Missa negra, coração branco [TNSJ; AS BOAS]

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Os Negros, de Genet, pelo TNSJ
Porto, 30 de Setembro de 2006
Quatro Horas em Chatila, de Genet, pel’ As Boas Raparigas…
Porto, 4 de Outubro de 2006

Imagine um bando de rapazes, à volta de uma mesa, a decidir se protestam ou não contra «Os Negros». No texto, um grupo de negros representa, entre si e para uma plateia de brancos, o julgamento do assassínio de uma branca (e a reconstituição do crime perante a corte branca), enquanto fora de cena decorre, em paralelo, uma rebelião – negra. Os rapazes pegam nas fotocópias, distribuem os papéis e começam a cerimónia. Que pensarão eles enquanto lêem e por que razão se vão dirigir ao teatro, com uma faixa «contra o racismo anti-branco»? De rosto tapado, talvez para poder ver a peça noutro dia, lá foram representar o papel de supremacistas brancos o melhor que podiam. O jogo do teatro dentro do teatro (que a peça faz) ganha um inesperado prólogo. «Sem nós a revolta deles não faria sentido», diz lá dentro a pretensa Rainha aos negros. «Nem existiria, sequer.» Genet não toma partido, antes pelo contrário. A rebeldia do autor é tão radical que critica a própria revolta e, sendo um esteta, em grande estilo. O jogo de xadrez é perpétuo, e o importante é entrar. No espectáculo, os actores são belos e talentosos, e por vezes o jogo teatral fica claro, mas a maior parte do tempo estão desligados do ritual sagrado que Genet inventou. O espaço cénico deixa de surpreender. A cadência das falas é monótona. A metamorfose dos actores é rara. O tom emocional é frio. Se é isso que se pretende de uma missa, muito bem. Mas não se tratava de uma missa negra?
A verdadeira conspiração está no Estúdio Zero, onde depois de uma primeira parte mágica e encantatória, as actrizes aparecem de jeans e t-shirt para completar a récita, espalhando as fotocópias do texto por cima de uma mesa (que antes tinha sido catafalco), agora espectadoras do seu trabalho, do texto de Genet, da realidade no Líbano e do nosso papel de espectadores. Continua o jogo do caçador caçado, desta vez deslocando o olhar de Genet para o coração da sociedade ocidental, de onde se vê que a civilização europeia vai nua. A reportagem de Genet é ensaiada para repor em cena o trauma da guerra, como modo de explorar as imagens e sons da memória, constituídos por estilhaços de texto e voz, imagens documentais, ruído de bombas, tiros e emissões de rádio, recompostos por um grupo de actrizes numa pacata cidade média europeia, o Porto, bem se vê. É um laboratório experimental para revolver o imaginário de um ocidental e o lugar da guerra do Líbano na consciência política. O encenador explora a beleza na memória da guerra, talvez em busca de consolação. A beleza vem do erotismo da revolta armada que sobreviverá aos nossos filhos. Aqui sim, a escuridão e a luz reinventam o espaço a cada momento, o movimento dos actores sugere geografias próximas e distantes, a singeleza dos figurinos provoca a imaginação, e as actrizes dominam a partitura de som e significado (das palavras), graças a um fluxo incessante do monólogo interior (em especial Maria do Céu Ribeiro, graciosa e implacável), fazendo jus àquele que se reconhece ser o universo estético de Rogério de Carvalho.

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