamente, “Esta é a minha cidade” já não poderia ser feito da mesma maneira, porque a compra e venda de propriedades imobiliárias no Porto, à volta do Mosteiro de São Bento da Vitória, não o permitiria. E “Até comprava o teu amor” muito menos, visto que o Palacete Pinto Leite está nas mãos de milionários, salvo erro plutocratas de Angola.

Os negócios e os amores estão sempre associados, ainda que, a maior parte das vezes, em oposição. Um exemplo dos clássicos: “Medida por Medida”, de Shakespeare. Mas o que o Teatro do Vestido faz é mais de acordo com o princípio da dádiva que outra coisa. As suas práticas encantam os objectos, as casas, as ruas, ao explicitar as relações humanas que dão significado às coisas. Não é pouco, num mundo soterrado de mercadorias brilhantes e luzidias como é o nosso. E, claro, por isso é tão importante ver e ouvir as narrativas da intimidade que as pessoas têm com as coisas que as fazem recordar outras pessoas, outros lugares e outras épocas.

Voltando aos “Viajantes Solitários” (e usando “Espólios” para pensar neles): se as casas, e as coleções de objectos que habitam as casas, contam a história das pessoas, dá vontade de perguntar que histórias se podem contar acerca das pessoas que levam e trazem esses objectos. “Viajantes” mostra esse objecto total que é o camião, colado à estrada, como equivalente às casas e ruas de outras peças do Vestido.

A noção de que esses homens, como se fossem os últimos dos aventureiros, estão na linha da frente de um combate imaginário contra a transformação das pessoas em coisas, quem a tem? Talvez, ao ter ideia disso, possamos ter uma medida do desperdício das suas vidas. É precisamente por fazerem parte, eles próprios, do grupo de trabalhadores mais explorado que há, o grupo daqueles que carregam coisas mais valiosas que eles, que a sujeição total aos negócios deve ser recusada de modo absoluto. As histórias de amor e ócio destes viajantes dão-lhes a dignidade que a exploração do trabalho lhes tenta tirar.

Lançar Diálogos: Crítica de Artes do Espetáculo e Esfera Pública (3)

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Depois da intervenção matinal de Diana Damian-Martin, repleta de provocações, seguiu-se um emocionante debate, em que a casta de críticos, ou pelo menos a parte da casta que estava presente, teve a oportunidade de parar e olhar em volta os caminhos tomados e por tomar.

Seguiu-se, à tarde, a fala final de Luiz Fernando Ramos, “A cena da crítica contemporânea: artes expandidas e sociedades contraídas”, em que o orador traçou um panorama geral das artes cénicas dos últimos tempos, remate perfeito para os dois dias de debate. Luiz Fernando defendeu a existência de uma “cena expandida”, que passou a caracterizar em termos que ultrapassam a dimensão deste blogue.

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Chamando à colação Hume, Kant e Oscar Wilde, Ramos mostrou como o desempenho de atores e espectadores assenta numa mimesis performativa, não meramente dramática, mas também relacionada com as outras artes, seja como espelhamento seja como inovação. Uma mimesis mais distante do teatro do que soía, e da qual já há suficientes exemplos para se poder chamá-la uma tradição pós-moderna. A verificar no volume Mimesis performativa: a margem de invenção possível, da editora Anna Blume.

Lançar Diálogos: Crítica de Artes do Espetáculo e Esfera Pública (2)

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A sessão da tarde teve como tema “A crítica de teatro e o seu papel na cidade”, debatido por Ana Bigotte Vieira, Andrea Porcheddu, Diana Damian-Martin, Ivan Medenica, Rui Pina Coelho e este que vos escreve [foto da Mónica Guerreiro]. Entre outras (muitas) ideias, ficam aqui três: a proposta de Diana para imaginar maneiras diferentes de escrever crítica; a ideia de Andrea de que o papel atual dos críticos talvez seja ligar as várias iniciativas, de pequena escala, que aparecem isoladamente; e os exemplos de Ivan, primeiro o de um programa eslovaco que garante que todos espectáculos têm pelo menos uma crítica feita, depois o de um projecto da Sérvia, a Caravana de Crítica, que leva os críticos às estreias em outras cidades que não Belgrado e Novi Sad, pólos tradicionais da actividade cultural. Nada mau para uma tarde de feriado nacional.

Seguiu-se o lançamento do Curso Experimental em Estudos de Performance Tomar Posição: o Político e o Lugar, a decorrer em Lisboa, de setembro a dezembro, promovido pelo baldio. Mais informações em https://baldiohabitado.wordpress.com/ceep/.

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Amanhã, Sábado, às 10h, ainda no Rivoli é a vez de Declínio, demissão, deliberação: a questão da crítica na esfera pública, aula magistral com Diana Damian-Martin (Royal Central School of Speech and Drama / Exeunt Maganize). Às 15h, no TNSJ, será a Conferência Plenária, com Luiz Fernando Ramos (ECA-USP). O lançamento do n. 1, série II, da revista Sinais de Cena, foi cancelado. Às 18h, na livraria Lello, é o lançamento de O tempo das cerejas: manual de sobrevivência de um cenógrafo (vol. II), de José Manuel Castanheira.

 

Lançar Diálogos: Crítica de Artes do Espetáculo e Esfera Pública (1)

Começou o encontro de crítica do FITEI, no Teatro Rivoli, com Ivan Medenica (da Faculdade de Artes Dramáticas, Belgrado, e da Associação Internacional de Críticos de Teatro) e Andrea Porcheddu (da Universidade de Roma), sobre “Formar críticos de teatro”. Um resumo feito agora mesmo, enquanto os ouço aqui no auditório Isabel Alves Costa:

Andrea Porcheddu começou por dizer que em Itália, tradicionalmente, a maior parte dos críticos não vinham das universidades, mas das redações: eram jornalistas que davam a sua opinião, conforme o ponto de vista do público. Nos anos 60, os críticos passaram a estar nos teatros, e adoptaram o ponto de vista dos artistas, passando a ser como tradutores entre os dois pontos de vista e, de certo modo, explicando o que os artistas estavam a fazer. A atual geração, que começou a escrever no fim dos 80, início dos 90, apanhou o momento em que os jornais deixaram de querer crítica, e hoje em dia publica muito na internet, em blogues especializados. Esta geração, além de ser praticamente auto-didacta, começou a ensinar também, através de workshops.

Ivan Medenica contou como, na Europa de Leste, a crítica vem sobretudo das escolas de teatro, onde teoria e prática estão juntas, e normalmente está associada ao departamento de dramaturgia. A prática da crítica é ensinada não nos departamentos de literatura, nem nas escolas de jornalismo, mas nos departamentos de teatro, ligada à prática teatral e aos estudos teatrais, ao mesmo tempo. No Leste, os críticos fazem parte do mundo do teatro. As gerações anteriores não foram criados neste contexto, que só passou a existir no pós-guerra; eram em geral intelectuais, com formação nas humanidades, cujas críticas se lêem ainda hoje com muito interesse. Na Alemanha, o sistema é semelhante, só que os críticos têm muito mais poder, que não deixam de exercer.

Essa influência vem do reconhecimento social, frisou Maria João Brilhante, aspecto que muda muito de país para país. A constituição da esfera pública, e a forma específica de cada uma delas, por país, leva a diferenças, que serão alvo de debate hoje e amanhã.

 

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Roberto Pascual, António Augusto Barros, Maria Helena Serôdio e este que vos escreve em pleno Salão Nobre da Universidade do Minho, na mesa redonda Informação, Edição e Crítica Teatral do colóquio 20 anos de Teatragal, organizado pelo Instituto de Letras e Ciências Humanas da UM e pela Companhia de Teatro de Braga.

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Polifonia da dádiva

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O Teatro do Vestido editou num volume lindo, composto pela dupla de tipógrafas Ilhas, com fotos e ilustrações de João Tuna, os textos do espectáculo Até comprava o teu amor, estreado em 2014, no Palacete Pinto Leite, segunda parte de uma trilogia feita com o TNSJ a que pertencem Esta é a minha cidade (2012) e Espólios (2016), este ainda em cena. E na quarta, 11, lá estivemos eu, a Mónica Guerreiro e a Joana Craveiro, além de um bando de amigos e indefectíveis do Vestido, a lançar o livro, abrigados da chuva no Centro de Documentação do TNSJ.

Entretanto, Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas será apresentado em Paris, em maio; em Londres, em junho; em Almada, em julho (onde foi escolhido o ano passado, pelo público do festival, como espectáculo de honra); e em Lisboa, em novembro e dezembro, então já com uma palestra nova e a exposição dos objectos do espectáculo, em horário diurno, num espaço em frente ao antigo edifício da PIDE, na rua António Maria Cardoso (palestra e exposição em co-produção com o São Luiz).