Diz o rinoceronte quando fala… [REIMS]

Rhinocéros, de Ionesco, e Ionesco Suite, a partir de várias peças do autor, pela Comédie de Reims
Porto, 8 de Julho de 2006

«Não capitulo!» é a frase com que o protagonista termina a peça, depois de iniciá-la, três actos antes, descomposto, semi-ébrio de uma farra, e com o atraso de meia hora que lhe valerá ainda uma descompostura por parte do amigo, Jean. A insubmissão acidental parece propulsionar os protagonistas de Ionesco, e certamente Bérenger, o inocente da aldeia inspirado, e bem, por Charles Chaplin e Buster Keaton. A caracterização dos grupos de cidadãos na praça da cidade pequena e no escritório é primorosa, quer nas atitudes de cada personagem quer na música ou na composição do movimento. O grupo de actores é realmente um ensemble, sem figuras menores mesmo que tenham menos falas. E é com a exactidão e os interesses aparentemente racionalistas desse conjunto de personagens que o nosso herói por acaso vai contrastar cada vez mais, à medida que Jean, e depois todos os outros conterrâneos, se forem transformando em ameaçadores paquidermes. A alegoria da transformação dos amigos e companheiros em rinocerontes não é unívoca, e isso permite que as metáforas se apliquem aos contextos de cada um. Bérenger permanece um homem livre, mesmo quando vê, um por um, todos, a entrar na manada, e a fazer parte do rebanho. A cedência ao totalitarismo é gradual e a composição da evolução de cada personagem é sofisticada e, felizmente, contraditória. Os rinocerontes são um pouco humanos, e vice-versa. Os três actos de Rhinocéros passam então com a precisão do trote, senão a galope. O humor das situações mais graves é bem preservado e cada piada tem um lado sombrio que nunca se ausenta. «Com um texto burlesco, jogo dramático. Com um texto dramático, jogo burlesco» é a regra de ouro de Ionesco. Em contraponto com a obra longa, a sequência de textos apresentada na forma de pesquisa de palco, com maior proximidade dos espectadores, surpreende pelo dramatismo. As falas mais absurdas são jogadas com perfeita convicção por parte dos actores, tornando claro o jogo de Ionesco. As diferentes peças entrelaçam-se umas nas outras com clara unidade temática. Se no Rivoli o tema era a submissão à comunidade, no palco do São João o que está em causa é a capitulação perante a família ou dentro do matrimónio, entre o casal (e também na relação entre professor e aluna d’ A Lição, claro). Além disso, a suite demonstra também o perfeito à-vontade deste colectivo artístico com recursos e espaços cénicos diferentes. Em ambas as sessões, o jogo teatral entre actores é bem conjugado com os efeitos cenográficos, sonoros e visuais, para tirar proveito e servir a criação original do autor dramático, dando lugar a um teatro vivo. A imaginação do colectivo artístico de La Comédie de Reims, encabeçada por Demarcy-Mota, é absolutamente sedutora. Felicitado fica o público, por poder ver estes espectáculos.

Em resumo: «Uma ideia simples, uma progressão simples, e um desenlace»: as leis fundamentais do teatro, segundo Ionesco, são servidas pelo jogo ora burlesco, ora dramático dos actores e pela encenação bela, brilhante e bem compassada de Demarcy-Mota

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