Assinala-se hoje o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Foto: Eduardo Jorge Madureira

Foto: Eduardo Jorge Madureira

“Tudo se pode resumir assim: nós descobrimos o Mal absoluto”, disse, há cerca de duas décadas, Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz, durante uma conversa com o escritor Jorge Semprun, transmitida pelo canal de televisão ARTE e reproduzida em Se taire est impossible (Paris: Éditions Mille et une nuits, 1995). O diálogo serviu para evocar a estadia de ambos em campos de concentração nazi. Vale a pena recordá-lo neste Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pelas Nações Unidas, assinalando a libertação de Auschwitz-Birkenau pelo exército soviético.
“Descobrimos o Mal absoluto, mas não o Bem absoluto”, prosseguiu Elie Wiesel, interrogando o que deveria ser feito para ensinar aos jovens que, apesar de tudo, é próprio do homem ter sede de um absoluto que se cumpre no Bem e não no Mal. Ainda assim, acrescentava Jorge Semprun, “o Mal absoluto pode-se encontrar. O Bem é difícil de encontrar. O Bem ou o caminho para o Bem”.
“O Mal sobreviveu a Auschwitz”, constata o Nobel da Paz. Depois do fim do regime nazi, prosseguiu, contudo, o fanatismo, “que continua um pouco por todo o lado”. E o mais feroz ódio humano é capaz de recaídas violentíssimas como, por exemplo, no Ruanda. A História parece incapaz de dar lições. “E se Auschwitz e Buchenwald não mudaram o homem, então o que é que o conseguirá mudar?”, questiona Elie Wiesel.
A conversa retoma o tema do Bem e do Mal. A descoberta da liberdade humana, de uma liberdade capaz de fazer o Bem e o Mal é, para Jorge Semprun, o aspecto central da experiência dos campos de concentração. Alguns anos antes, o autor de A Escrita ou a Vida tinha falado sobre o mal em Paris, na Sorbonne – a intervenção foi publicada em Mal et Modernité (Paris: Seuil, 1997) – inspirado na noção de “mal radical”, formulada, em 1940, pelo escritor austríaco Hermann Broch.
“A alusão de Hermann Broch ao ‘mal radical’ para o qual se voltam as ditaduras mais não é do que um modo de sublinhar a necessidade de introduzir uma dimensão moral na prática social”, afirmou Jorge Semprun. Para este escritor, “se o mal tem o seu fundamento no fundo constitutivo da liberdade humana, o mesmo sucede com o bem. O mal não é nem o resultado nem o resíduo da animalidade do homem: ele é um fenómeno espiritual, consubstancial à humanidade do homem. Mas o bem também o é. E se está fora de questão extirpar do ser humano a livre disposição para o mal, se é impossível fabricar o homem novo a não ser sob a forma de cadáver, é também impossível impedir ao homem, na sua irredutível liberdade, a expressão concreta da sua vontade do bem, que, segundo as circunstâncias, se pode designar por: coragem cívica, solidariedade, compaixão religiosa, dissidência, sacrifício de si”.

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