Um provedor para defender a língua portuguesa

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Defender a língua portuguesa é um dos encargos dos provedores do leitor, do ouvinte ou do telespectador. José Manuel Paquete de Oliveira, que desde o início do mês é o provedor do leitor do PÚBLICO, contava em no domingo, no texto “Linhas de combate”, que várias pessoas lhe têm pedido que não se esqueça dessa incumbência.
“Olhe, provedor, tenha muita atenção aos erros que maltratam a nossa bela língua”, recomendaram-lhe. “Ui! Deste ‘pecadilho’, em que é tão fácil cair, tenho eu próprio receio”, diz ele. No entanto, garante que vai estar atento. “A nossa língua é, de facto, muito bela. Mas passa-nos cada rasteira. Sem dúvida, têm razão os leitores. Escrever para o público exige cultura, na qual se inclui, obviamente, cultura linguística”.
Quem for consultar os textos de provedores do leitor verificará que são muitos os leitores que, regularmente, reclamam contra o mau uso da língua portuguesa.
Os erros ortográficos inauguraram, por exemplo, as queixas que um anterior provedor do leitor do PÚBLICO, Joaquim Furtado, tratou na sua coluna dominical. O desagrado de um leitor surgiu por causa de um “de mais”, em vez de “demais”, e um “dedicou-lhe”, em vez de “lhe dedicou”.

Uma Alta Autoridade para a Defesa do Português…

Quando foi provedor do leitor do Diário de Notícias, Diogo Pires Aurélio recebeu uma singular sugestão, a criação de uma Alta Autoridade para a Defesa do Português, com poder para aplicar sanções aos prevaricadores. Sem desculpar a gravidade dos erros dos órgãos de informação e sublinhando que todo o investimento que se fizer com vista a reduzir esses erros deve ser aplaudido, Diogo Pires Aurélio relativizou: “a perfeição, nesta como noutras matérias, representará sempre um objectivo acessível a muito poucos e, mesmo a esses, nem sempre. Quanto aos jornais, rádios e televisões, se atendermos à diversidade de pessoas que aí participam, a situação de nervosismo em que frequentemente se trabalha e a pressão que se experimenta à hora de fecho ou no momento de intervir em directo, pode dizer-se que ela estará sempre longe”. Além disso, considerava que, por muito graves que sejam, estas faltas de ortografia não vão ao ponto de prejudicar a percepção da mensagem. “Não ficam bem, não são toleráveis em quem se apresenta em público a narrar ou comentar qualquer acontecimento, mas não impedem a mensagem de circular”. Um problema maior e bem mais preocupante surge “quando se nos deparam emaranhados sintácticos em que não há meio de se perceber do que é que realmente estão a falar ou a escrever, aí, sim, a comunicação fica bloqueada”.

… ou um provedor da língua portuguesa

No livro Áreas Críticas da Língua Portuguesa (2.ª edição. Lisboa: Caminho, 2003), que analisa exaustivamente os erros gramaticais presentes em textos publicados na imprensa entre 1986 e 1994, João Andrade Peres e Telmo Móia recordam que a instituição, em cada órgão de comunicação social, da figura de provedor da língua portuguesa foi uma das recomendações formuladas, em 1989, num seminário sobre a língua portuguesa e a comunicação social. Não havendo um provedor que se ocupe apenas de cuidar da língua portuguesa, competirá ao provedor do leitor intervir correctivamente, fazendo, para usar a terminologia de João Andrade Peres e Telmo Móia, a difícil distinção entre “aquilo que se inscreve num lento processo de mutação linguística assumida por uma comunidade e o erro mais ou menos avulso e efémero”.
A língua portuguesa deve, igualmente, ser muito bem tratada na imprensa escolar, que pode, ela própria, ser uma provedora da língua portuguesa. Para isso, é necessário garantir uma revisão muito atenta e cuidada. O exemplo dos jornais que conseguem assegurar que dois ou três professores se ocupem exclusivamente dessa tarefa pode ser imitado com proveito.

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