O que vês, não mais verás [CACE; TeCA]


A Lenda de Gaia, de José Carretas, pela Panmixia
Porto, 15 de Outubro *** [bom]
Belonging, de Peter Cann, pelo Teatro do Montemuro
Porto, 28 de Outubro ** [razoável]

A Lenda de Gaia é a antiquíssima história do resgate da Rainha Aldora por D. Ramiro II, de Leão, das garras do califa Alboçadam (Almoçadão, nesta versão em rima de Carretas). A fábula, de origem bizantina, consta nos Livros de Linhagens e foi tratada tanto por Herculano como por Garrett. Quando Ramiro descobre que Aldora estava contente da vida no castelo mouro sobre o Douro, e mesmo depois de salva ainda amava o infiel, entrementes morto, o rei cristão vê-se obrigado a afogá-la.

O triângulo amoroso é interpretado por três actores, com a ajuda de uma dúzia de livrospop-up de onde saltam castelos, jardins e barcos de papel, entre outros cenários. Os actores contam a história com ironia e comicidade, ora encarnando as várias personagens (pronúncia galega para Ramiro, algarvia para Almoçadão, tripeira para Aldora), ora manipulando objectos em miniatura (um cântaro para a ama, um djembépara o sentinela, uma candeia para o cristão, um bule moçárabe para o mouro, um galheteiro para a rainha).

Em Belonging, um talhante que usa o negócio das carnes como fachada para o tráfico de crianças é apanhado, para horror da própria filha que só então descobre quem é o pai e ter sido cúmplice dos crimes, pois entretinha os miúdos contando lendas e fábulas. Este enredo é apresentado em diálogos alternados com números musicais e é falado em duas línguas – trata-se de uma co-produção do Teatro Regional da Serra do Montemuro com uma companhia inglesa. O tema é grave e pede tudo menos ingenuidade. Mas enredo, personagens e actores são compostos sem ironia nem contradição.

A caracterização das personagens é limitada e as acções que lhes cabem não ajudam, o que num mundo que consome bom drama de manhã à noite – inclusive na forma de noticiário televisivo – é uma desvantagem séria. Os números musicais são demasiado pios. Nota-se a grande dificuldade em lidar com um tema tão incómodo.

Estes dois espectáculos têm coisas em comum, entre as quais a ambição de dialogar com o imaginário regional, mas são muito diferentes quanto ao tratamento dos temas, em especial no modo como lidam com o conhecimento do espectador comum. A Panmixia cria cumplicidade: usa uma lenda milenar, versos saborosos e livros mágicos.Belonging é uma fantasia gore que não dá conta da potência surrealizante dos contos tradicionais, nem da perversidade larval do abuso de menores. Pior, a mistura de português e inglês, as tentativas de humor físico e os números musicais não têm graça.

O aspecto crucial, porém, é outro. Enquanto os actores da Panmixia entram e saem dos papéis com a facilidade de crianças a brincar ao faz-de-conta, e actuam sempre com grande ironia em relação à própria função, ao texto que dizem de cor e às acções que memorizaram, o elenco luso-britânico não consegue tirar as máscaras de importância e autocensura com que se lançou neste trabalho. A estrutura lúdica de A Lenda de Gaia condensa valores universais numa mitologia local. Belonging tropeça nas competências de cada artista sem fazer uma síntese formal.

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