Dar o corpo ao manifesto [TRAMA]

TRAMA (5.ª edição)
Furlan/Número 8, de Massimo Furlan
Porto, 15 de Outubro [Três estrelas – bom]
Regina contra a Arte Contemporânea, de Paulo Castro
Porto, 17 de Outubro [Quatro estrelas – muito bom]

O TRAMA é um festival de performance art e live art que tem de tudo um pouco, valendo mais pelos conceitos apresentados do que pelas actuações em si. Em Furlan/Número 8 o artista plástico Massimo Furlan reproduz todos os passos de Madjer durante a célebre final Bayern de Munique-Futebol Clube do Porto (1987), quando o argelino marcou de calcanhar. Nos ecrãs vê-se uma parte do jogo real intercalada com a actuação de Furlan, nos rádios ouve-se a reconstituição do relato. O público faz de tiffosi, com direito a onda e tudo. Em Regina contra a Arte Contemporânea, Paulo Castro e Regina Fiz (Mateo Feijóo) começam por fazer de conta que apresentam uma conferência sobre arte pondo em causa a relevância daperformance num mundo repleto de pornografia e terror, mas acabam num antimanifesto cénico em que põem os corpos à mostra, Castro chicoteando-se com o cinto, Regina beijando espectadores.

Furlan… é, diz o próprio, uma tentativa de entrar na história, levando consigo o espectador anónimo, para juntos reviverem um episódio heróico. Regina… bem pode apresentar-se como um catálogo S&M, mas o que os performers fazem é revelar a ligação directa entre o conforto ocidental e a violência pública, seja ela exercida na forma da guerra ou do sexo pago. Furlan não é actor nem encenador, o que prejudica muito a actuação, tosca e previsível. O trabalho deste artista não é de ficção, claro, mas de restauro de acontecimentos reais da chamada cultura de massas, o que dispensaria o trabalho de interpretação. Mas o número reduzido de espectadores – que mesmo assim deram o corpo ao manifesto, celebrando os golos como deve ser – comprometeu o efeito. Já Paulo Castro é um actor nato, que tanto faz Gil Vicente como Heiner Müller, e Regina Fiz um belo travesti. O Latino estava a abarrotar, com muitos espectadores fãs do trabalho destes artistas. A performance foi irrepetível, devido também à impertinência de um dos membros da plateia, convencido de que qualquer um podia fazer aquilo. Tanto deu nas vistas que acabou por cheirar a sola da bota de Paulo Castro. Não, não é para todos.

Furlan… não só desperdiça energia em tempos de crise como branqueia a violência e a corrupção do mundo do futebol, já para não falar de fuzilamentos em estádios que pudessem vir à memória. No entanto, a batalha de Massimo é outra. O performer tenta ultrapassar a frustração do cidadão por ter o corpo ausente de eventos tão distantes e presentes quanto uma final. O italo-suíço parece um pequeno David contra o Golias mediático, tal como Paulo Castro e Regina Fiz atiram pedras de derrisão à arte contemporânea. Ambos os espectáculos tentam resolver o problema de criar significado e relevância aqui e agora, num universo feito de eventos mediados por outrem. Mas a actuação de Castro e Fiz mete mais o dedo na ferida. Furlan… é formalmente regrado, mas monótono. Regina… faz pouco das regras, mas surpreende a cada passo. Incomodando, dá mais espectáculo.

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