O fantasma de festivais passados [CITEMOR]

XXVIII CITEMOR
Autocompaixão e Aproximácion a la idea de desconfianza, criações de Rodrigo Garcia
Montemor-o-Velho, 21 de Julho de 2006

Estas duas «propostas», como são designadas na informação distribuída, foram criadas numa «escassa semana» e «num curto período de dez dias», respectivamente. O autor deixa claro na folha de sala que não são obras acabadas, mas dois «trabalhos em processo», criados «à margem de estratégias puramente comerciais», o que «representa um privilégio» face aos «formatos» que «geralmente o mercado impõe», classificando o teatro como «artigo à venda, mercadoria». As citações devem-se ao facto de o texto extra-espectáculo ser tão importante para apreciar os manifestos artísticos de Rodrigo Garcia, como as performances em si. Infelizmente, pela boca morre o peixe. Os dois pequenos trabalhos são, por enquanto, a repetição da fórmula que celebrizou o criador por toda a Europa. O número principal: Rodrigo Garcia faz os actores untarem-se com mel ou lambuzarem-se com leite (este ano não houve vinho), de tal modo que torna impossível às criaturas virem agradecer os aplausos. Faz-se um monólogo cómico sobre a condição humana do consumidor de produtos industriais. E a população amiga de Montemor-o-Velho entra a meio para formar um quadro vivo. Os actores são capazes de fazer coisas incríveis, que não se aconselha a ninguém repetir em casa. As criações são um sucessão de números de circo, com animais e actores adestrados por igual, a que não faltam a mulher barbuda e o palhaço que molha os outros. E é como se, levados pelo tédio, um grupo de jovens adultos tentasse sair da rotina, e se dedicasse a experimentar coisas arriscadas, brincando aos freakshows de inspiração televisiva. Só falta quem coma vidro ou engula espadas. Corrijo: no início de Autocompaixão a actriz espeta um anzol na boca e fica presa a uma cana de pesca durante minutos. Claro que nada disto choca verdadeiramente ninguém. Todos sabem que são actores que a seguir vão tomar banho e calçar as sapatilhas de marca. As considerações tecidas no texto projectado não são convincentes e, à parte as piadas, o objectivo do trabalho parece ser apenas a pesquisa formal. A experimentação veio a tornar-se a imagem de marca do festival. A aparência precária do Citemor faz parte do charme do festival, e é natural e deliberado que os espectáculos e o convívio com os criadores se confundam, noite fora, no melhor que estes eventos têm. Mas a vitalidade da programação Citemor não parece aumentar com o carácter mais experimental das propostas, e a festa pareceu mais modesta. Ambos os espectáculos têm muito sentido de humor, quadros surpreendentes, momentos comoventes e declarações bombásticas; o segundo tem até uma longa dissertação filosófica. Mas a ambos falta argumento: essa fusão harmoniosa entre as acções e o pensamento. Como seria injusto tecer uma crítica teatral a dois objectos inacabados, alegarei que esta crítica está em processo. Felizmente não abre nenhum festival.

Em resumo: duas obras inacabadas abriram o programa experimental do Citemor, que parece fechar-se cada vez mais em si mesmo

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