Cena de pugilato na Câmara [CITEMOR]

Boxeo para Células y Planetas, de Angelica Liddell
Montemor-o-Velho, 29 de Julho

Boxeo para Células y Planetas é uma acção originalmente criada para um museu (no caso o MUSAC, de Léon y Castilla, cujo slogan é Museo del Siglo XXI), aqui apresentada num salão da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho. Angélica Liddell anuncia que não se trata de um espectáculo, mas da reprodução de alguns projectos de performance encontradas na mochila de uma personagem fictícia, de nome Pascal Khan.

As preocupações de Pascal vão da biologia molecular à política internacional, com especial destaque para os massacres e genocídios do final do século XX. Logo no começo, presenteiam-nos com Forever Young, uma canção de 1984 dos alemães Alphaville. Angélica expõe os projectos e Gurmesindo Puche, parceiro de Angélica nesta aventura (e na companhia Atra Bilis Teatro), executa-os. No final, somos brindados com um pequeno vídeo que Pascal terá filmado com os pais. Na verdade, quem faz dos pais de Pascal são os pais de Gumersindo. Os indícios demonstram que, apesar de aparentado com uma conferência, trata-se apenas um simulacro, distorcido, desse dispositivo. As preocupações de Pascal ecoam, é claro, as preocupações de Liddell com a morte e a vida, e a recusa dela em crescer, procriar, envelhecer e morrer, como modo de lidar com a insatisfatória existência na Terra. Liddell pretende fazer parte dos bufões do século XXI, escarnecendo do mundo e colocando-se de fora da ordem mediática (que a todos encanta), aproveitando uma deformação física ou psíquica, que os exclui à partida, como desculpa para poder dizer as verdades sem ser castigado. Diz palavrões, apela ao aborto, insulta políticos, ditadores e genocidas, tira a roupa, morde-se toda, que jamais porá um filho neste mundo, que não lhe interessa o que os espectadores pensam, que é uma vergonha pôr os velhos em lares. Tudo isto é uma mistura de impotência e ingenuidade que não adianta nada na sociedade cínica em que Angelica Liddell nasceu. Não causa escândalo, não recruta homens e, sobretudo, não causa maravilhamento. Tudo o que se diz é mais do que sabido, e o problema, hoje, é o que fazer em seguida, não que o mundo é uma merda. O espectáculo não propõe soluções, a não ser a de nunca mais ter filhos, e não tem de propor nada, é certo, mas a revolta esvai-se mal acaba a performance, e ingloriamente. Como objecto sensual, os minutos vão-se vagarosamente, e o tédio instala-se depressa de mais, sem que as palavras, os corpos ou as imagens nos arrebatem realmente. O mais interessante de tudo isto é o Citemor continuar a dar oportunidade para explorar os limites e as imperfeições das artes cénicas.

Este espectáculo é mais um sintoma da dificuldade em criar algo novo e contemporâneo, que dê conta do caldo de cultura tecnológico em que estamos imersos, do que um objecto de pensamento e sensibilidade, que se contraponha a essa esfera electrónica de sangue e código binário, como parece ambicionar. Será? Vamos continuar a apalpar terreno.

Um comentário a Cena de pugilato na Câmara [CITEMOR]

  1. olha o jorge!
    descobri a angellica liddell há pouco. porque me ofereceram um livro que ainda me vão oferecer hihi
    e estive no musac há pouco. e as tapas de leon são boas hihi
    também estou por aqui agora. mais uma vendida
    vou adicionar…
    beijo
    sandra

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