“Nós somos todos filhos de Capa”

Carta de jornalista de Robert Capa usada durante a Guerra Civil de Espanha. Foto – AFP / Gérard Julien

Carta de jornalista de Robert Capa, usada durante a Guerra Civil de Espanha. Foto – AFP / Gérard Julien

“Robert Capa fez sair o fotojornalismo do anonimato. Deu-lhe um nome, um rosto, uma alma, deu-lhe, de algum modo, o bilhete de identidade para a eternidade. Ele é a referência tutelar e absoluta”. O panegírico do foto-repórter, que nasceu faz hoje cem anos, encontra-se na edição do passado fim-de-semana do diário francês Libération. A evocação de Robert Capa, que anda pela manchete e pelas sete páginas seguintes, ofereceu um bom pretexto para uma reflexão sobre a profissão de foto-repórter de guerra.
“Nós somos todos filhos de Capa”, diz um título, assaz eloquente sobre a importância do legado de Endre Ernö Friedmann – o pseudónimo Robert Capa seria escolhido mais tarde. Nascido em Budapeste no dia 22 de Outubro de 1913, estaria, como correspondente de guerra, na Guerra Civil de Espanha (a imagem de um miliciano abatido por uma bala franquista na Andaluzia, tornar-se-á a sua fotografia mais célebre e polémica), na Segunda Guerra Sino-Japonesa, na Segunda Guerra Mundial (é um dos quatro fotógrafos escolhidos para acompanhar o desembarque na Normandia) e na Guerra da Indochina. Aqui morreria, no dia 25 de Maio de 1954, ao pisar uma mina. Num dos textos que o Libération lhe dedica (“Robert Capa, mythe déclencheur”, de Brigitte Ollier), é lembrada uma sua avisada afirmação: “O mais forte desejo de um correspondente de guerra é ficar no desemprego”.
O propósito não é propriamente partilhado pelos foto-repórteres de guerra que o jornal os inquiriu sobre os principais problemas de um ofício “viciante”. Alguns são enumerados pela fotógrafa Marie Dorigny, que cita o seu camarada britânico Don McCullin: a descida do número de jornais, a redução de encomendas, as tomadas de reféns no mundo árabe-muçulmano – 17 jornalistas desaparecidos na Síria –, as restrições impostas pelos exércitos aos repórteres que os acompanham e a multiplicação de excelentes fotógrafos. Também há quem se queixe da necessidade de auto-financiamento, dos salários aleatórios e da precariedade. O cronista de fotojornalismo Michel Puech não está de acordo com os que dizem que a situação piorou. A situação dos foto-repórteres de guerra, exceptuando durante os anos 80 e 90 do século XX, foi sempre difícil, diz ele.
Depois de dissuadir veementemente os que pretendem retratar a guerra na Síria, Don McCullin oferece um conselho a quem quer fotografar uma guerra: “Por que não ir para as vossas cidades, para os vossos países e documentar os estragos da guerra social! Também aí encontrarão gente que sofre”.

(Nos sites da Magnum e do International Center of Photography, por exemplo, é possível observar fotografias de Robert Capa; no do Libération, é possível escutar uma entrevista concedida a uma rádio americana em 1947, a única gravação conhecida com a voz do fotojornalista)

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