Otelo não é ele nem o outro [FOLIAS]

XXIX FITEI
Otelo, de Shakespeare, pelo Folias D’Arte
Porto, 9 de Junho de 2006

O Folias D’Arte praticamente remodelou o TeCA para a apresentação de Otelo, alterando o ponto de vista habitual sobre os espectáculos. À entrada, nas montras, há pessoas à venda. Veneza tem de tudo, e tudo tem o seu preço, parece dizer esta primeira frase cénica do espectáculo. No final, a própria plateia fica cara a cara com os actores, numa cena de espelhos que desdobra pelo infinito as imagens dos protagonistas e desloca de novo o ponto de vista do espectador, desta vez da plateia para o palco. A densidade de símbolos que acompanham as falas, os vários níveis de leitura, a linguagem corrente que aproxima a acção, o coro teatral que a comenta, tudo isso faz de Otelo um acontecimento mais do que contemporâneo. Não por se filiar em qualquer genealogia de pesquisa formal, mas antes por se relacionar com os valores e as ideias dos espectadores, fazendo a ponte entre a actualidade seiscentista e a nossa. O trabalho da companhia paulistana recontextualiza em permanência o texto, de modo consonante com o mundo onde tem lugar a representação. Aos lugares de Londres, Veneza e Chipre juntam-se, por intermédio da banda sonora e da coreografia dos coros, São Paulo, Nova Iorque, Cuba e o Vietname, locais análogos aos da invenção shakespeareana. Para o espectador português, é uma oportunidade de descentrar o olhar, e viajar não só à Londres renascentista como à cidade onde estreiam mais de setecentos espectáculos de teatro por ano, em língua portuguesa, que é São Paulo, e daí mirar o mundo, para lá dos preconceitos de cultura, de classe e de gosto em Portugal. O que parece bem necessário: nos jornais portugueses foi notícia que a personagem principal, Otelo, o mouro de Veneza, era feito por um actor negro. Estranhamente, sublinhou-se uma das maiores qualidades do espectáculo: o modo concreto como a partir do terceiro acto Otelo se deixa corroer, mais do que pela intriga de Iago, pelo estigma de ser preto, velho e soldado num mundo de jovens nobres, belos e brancos. Encena-se aqui o teatro da aceitação e reprodução dos estereótipos que os outros formam de nós, com o propósito de agir sobre as representações culturais do público. O espectáculo não só proporciona ao espectador uma viagem cultural e pelos sentidos como uma viagem de introspecção mental e emocional, se é que faz sentido tentar separá-las. Para quem viu as últimas produções de Otelo apresentadas em Portugal e se pergunta porquê ver mais uma, deve sublinhar-se que esta encenação revela um dos pilares mais escondidos da estrutura da peça, o cómico, latente na conspiração dos criados contra o amo; que torna bem patente o modo como o ciúme, começando por invadir a mente de Iago, se reproduz e prolifera impedindo o melhor juízo de Otelo; e que as personagens secundárias, em especial Emília e Rodrigo, são primorosas: isto é, que o uso, pelo autor, de acções paralelas que se iluminam mutuamente é aproveitado com brilhantismo. A pureza bárbara do protagonista está em contradição irresolúvel com a república hipócrita e dissimulada que lhe cedeu honras e uma filha. Shakespeare deu forma particular à perda da inocência, que esta encenação mostra ter vigor universal, abarcando desde os pequenos gestos pessoais às maiores acções colectivas.

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