O verdadeiro Oeste [CITEMOR]

 
10.000 Anos, de Carlos Fernández López
Montemor-o-Velho, 8 de Agosto

10.000 Anos foi feito em apenas dois meses, o período de residência de Carlos Fernández López no Citemor. Em cena, ao ar livre, no castelo, um patriarca cego faz de mestre-de-cerimónias, acolitado por uma trupe saída do turno da noite de Las Vegas directamente para o almoço de família. A casa vai ser demolida, mas o patriarca prefere arder com ela.

À esquerda, numa área paralela um pouco mais distante, uma mulher de machado na mão vai desfazendo a mobília para alimentar a fogueira. À direita, um dos artistas desenha figuras e imagens mencionadas pelos actores, que são projectadas numa tela ao fundo. O pintor alterna essa função com a de baixista e também assume uma das vozes do texto, um poema trágico inspirado num episódio da Bíblia. Povoam ainda a cena uma starlette de lantejoulas vermelhas e um baterista cheio de pinta (que intervêm), e uma guitarrista de vestido florido e chapéu de cowboy, que fala com a guitarra (Ikerne Giménez, célebre na cena musical espanhola). Pelo espaço estão espalhados vários microfones, que os actores vão usando para contar a história, a maior parte em solilóquios. A fábula começa por ser a de uma casa, mas revela ser a da cidade de Jericó e, por extensão, da comunidade judaico-cristã. O pai de família, com ar de ter passado por muitos tiros e mesas viradas, é o retrato fiel de uma divindade em queda.

O espectáculo é um misto de recital de poesia e de performance, com amplificação e distorção de som, expondo a crueldade do Deus do Velho Testamento com beleza e sentido. Os seus criadores não querem certamente recrutar fiéis, mas tão só congregar público e criadores na celebração da perda. É o espírito do fim de uma época que os actores retratam com o seu misto de raiva e desalento. As próprias palavras estão condenadas, a julgar pelo microfone lançado às chamas. A única salvação possível é o som da guitarra eléctrica, que alivia momentaneamente as mágoas. Com um pregador do deserto do Nevada, duas oficiantes sexy e um coro de bateria, baixo e guitarra, 10.000 Anos parece uma missa eléctrica que explora o mistério da fé em estilo neo-western (o que está muito certo, pois aproxima-se de uma paisagem mítica mais credível do que as habituais reconstituições bíblicas).

Carlos Fernández López e companhia conseguiram apresentar um trabalho com grande unidade, aspecto de onde o espectáculo tira a maior força, mas com menos riqueza e diversidade do que seria possível se, eventualmente, em vez de uma residência inevitavelmente curta, tivessem um ano. Também mereciam mais público. A figura de um messias impotente e incompreendido, acompanhado por anjos vingadores em botas texanas, é figura dos próprios criadores teatrais que vagueiam por Montemor indiferentes à vida local, apesar de ocupar os espaços da vila. O Citemor parece um concílio nocturno de seitas obscuras, cada uma apresentando o seu culto herético a uma pequena comunidade de artistas, programadores e intelectuais, de onde resulta, apesar da imagem romântica, mais uma mostra do duvidoso que uma celebração do excelente. 10.000 Anos está a meio caminho. E em todo o caso se as religiões alternativas não o convencem tem sempre a doçaria conventual para praticar os velhos ritos.

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