
A imagem de um homem e de uma mulher que se abraçam, ao mesmo tempo que olham para os seus smartphones, a nova pintura de Bansky, encontra-se hoje numa das páginas do PÚBLICO (“Mobile Lovers é o novo graffito de Banksy”). E pelo menos um dos noticiários televisivos da hora do jantar também exibiu a nova obra do artista britânico. Não falta quem já tenha reparado em situações idênticas.
O cartoonista espanhol David Vela Cervera oferece, em “O primeiro beijo”, obra que, em 2005, recebeu o 2.º prémio no PortoCartoon, que o Museu Nacional da Imprensa, no Porto, promove, uma imagem sintomática: em vez de se olhar para quem está em frente ou ao lado, presta-se atenção a um ecrã.
Esta excessiva atenção aos ecrãs tem sido objecto de inúmeras reflexões e admoestações. Em Foco, um livro que a Temas e Debates editou em Janeiro, Daniel Goleman denuncia um caso, aliás vulgar, de desatenção: “A cabeça da menina mal chegava à cintura da mãe quando a abraçava, agarrando-se-lhe ferozmente, durante a viagem de ferry até à estância de férias na ilha. A mãe, porém, não lhe respondia; nem parecia reparar nela: esteve absorvida durante todo o tempo com o seu iPad”. A indiferença da mãe, que Daniel Goleman testemunhou, serve para deplorar o modo “como a tecnologia captura a nossa atenção e estilhaça os nossos relacionamentos”. Um estudante universitário, que o autor cita, também o lastima, verificando que o mundo virtual dos tweets, das actualizações de estado e da publicação de fotos de jantares nas redes sociais tem vindo a destruir as boas conversas.
Para o autor de Foco, “todo esse embrenhar-se em contexto digital tem custos, no que diz respeito a tempo passado cara a cara com pessoas reais – o meio em que aprendemos a ‘ler’ os aspectos não verbais. A nova leva de indivíduos neste mundo digital poderá ser hábil no teclado, mas desastrada quando se trata de ler o comportamento cara a cara, em tempo real – em particular, terá dificuldade em perceber a indignação de alguém quando se põe a ler uma mensagem a meio de uma conversa”.
