Desampara a praça

Os Assassinos, de Miguel Castro Caldas
Porto, 29 de Maio de 2011 { * * * * }
Já Passaram Quantos Anos, Perguntou Ele, de Rui Pina Coelho
Porto, 8 de Dezembro de 2011 { * * * } 

Estas duas peças fazem parte da processo de renovação do TEP iniciado há cerca de um ano. Na primeira, Os Assassinos, escrita a partir de um conto célebre de Hemingway, dois assassinos profissionais chegam para matar um homem, «o Sueco», que mesmo depois de alertado se recusa a fugir. A partir daqui, resumir o espectáculo é não compreendê-lo. As personagens vão dissolvendo a ficção convencional em reflexões pessoais sobre o episódio, e as falas típicas da literatura policial são transformadas em paráfrases que descarnam a situação esperada, fazendo ligações entre a recusa em fugir do «Sueco»; a preferência por não fazer nada de Bartleby (da novela de Melville); e a insistência em passar fome de O Artista da Fome (do texto de Kafka); tudo isto culminando num tiroteio. A peça é uma alegoria do impasse em torno das manifestações de 12 de Março de 2011 nas praças do país.

O autor e o encenador assumiram o desafio formal de romper as regras dos policiais. Exemplo disso, o cenário reproduz com detalhe maravilhoso um balcão de bar, não faltando um espelho enorme a pedir para haver tiroteio. A acção, porém, decorre de modo inesperado. O tal tiroteio, cheio de fumo e barulho, termina sem um cadáver estendido, nem tampouco um vidro partido. Não se deve interpretar a cena em demasia. Mas o resultado é uma frustração das expectativas do género (normalmente, os tiros deixam os corpos esburacados e os espelhos estilhaçados), que obriga a pensar duas vezes no significado da peça. O desafio ético (saber dizer não) e estético (fazer um tiroteio sem tiros) são uma e a mesma coisa.

Ficcionando a nossa existência como clandestina, Os Assassinos herda, de certo modo, o código secreto inscrito nos livros dos portugueses Dennis McShade e Dick Haskins, e que culminou em O Que Diz Molero, de Dinis Machado.

Já Passaram Quantos Anos, Perguntou Ele, o segundo espectáculo, retrata a relutante passagem à idade adulta das pessoas nascidas nos anos 70, que antes disso se fazia indo à tropa ou casando, mas agora se estende por anos, entre estudos prolongados, empregos precários e uniões de facto. (As mesmas do 12 de Março – outros há que terminaram o curso a tempo e horas, trabalham para grandes empresas, casaram e não vão ao teatro.) Rui Pina Coelho (colaborador do Público) buscou inspiração em Look Back in Anger, de John Osborne, estreado em 1956 no Royal Court Theatre, em Londres. A peça desenvolve-se a partir de uma intuição certeira: o fim do mundo, anunciado na internet e visto no cinema, é uma metáfora para o desejo de mudança e a sensação de bloqueio dessa geração, ou, de modo ainda mais prosaico, para o fim da juventude. Este espectáculo serviria precisamente para ritualizar essa mudança, tanto mais que parece ter acabado o mundo que permitiu à geração de 70 crescer devagar. Dito isto, a encenação e o texto tentam ser despretensiosos e directos, e por isso apresentam-se com certa crueza e frontalidade, acompanhada de uma banda sonora enérgica; mas o que podia ser uma virtude acaba por tirar tensão ao espectáculo: a cena fica lassa, as falas perdem direcção; o que se ganha em espontaneidade de traço perde-se em acuidade e caracterização. Porém, o vínculo desta ficção com o público é real e o seu sentido de urgência precioso.

Estas duas peças têm em comum uma articulação de géneros ficcionais: o policial e o filme catástrofe. Ambos são interrompidos por estratégias discursivas: no primeiro caso a auto-consciência das personagens; no segundo a referência filmes, notícias e factóides. Ou seja, lidam com as expectativas do público quanto aos géneros e com a experiência do público quanto ao dia-a-dia. Ambos fazem da encenação um modo de filosofar em cena, no caso a partir de textos, e ambos se referem indirectamente ao contexto político nacional.

Onde os autores como John Osborne, nos anos 60, tinham várias revoluções para fazer, o teatro engajado de hoje expressa-se num modo teatral e num universo cultural construído dentro do capitalismo como sistema: apesar da música rock e do teatro épico, a contracultura tornou-se um bem de consumo. Por isso, o tiroteio sem mortos de Os Assassinos é mais potente e subversivo que o retrato realista de Já Passaram Quantos Anos, Perguntou Ele.

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