Alice Munro na escola

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O essencial sobre a mulher que hoje recebeu o Prémio Nobel da Literatura pode ser mais ou menos isto: Alice Ann Laidlaw nasce no dia 10 de Julho de 1931 em Whingham, Ontário, no Canadá. Em 1950, publica o primeiro conto, The dimensions of a shadow. No ano seguinte, casa com James Munro e vai viver para Vancouver. O casal tem quatro filhas. A segunda morreu pouco depois de ter nascido. Os Munro instalam-se em 1963 em Victoria, onde abrem uma livraria, a Munro’s Books, que continua em actividade. O primeiro volume de contos, Dance of the happy shades, é publicado em 1968. Depois do divórcio, em 1972, Alice vai viver para Ontario. Em 1976, casa com o geógrafo Gerald Fremlin. Recebeu vários prémios. Hoje foi a vez do Nobel da Literatura.
Em Portugal, a Relógio d’Água publicou desde 2007 cinco antologias de contos, Fugas, O amor de uma boa mulher, Demasiada felicidade, O progresso do amor e Amada vida, e o romance, A vista de Castle Rock. Nesta obra, com marcas autobiográficas, conta a narradora um episódio escolar:

[Em 1913] O meu pai passou o Ingresso com distinção e entrou para a Escola de Continuação, em Blyth. As Escolas de Continuação ministravam quatro anos de ensino liceal, mas não o último ano, a que chamavam Escola Superior, ou Quinto Ano – para aceder a este havia que ir para uma cidade maior. Dir-se-ia que ele estava bem encaminhado.
Durante a primeira semana na Escola de Continuação, o meu pai ouviu o professor ler um poema.

Avia de um grão de homem muge corda
Que sobrinho bode ser ámen a nossa,
Cabo demos, ao morrer, dei chá na borda
Deste rio má pegada que não passa.

Ele costumava recitá-lo para nós, como piada, mas quando o ouviu pela primeira vez não sentiu que fosse uma anedota. Mais ou menos por essa altura, ele entrou numa papelaria e pediu Papel Ao Maço.
Papel ao Maço.
Papel almaço.
Mais tarde, ficou imensamente surpreendido ao ler o poema escrito no quadro.

A vida de um grande homem nos recorda
Que sublime pode ser também a nossa,
Que podemos, ao morrer, deixar na borda,
Deste rio uma pegada que não passa.

Não esperara ver tão razoavelmente desfeitas as suas dúvidas, aliás, nem sequer sonhara em pedir que lhas tirassem. Aceitara de boa mente que os professores tinham direito a uma lógica e a uma linguagem diferentes. Não lhes exigia que dissessem coisas que ele pudesse perceber.

(A fotografia de Alice Munro encontra-se no site da Relógio d’Água)

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