A escrita deixa o escritor [Culturgest]

The Author, de Tim Crouch
Lisboa, 23 de Novembro ***** [excelente]

The Author é uma peça de teatro – quer dizer, uma obra de ficção escrita para ser interpretada por actores perante uma plateia. Como as melhores peças, trata-se de um jogo para elenco e plateia descobrirem o que aconteceu. Em inglês é mais fácil, porque“play” também é “jogar” e “brincar”. No caso, esta “brincadeira” foi pensada para ser “jogada” com regras diferentes.

Há duas bancadas, uma em frente à outra, e quatro actores no meio do público. Estes actores fazem de espectador, actores e autor de uma outra peça, representada neste mesmo lugar. Os espectadores fazem de público, mas não do típico público mergulhado no escuro, e mais de um grupo de pessoas que comenta e reage. A peça anterior, a tal de que se fala, tão violenta que no final do espectáculo os contra-regras passavam horas a limpar o sangue falso do chão, passava-se num país devastado pela guerra, onde um pai abusava da filha. As personagens contam como a violência fictícia foi afectando cada um deles, quase como se estivessem a pedir desculpas e a justificar as escolhas feitas. Ao espectador é descrita parte da escrita, dos ensaios e do enredo da tal peça, mas também da vida privada deste quarteto, e do que aconteceu a seguir, que os trouxe até aqui.

O texto é como um processo judicial em que o inquérito é da iniciativa dos implicados, e apresentado num conselho de vizinhos. Neste caso, os vizinhos são a plateia de um dos teatros mais influentes do mundo, o Royal Court, em Londres. The Author foi desenhado para consciencializar o espectador do seu lugar na rede de criação de imagens e pensamento originada neste e noutros teatros do género, na tentativa de superar a fórmula dramatúrgica em vigor durante os últimos 25 anos, rotulada in-yer-face theatre. Em oposição à cavalgada de violência explícita mais ou menos naturalista (mas feita com o uso de efeitos especiais), este espectáculo afirma-se como um espaço de confronto de ideias, de acções lentas mas imparáveis, do prazer tirado da pura presença dos actores.

A plateia vê que Tim Crouch escreveu um texto, a ser representado pelo próprio Tim Crouch (entre outros actores), onde este faz o papel de um autor chamado Tim Crouch, que escreveu uma peça onde os outros actores faziam os papéis de pai e filha, que teve efeitos devastadores na vida desses actores, de tal modo que Tim Crouch, a personagem, conta esta história depois de se suicidar, perante uma plateia. É um pouco mais complicado do que a maior parte das ficções dramáticas em cena, e certamente muito mais do que a produção cinematográfica mundial.

Esta mise en abyme – a narrativa dentro doutra narrativa – pode parecer apenas um jogo de espelhos sem finalidade. Mas a habilidade como é apresentada obtém as atenções de toda a gente, faz uso da presença em palco como instrumento de conhecimento e revela a nossa relação ambivalente com as imagens de agressão e sexualidade que circulam na indústria audiovisual e na dramaturgia actual. A peça é sobre o lugar do autor e do espectador de ficção neste universo. No final, o acto virtual de Tim Crouch é condenado pelo próprio, mas a agressão real do outro actor é perdoada. A ética das imagens é um dos temas mais importantes do nosso tempo e este espectáculo uma apresentação certeira dos seus paradoxos.

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