Saqueia mais quem ri por último [S. JOÃO]

O Saque, de Joe Orton, pelo TNSJ
Porto, 24 de Maio de 2007

O Saque, amanhã e depois, será em Lisboa. A última fala da peça é clara de sentido: «Há que manter as aparências», diz uma golpista aos outros. Isto enquanto velam o corpo da mãe, depois de mandarem prender o pai, e calculando ficar com parte do dinheiro do assalto ao banco local. Quem leva as libras é o inspector policial, não sem a promessa de mais tarde as partilhar. Todos estes farsantes merecem a simpatia e, no caso do inspector Truscott, talvez a cumplicidade dos espectadores. Afinal, ladrão que rouba a ladrão… No final, a sucessão de golpes e reviravoltas é mais do que suficiente para o cadáver da mãe ressuscitar, enquanto o pano desce, e olhar o público nos olhos, esperando uma reacção. Sorrisos e aplausos, naturalmente. Ninguém é inocente. A peça não incita à anarquia ou à revolta contra o sistema. O regime do espectáculo é farsesco, pois, e vai com o ar dos tempos. Se a relevância do tema de um espectáculo no dado momento histórico em que é apresentado vale alguma coisa na apreciação que se faça, então O Saque recomenda-se em absoluto. É ou não verdade que o país está a saque, como aliás a cidade, os teatros, a crítica, ou o público? Mesmo um olhar célere pelas notícias do dia leva o mais incauto dos cidadãos a desconfiar das aparências… e é no meio deste velório que se faz contas ao dinheiro. Mas não é só por isso que este espectáculo é recomendável. A limpeza da cenografia, adereços e figurinos, a elegância plástica dos gestos, a afectação semi-britânica das falas, enfim, todo o tom da encenação assenta como uma luva branca no fingimento das personagens, que se revelam um bando de embuçados mais ou menos involuntários. Fazendo da cena um lugar de jogo prazenteiro, o grupo de actores tem a oportunidade de levar a cabo as maiores facécias e escapar-se com um saboroso rol de crimes e pecadilhos. Uma certa féerie da circulação de objectos e das entradas e saídas de cena recordam-nos que tudo é simulacro, e que estamos, afinal, num teatro. Não é o facto menos importante desta criação, antes pelo contrário. De embuçado em embuçado, a marca de cepticismo dos humoristas perdura mais que qualquer vontade de acção. Para além da actualidade do tema (o saqueamento da comunidade), o jogo de enganos e aproveitamento pessoal da peça dá um óptimo material dramático (pleno de intenções escondidas, acções inesperadas e revelações finais), que serve a experimentação das regras de uso da plasticidade cénica, por um lado, e a contínua referência às condições da prática teatral no nosso contexto cultural, por outro (se alguém quiser procurar correspondências). Mas se tudo continua na mesma, desde que se pague ao polícia e se mantenha a ilusão, o que fazer? Nada, ou talvez rir.

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