Para salvar a pele e o espectáculo [PANMIXIA]

 
Desafinados, direcção de José Carretas
Porto, 27 de Agosto

O objecto de desejo deste espectáculo é, como o título indica, a desafinação, propriedade observável nos mais diversos campos de actividade humana. A equipa de criadores tentou criar uma estética a partir das imperfeições e insuficiências de um determinado número de casos, entre os quais os de alguns artistas, partindo do princípio que o erro, na arte como na vida, é uma coisa relativa, e que a falha de hoje poderá ser a convenção de amanhã.

Os erros na fala, no movimento e na imaginação são trazidos à cena como matéria-prima. Pode alguém errar nessas coisas? A discussão implícita é (não só mas também) sobre o tipo de coisas que merecem ter estatuto de objecto artístico, e o exercício de autoridade que decorre dessa atribuição de estatuto. Para o crítico, o trabalho fica dificultado. Como pode ele apontar falhas a um edifício feito de falhas? Resta-lhe tentar perceber o que acontece.

No espectáculo é apresentada uma série de números em que a comicidade do desacerto de uns actores é devolvida a quem se riu primeiro, ou seja, aos outros actores e ao público. A partir de situações, tipos e pessoas reconhecíveis, mas também em cima das peripécias da criação artística, o espectáculo cobre a plateia de uma fina ironia. O humor vem das omeletas sem ovos que os desafinados conseguem fazer, a todo o momento, para salvar a pele e o espectáculo. Com irreverência a gosto, técnica q.b. e uma pitada de fantasia, a Panmixia oferece um espectáculo tão mais sedutor quanto mais lida directamente com o pensamento, criticando quaisquer ideias feitas e propiciando aos espectadores a participação num jogo mental sobre o certo e o errado na arte. Não estão interessados no bom comportamento estes criadores. Mas, como diz uma das actrizes, eles não existem, isto é, não têm importância, e por isso se podem rir dos outros e de si próprios.

Tendo andado com a casa às costas desde que foi criada, a Panmixia trabalha com actores amadores, temas populares e reconstituições históricas, entre outras coisas teatralmente incorrectas. A pior delas é o sentido de humor, o que, já se sabe, não permite a ninguém qualificar-se enquanto artista. Para piorar, se há grupo que, apesar da edição em livro das peças montadas e de artigos científicos sobre os temas em causa, não se dá ares de importância, é este. E mesmo com actores sem medo algum do ridículo, com uma desfaçatez impagável, e disponibilidade total, não se pode dizer que a companhia figure num panteão. É por isso uma coincidência significativa que transformem uma oficina de reparação automóvel (da antiga Central Eléctrica do Freixo) numa sala de teatro onde ficarão dois anos, e a inaugurem com uma reflexão activa sobre desajustes e avarias, convidando o público para ir lá rir com eles disso tudo e, em especial, da falta de coração dos afinados.

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