O corpo deles é um documento vivo

O sonho da razão, a partir de Diderot, Voltaire, Sade e Voisenon, encenação de Luís Miguel Cintra
Lisboa, 5 de Julho * * * * 1/2
Enquanto Vivermos, de Pedro Gil, com Pedro Gil e Romeu Costa
Lisboa, 6 de Julho * * 1/2

Nos primeiros dias, o Festival de Almada apresentou três pesos-pesados da encenação em Portugal: Luís Miguel Cintra, com O Sonho da Razão (até 29 de Julho); Jorge Silva Melo, com Herodíades (até 14 de Julho); e Ricardo Pais, com O Mercador de Veneza (repõe em Outubro). De uma maneira ou doutra, são sacerdotes da herança dos clássicos. Em O Sonho da Razão, uma colagem de texto de vários autores, a que poderíamos chamar filósofos, a Cornucópia faz uma exploração do espírito libertário que precedeu a revolução francesa e a consagração do iluminismo. Numa referência à gravura de Goya intitulada «Os sonhos da razão engendram monstros», Luís Miguel Cintra, que além de encenar também interpreta um filósofo moribundo, expõe mais um capítulo da sua obra teatral contínua, feita de convenções próprias e originais, mas reconhecíveis e familiares, pondo o público em diálogo directo com as heranças vivas da cultura do Iluminismo, neste caso Sade, Voltaire, Diderot. O encenador apropria-se do discurso desses mestres para criar uma obra de arte pública, em forma de cena teatral, tal como um griot da África ocidental evoca a sua linhagem de cantores-sacerdotes e carrega a tradição oral em cada actuação. O contraste dos textos com os corpos e as vozes, mortais, destes actores (aliás, excelentes) não podia ser mais luminoso, por dar conta da imortalidade do espírito humano num tempo tão furta-cor como o nosso. O gesto artístico deste encenador (numa palavra, humanista) supera qualquer função cultural ou económica em que se queira acantonar a arte.

Em contraponto, na Culturgest, o Festival de Almada estreou uma obra que cita referências contemporâneas, do Taxi Driver ao Império dos Sentidos, de um poema de Harold Pinter à encenação histórica de Ah Q (uma peça de Jourdheil e Chartreux) precisamente pela própria Cornucópia (e com Jorge Silva Melo no elenco).

Enquanto Vivermos, de Pedro Gil, tem um dispositivo original: enquanto os actores fazem o espectáculo, é projectado uma filmagem do ensaio geral. Aqui e ali, o que vemos ao vivo corresponde tal e qual ao que vemos na tela; ali e aqui, não. O espectáculo é composto por uma série de vinhetas, a maior parte diálogos, outra parte coreografada, que nos contam a história de dois amigos no final dos anos setenta, em Lisboa, explorando a tensão sexual entre eles e os demais. Os diálogos e as acções físicas são muitas vezes crus, e podem parecer violentos aos espíritos mais sensíveis. Porém, o jogo entre verdade e mentira, ficção e realidade, sentimentalismo e ironia, deveria ser suficiente para proteger estômagos fracos.

1976 é o ano de referência da ficção, mas o dispositivo depressa demonstra que o que está em causa são os próprios actores. Tudo parece caminhar – é a cena final – para a evocação de um espectáculo feito pelos mesmos intérpretes há uma dúzia de anos, em que um deles infligiu vários golpes de bisturi no outro, num simulacro da lança que trespassou Jesus Cristo, e cujas marcas podemos ver agora num grande plano do tórax de Romeu Costa. Apesar da glosa à paixão de Cristo, a vitimologia não colhe. O tom resvala para a autocomiseração e as cenas são demasiado redundantes. Mais distância, e ainda mais ironia em relação aos factos, mais ficção, mais variedade e surpresa no aproveitamento do dispositivo seriam bem-vindos, e serão decerto, quando os actores voltarem a este material, que pretendem que os acompanhe como um manifesto performático.

Um comentário a O corpo deles é um documento vivo

  1. Pingback: Espectáculo de Honra « Estado do Crítico

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>