Chile: três destaques — de três peças cada

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O primeiro destaque vai desde logo para os argentinos, com três obras, muito acima da média, e muito diferentes entre si, de três mestres contemporâneos: Los Corderos, de Veronese; Las ideias, de Léon (que vem ao Alkantara); e Dínamo, de Tolcachir [na foto].

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Outro destaque vai para as criações chilenas Pájaros, Hilda Peña e Hijos de… [na foto] — as três peças cruzam sexo e poder de maneira diferente, mas procurando repartir por igual a importância dessas duas forças na definição das figuras do Chile contemporâneo que aparecem nos enredos. A perversão sexual aparece em resultado do abuso de poder, implícita nos atos e nas palavras, como vontade, memória ou revelação, nunca exposta como acção cénica. Estas dramaturgias são fortes mas subtis, ocultando tanto quanto revelam.

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Mas o que mais me interessou foram as três peças mais cómicas, explícitas e politicamente incorrectas deste conjunto: Los millonarios, No teremos [Na foto] e Concierto. Na primeira, um grupo de advogados procura argumentos para defender da acusação de homicídio um homem Mapuche que até já se confessou culpado. Os advogados usam cinicamente as muitas razões invocadas pelos Mapuche na defesa dos seus direitos, de modo a sensibilizar o júri. A peça é uma farsa que denuncia o fundamentalismo dos próprios activistas sociais, ao mesmo tempo que revela a perversidade dos juristas e dos empresários que controlam o antigo território Mapuche. “No tenemos que sacrificarnos por los que vendrán”, assim com o nome em aspas por ser uma citação, usa as atas das reuniões que mudaram as leis laborais no Chile para reconstituir essas mesmas reuniões, com o ministro do trabalho, vários militares e o próprio Pinochet a serem absolutamente ridicularizados.

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Concierto — um espectáculo quase sem palavras — mostra a manipulação alegoricamente, nos jogos de cena em que o espectáculo se sustenta ao início. Depois de uma explosão libertária, com direito a insultos ao público em jeito de apoteose punk, sobrevem uma coreografia de celebração horizontal, ou igualitária, sem escadinhas nem hierarquia nem corpo de baile. Tal e qual se vê, a todas as horas, nos pátios e áreas abertas do GAM, Centro Cultural Gabriela Mistral [na foto], grupos de miúdos e miúdas de 12, 15 anos, a ensaiarem passos de dança tirados de vídeos, servindo-se dos vidros do edifício como espelho, através dos quais se podiam ver a mesa de recepção do Santiago a Mil e vários programadores em reuniões ininterruptas com outros programadores, de outros festivais. Foram os três espectáculos em que a cena e a realidade estiveram mais coladas uma à outra e — atenção — aqueles em que a composição teatral mais artificial se apresentava — revelando a sua própria realidade de mero jogo cénico.

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