Arturo Pérez-Reverte em defesa dos jornais e do jornalismo

P23 arturo pérez-reverte1
P23 arturo pérez-reverte2

Uma vigorosa defesa dos jornais em papel e do jornalismo foi subscrita, no Twitter, pelo jornalista e escritor Arturo Pérez-Reverte. Disse ele que os diários de papel educam, fazendo-nos, serenamente, críticos e lúcidos. “Sem eles estamos indefesos”. A morte do jornalista Pepe Monerri foi o pretexto para cerca de quarenta tweets. Aqui ficam alguns:

Morreu aos 85 Pepe Monerri, mestre de jornalistas. O primeiro chefe e mestre de ofício que tive, com 17 anos.

Pepe era um desses velhos jornalistas fumadores, rudes, desconfiados, argutos, com um cinismo profissional compatível com uma imensa humanidade.

Deu-me o conselho mais importante da minha vida. Mandou-me entrevistar um presidente de Câmara com 17 anos e eu estava assustado. “Tenho medo”, disse.

“Quando levas um bloco e uma esferográfica, rapaz – respondeu –, quem tem que ter medo é o presidente da Câmara.”

Nunca esqueci isso que me foi dito por Pepe Monerri. Nenhum jornalista, jovem ou adulto, deveria esquecê-lo jamais. Nenhum leitor, tão pouco.

Uma das escassas esperanças que temos é que os presidentes de Câmara e os seus colegas continuem a ter medo de um rapaz com um bloco e uma esferográfica.

Para isso, fazem falta televisões e rádios. Mas, sobretudo, jornais. Bons e sólidos jornais de papel com páginas cheias de coisas.

Lemos cada vez menos diários de papel e creio que é um erro. O papel obriga a que tenhas tempo. A que leias e reflictas. Ajuda a pensar.

O jornal de papel, creio, forma o cidadão como nenhum outro meio o faz.

Não sei se estamos conscientes do que significa ler diários. E não apenas um, mas ler ou consultar vários (um par, pelo menos) cada dia.

Ler vários diários, confrontar notícias e opiniões diversas ajuda a pensar. Oferece argumentos. Afina o olhar e cria cidadãos críticos.

É certo que não há diários sem ideologia. Por isso, o truque está em ler dois ou três diariamente. Comparar vários. Tirar as suas próprias conclusões.

O uso da Internet costuma ser superficial. Apenas lemos os títulos. As pessoas retweeteiam e discutem sobre títulos, sem ir ao fundo das coisas.

A Internet cria cidadãos irritados. O que não está mal. Mas os diários de papel criam cidadãos críticos.

Em Espanha confundimos irritação com espírito crítico. E um irritado sem espírito crítico não serve para nada.

As televisões também são outra coisa. […] A informação rigorosa é apenas uma ínfima parte do seu negócio.

Internet é um meio magnífico para quem deseja variedade e profundidade. O problema é se queremos aprofundar ou não.

Por isso creio que os diários de papel educam e fortalecem mais. Fazem-nos serenamente críticos e lúcidos. Sem eles estamos indefesos.

Eu necessito que os jovens leiam diários de papel para que o mundo em que envelheço seja mais tolerável. Mais livre e mais inteligente.

Com os seus defeitos, os jornais de papel são o último baluarte da nossa liberdade. A morte do meu mestre é um bom motivo para o recordar.

Sem diários de papel que revolvam consciências por escrito e com títulos, os presidentes de Câmara e os seus colegas já não temerão nada.

Não é o jornalismo da Internet que é superficial. É o leitor de Internet, em grande medida, que é superficial.

Eu comprei dois ou três jornais diários durante toda a minha vida. Mesmo quando estava sem dinheiro. Mesmo tendo de deixar de fumar. […]

Tem acesso a mais informação, mas não a usa. Não a distingue. A imprensa de papel obriga a uma leitura mais intensa.

Recordo que os grandes escândalos de Espanha não foram revelados pela Internet, mas pela imprensa de papel.

A Internet facilita a opinião contaminada pela não-opinião superficial. A imprensa de papel, a opinião ponderada com argumentos.

Nenhum diário, por si só, é um crítico objectivo. Consegue-o ser o leitor que confronta vários diários.

[…] Nem eu, nem ninguém está a falar de prescindir da Internet, mas de a reforçar com mais lucidez crítica.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>