As crianças precisam de tempo livre, até para se aborrecerem

P23 Auster Lincoln Log
O aborrecimento tem muito má fama. Tudo se organiza para que nenhum minuto da existência possa por ele ser tocado. E, no entanto, diz uma personagem da novela Niebla, de Miguel de Unamuno, “foi o aborrecimento que inventou os jogos, as distracções, as novelas e o amor”. Pensando no que de positivo pode emergir do aborrecimento, pedia-se, na quinta-feira passada, no diário espanhol El País, num artigo intitulado “Emoções para encarar o inesperado”, mais tempo livre para os mais novos. Tempo livre para as crianças e os adolescentes reflectirem “e até para se aborrecerem, o interruptor necessário para soltar a criatividade”.
O artista plástico Anselm Kiefer deu conta do quanto a sua obra é tributária do aborrecimento em A erva crescerá sobre as vossas cidades, um documentário que a RTP2 apresentou no dia 20 de Outubro. O escritor Paul Auster, em Relatório do interior, recentemente editado em Portugal pelas Edições ASA, lembra o que o aborrecimento foi capaz de oferecer à criança que ele foi:
“O enfado não deve ser ignorado enquanto fonte de contemplação e devaneio, as centenas de horas da tua infância em que deste por ti sozinho, desinspirado, desocupado, demasiado apático ou alheado para quereres brincar com os teus pequenos camiões e carros, para te dares ao trabalho de montar os teus cowboys e índios em miniatura, as figuras de plástico verdes de vermelhas que espalhavas pelo chão do teu quarto para as lançar em ataques e emboscadas imaginários, ou para começar a construir alguma coisa com os teus Lincoln Logs ou o teu Erector Set (de que também nunca gostaste, sem dúvida devido à tua inaptidão com coisas mecânicas), não sentindo qualquer impulso para desenhar (actividade na qual também eras penosamente desajeitado e da qual pouco prazer retiravas), ou procurar os teus lápis de cera para preencher outra página de um dos teus estúpidos livros de colorir, e porque estava a chover lá fora ou demasiado frio para sair de casa, definhavas num torpor melancólico e mal-humorado, ainda demasiado novo para ler, ainda demasiado novo para telefonar a alguém, ansiando por um amigo ou parceiro de brincadeira para te fazer companhia, a maior parte das vezes sentado à janela e a ver a chuva escorrer pelo vidro, desejando teres um cavalo, de preferência dourado com uma sela à cowboy muito ornamentada, ou então um cão, um cão muito inteligente que pudesse ser treinado para compreender cada nuance do discurso humano e te acompanhasse nas tuas missões perigosas para salvar crianças em apuros, e quando não estavas a sonhar com uma vida diferente, meditavas sobre perguntas eternas, perguntas que ainda fazes a ti próprio hoje em dia e a que nunca foste capaz de responder, como é que o mundo surgiu e porque é que existimos, para onde é que as pessoas vão quando morrem, e mesmo naquela idade muito jovem especulavas que talvez o mundo inteiro estivesse encerrado num frasco de vidro pousado numa prateleira ao lado de dezenas de outros mundos em frascos na despensa da casa de um gigante, ou então, ainda mais estonteante e todavia logicamente irrefutável, dizias a ti próprio que se Adão e Eva eram as primeiras pessoas do mundo, então toda a gente estava ligada por laços familiares. Terrível enfado, horas longas e solitárias de vazio e silêncio, manhãs e tardes inteiras em que o mundo parava de girar à tua volta, e no entanto aquele solo estéril revelou-se mais importante do que a maioria dos jardins onde tu brincavas, pois foi aí que aprendeste a estar sozinho e só quando estamos sozinhos é que a nossa mente é livre”.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>