As mil e uma mortas de Ciudad Juárez

 
 
La Casa de la Fuerza, de Angélica Liddell
Lisboa, 11 de Fevereiro [quatro estrelas – muito bom]

 

Muito resumidamente, este espectáculo começa com uma série de canções de amor tocadas por um grupo de mariachis, passa para um conjunto de cenas sobre violência conjugal e termina com a apresentação da história verdadeira das “mortas de Ciudad Juarez”, o assassinato em massa de centenas de mulheres nessa cidade fronteiriça do México. Grosso modo, a primeira parte seduz, a segunda horroriza, a última comove.

Apesar de fazer questão de mostrar as dores em público, equiparando-se às vítimas do feminicídio, e de se propor a mostrar um teatro do trauma, a um tempo pessoal e colectivo, o melhor de Angélica Liddell é o talento para criar o artifício teatral.

A competência para moldar a estrutura rítmica dos espectáculos, a habilidade na articulação de luz, som e movimento, a eloquência da mise-en-scène, se quisermos, e o modo como essas qualidades se amarram ao conceito do espectáculo são realmente fora de série.

Essas capacidades servem para melhor nos gravar na memória as coisas que interessam à autora. A duração, por exemplo, não é mero capricho. Durante cinco horas, o espectáculo conta com a verdade da passagem do tempo, do esforço físico, do suor, até do sangue, para nos colocar face a face com o tema: o uso da força na relação entre géneros. Esta montagem devia ser vista por todos os interessados na encenação e dramaturgia contemporâneas.

O tom de confissão pessoal adoptado desde o início pode enganar. Esta Liddell, a começar pelo nome que adoptou, é mais personagem que outra coisa. A “pornografia da alma”, de que fala, está muito bem, mas mesmo os actores “porno” fingem o prazer que sentem.

Com que objectivo fala então ela de si mesma? A exposição da vida íntima das actrizes pode ser maior ou menor, mas ela é indispensável à arte dos espectáculos ao vivo. O objectivo é o mesmo que Aristóteles detectou nas melhores tragédias: causar o espanto e a compaixão da plateia. Liddell encontrou uma maneira de reeditar a tragédia nos tempos modernos. Angélica, que se apresenta na primeira pessoa, não faz de Antígona, mas de uma plebeia que se oferece como mártir. A heroína invectiva não o rei, mas os reizinhos criados no seio do machismo. O crime que ela denuncia é o feminicídio, e o que ela defende é a liberdade da mulher.

O tema, porém, aconselha cautelas. Enquanto Liddell se apresenta em Lisboa, Madrid e Avignon, depois de temporadas no México, contando um desgosto de amor e de fuga para Veneza, a paisagem de fronteira do Novo Mundo parece não ser lugar para raparigas novas. Em Janeiro de 2011 foi assassinada uma mulher por dia. Grande parte das mulheres assassinadas eram maquilhadoras, operárias desqualificadas, migrantes, empregadas em linhas de montagem de fábricas norte-americanas que trariam más lembranças a Marx e Engels (mas a Ford não). Os homens que as assassinaram são “narco-machos”, peões no tráfico internacional de drogas, quer sejam polícias ou ladrões. Se o capitalismo foi inventado na Europa e exportado com sucesso, é em Ciudad Juárez que existe na forma mais selvagem.

Mas a crítica directa a um sistema, qualquer que seja, não interessa a Liddell. Os homens são maus para as mulheres, e isso basta.

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