Balanço de 2006

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1. Todos os que caem, de Beckett, encenação de João Mota, uma produção do Teatro da Comuna, vista em Coimbra, no TAGV; Todos os que caem foi muito feliz na evocação de uma espécie de estúdio de rádio, que é o palco, no meio do qual se concretiza a visão de João Mota do espaço e corpos inventados pelo texto de Beckett. As performances inspiradas dos actores materializaram com brilho e naturalidade o teatro do autor irlandês, e a memória do teatro radiofónico, desta feita com efeitos sonoros à mostra do ouvinte, só aumentaram a magia do espectáculo.

2. Otelo, de Shakespeare, encenação de Marco Antonio Rodrigues, uma produção da Companhia Folias d’Arte, de São Paulo; embora distante do contexto original, um galpão num bairro degradado do centro de São Paulo, esta montagem trouxe aos salões de Lisboa e Porto um mouro de Veneza concreto, corroído pelo estigma de ser preto, velho e soldado num mundo de jovens nobres, belos e brancos. A encenação, poderosa como uma máquina de guerra, foca o uso e abuso da identidade com o fito de agir sobre as representações culturais do público. Na cena final, uma cenário de espelhos desdobra pelo infinito as imagens dos protagonistas e põe o espectador no palco.

3. Peer Gynt, de Ibsen, encenação de Antonio Mercado, uma produção de O Teatrão e do Curso de Teatro e Educação da ESEC, visto no Porto, no palco do TeCA, e em Coimbra, num pavilhão da escola; num cenário feito com algumas bobines de madeira, de vários tamanhos, que rolam e rodam para compor tanto os fiordes da Noruega como as pirâmides do Egipto, a encenação moldou o espaço vazio com a expressividade dos actores, magistralmente dirigidos para contar o percurso de Peer de grande sonhador a pequeno imperador solitário, alienado de qualquer responsabilidade pelo seus actos. A actuação fazia ferver o pensamento.

4. La Sagra del Signore della Nave, de Pirandello, uma produção do Teatro di Roma, apresentada no TeCA; Os romanos puseram em arena a católica Europa do sul e seus ícones sagrados e profanos, da matança ritual do porco à adoração do corpo do senhor sacrificado, manipulando as tensões do texto para que rebentassem no clímax do espectáculo, tudo reinventado, num cenário lembrando circo e romarias, com humor, ironia e seriedade onde cabia, partindo do tradicional reconhecível para o gozo da novidade.

5. Armadilha para Condóminos, encenação de Ricardo Alves, do Teatro da Palmilha Dentada; Esta Armadilha não foi mais um conjunto de vários sketches com tiradas brilhantes e personagens impagáveis, o que já seria bom, mas um espectáculo que, indo uns passos além do non-sense, explorava uma situação simples para fazer detonar nas mãos do espectador o riso de si próprio. Quando, no final, os sacos de lixo pretos que as personagens tentaram ocultar se multiplicam miraculosamente, talvez para soterrar os condóminos, a metáfora fica livre às interpretações de cada um, mas encaixa como uma luva nas aspirações e rabos-de-palha do país.

Menções especiais. Dois outros espectáculos são assinaláveis, por serem coisas que tentaram inscrever-se na história e no quotidiano de modo especial: Curto-Circuito, uma produção do Teatro Plástico, o requiem de protesto que, partindo do Convento de São Bento da Vitória, culminou na ocupação simbólica do pequeno auditório do Rivoli Teatro Municipal; e A Vida como Exemplo, da Companhia de Teatro de Braga, um desnudamento brutal dos processos do grupo, partilhado com o público sob a forma de um espectáculo absorvente, num momento de transição do Espaço Alternativo PT para o Theatro-Circo.

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[Na versão publicada, Todos os que caem foi retirado da lista por estar incluído no balanço de Lisboa e os restantes espectáculos subiram um lugar.] 

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