Pontinha, Pontal, Montemor-o-Velho [CITEMOR]

 
O Decisivo na Política, de Jorge Andrade
Montemor-o-Velho, 14 de Agosto

O título completo deste espectáculo é O decisivo na política não é o pensamento individual, mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros, uma frase de Bertolt Brecht. O espectáculo apresenta uma colecção de excertos de discursos feitos por personalidades históricas, de Allende a Salazar, de Lutero a Luther King, de Mao Tsé-Tung ao Dalai Lama. Depois da primeira leva de textos, Jorge Andrade nomeia os líderes que foram citados e os que ainda falta citar, mas não revela a quem pertence cada discurso, deixando para o espectador o jogo de descobrir de quem são afinal as palavras ditas. O risco que o público corre é o de dar por si a aplaudir as palavras de Hitler, tal como aliás muita gente na época em que foram originalmente pronunciadas; e a censurar as de Mário Soares, por exemplo. Privando a plateia do conhecimento prévio dos autores de cada discurso, o espectáculo impede a formulação de juízos apressados sobre quem são os heróis e os vilões da história universal. Por outro lado, o actor apropria-se do que foi dito noutros contextos e assim, paulatinamente, vai retirando os excertos das suas circunstâncias originais, para contextualizá-los à sua vontade. Se começa de ar grave e fato e gravata, como os típicos discursantes de congressos partidários, vai apresentando soluções cada vez mais delirantes para a enunciação dos discursos, até acabar nu, enrolado com um urso polar de peluche, enquanto no ecrã se sucedem as infinitas combinações possíveis para as cores de fato dos mesmos políticos do início.

Jorge Andrade tenta pensar a cabeça dos outros, nomeadamente a descrença geral nas palavras políticas, resultante da sua profusão e desenraizamento. O espectáculo materializa em palco um zapping da história por palavras proferidas em ocasiões de guerra, fome, opressão, sucesso e desencantamento, agora à disposição de todos, e apenas à distância de um ou outro clique. Cortados e colados assim, os textos são como peças de um catálogo de discursos pronto-a-dizer. Ao desmontar assim a importância das palavras, mostrando a eficácia dos gestos e da cena, o espectáculo diz que contam mais os actos que as palavras.

Dito isto, o que faz o espectáculo? Contrapõe a esse tipo de discursos um outro discurso, agora cénico, de exposição da crueza, egoísmo e indiferença do cidadão europeu. Contudo, estamos ainda no plano da linguagem e da representação. Poderá o teatro fazer doutro modo? Qual o contexto produtivo e qual o valor ideológico implícito (de que fala a folha de sala) desta obra? O circuito restrito em que o espectáculo é apresentado, a curta duração, os parcos recursos, o elenco de um homem só – tudo isto mostra como este acto teatral, a par de outros do género, é um pequeno David contra os Golias retóricos que enfrenta, e como as condições de criação artística da Mala Voadora são insuficientes para o embate estético e ético a que se propõem. O valor da retórica política é relativo, claro, mas o valor da retórica artística também. Armada de metáforas e anáforas, esta companhia está destinada a mais altos voos, assim seja apoiada, e a actuar nas praias e pistas de aterragem, nos campos, nas ruas e nas colinas.

Adenda: Lula da Silva, no começo de um famoso discurso perante milhares de pessoas que erguiam bandeiras esvoaçantes, no Forum Social Mundial de Porto Alegre, quando todos queriam saber se ele iria extremar ou moderar a posição ideológica do PT, pediu aos companheiros que baixassem as bandeiras, de modo a que todos, em especial os mais afastados, pudessem ver o palco, e assim todos se pudessem ver uns aos outros, finalmente. Este é o ponto em que a retórica, a metáfora e os actos coincidem.

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