“jornais?”, pergunta-me a hospedeira, com um sorriso
profissional. faço um gesto com a mão. as notícias
são sempre mais pesadas do que o ar. mas o atlântico
é muito azul, os jacarandás estão em flor violácea,
e a temperatura, macia como os nossos costumes,
ainda se me agarra à pele. os declives íngremes do
funchal vão escurecendo à luz rasante, dobrados
nos seus escuros vales, como uma verde paisagem
amarrotada sobre a rocha. amontoam-se em tropel
irregular e acabam por desaparecer do campo da vigia.
“jornais?”, oiço a voz da hospedeira atrás de mim.
chamo-a. transforma-se subitamente numa orquídea
da madeira, curvando-se num capricho branco e rosa,
a transbordar do vaso. orquídeas são o meu fraco e
cedo à tentação. mas o jornal só fala da importância das
centrais sindicais para a economia nacional. deve ser
porque ainda conseguem organizar umas greves nas empresas
públicas e, aumentando assim a crise, contribuem
para que venham mais ajudas de bruxelas. portugal é um país
do sustento sustentado. também leio: “portugal mais uma
vez afastado do open do estoril”. é sempre assim.
portugal é sempre afastado de um open qualquer.
ah, europa, europa, e eu sempre disse que eras uma orquídea
posta nos cotovelos! já estamos a dez mil pés
e o sol brilha por detrás da fuselagem. realmente,
daqui olhamos de alto o governo, os sindicatos, mais
coisas assim inexistentes, que não valem um jacarandá em flor,
nem um jogo de luz a aveludar-se entre o azul e o verde,
ainda retidos no interior das palavras que eu procuro
para descrevê-los, e que são, elas sim, quase tão leves
como o ar. trago-as na bagagem de mão, prontas
a tocarem-se, lestas como os cimos das palmeiras
desgrenhando-se ao vento, no funchal. devolvo aquilo à hospedeira.
pode interessar a outros passageiros. bom proveito. ela
pareceu-me menos orquídea agora, e mais weigela floribunda.
Nota: Weigela floribunda, ou Veigelia, é uma planta que existe na Estufa Fria.
Vasco Graça Moura
(Poesia 1997/2000. Lisboa: Quetzal, 2000)
