Como o Facebook redefine a amizade

Cartoon: Dave Coverly

Cartoon: Dave Coverly

O Facebook e as redes sociais redefiniram o conceito de amizade. Hoje é possível ter um círculo de amigos repleto de pessoas que não se conhecem. Também pode suceder que a acumulação de amizades virtuais seja privilegiada em detrimento da consolidação das amizades reais. Os exemplos são apresentados pela filósofa Anne Dalsuet, entrevistada pela revista Les Inrockuptibles a propósito da publicação de T’es sur Facebook ? Qu’est-ce que les réseaux sociaux ont changé à l’amitié ? (Paris: Flammarion, 2013).
O início da conversa serviu para apresentar algumas diferenças entre a amizade em Aristóteles e no Facebook: “Se considerarmos a definição de Aristóteles, a amizade é um laço que une seres humanos semelhantes e iguais. Ela constitui um modelo tanto ético, quanto político. É um elo afectivo que ultrapassa a simples e fria justiça, uma superabundância que aumenta a alegria de se sentir vivo. Aumenta o conhecimento de si e conduz-nos a partilhar acções e pensamentos. O paradoxo das redes sociais é explorarem as características e as especificidades da amizade tal como foram apresentadas e codificadas pelo discurso filosófico clássico, mas para as adaptar a fins promocionais e mercantis”.
Para a autora de T’es sur Facebook ?, “a imersão digital impede-nos de ver o mundo a não ser sob o regime da proximidade e da disponibilidade”. Diz ela que a omnipresença é um imperativo no Facebook, onde se é incitado a estar sempre presente e activo, em contacto permanente, percorrendo outros mundos sem sair do lugar, falando à distância de coisas íntimas sem, por vezes, se conhecer o interlocutor. “Fazemo-lo mais ou menos informados, frequentemente ingénuos, confundindo o mapa e o território, a informação e o saber, a representação e o original”.
Anne Dalsuet observa também que as redes sociais vieram depreciar e tornar difícil a solidão. Sucede que, acrescenta a filósofa, “sem fazer disso um valor ético absoluto, a solidão é importante”. É um tempo em suspenso que faz falta. “É preciso poder abstrair-se do imediatismo. É necessário poder, de vez em quando, encarar a vida com algum recuo”.
Importa repensar a utilização que fazemos das redes sociais, sob o ponto de vista técnico, jurídico e ético, pede Anne Dalsuet, que previne: “A falta de legislação e a falta, sobretudo, de uma educação crítica faz com que os utilizadores sejam muito facilmente vitimas das suas próprias acções, da sua ignorância ou da sua ingenuidade”.

(Facebook a-t-il détruit l’amitié ?”, a entrevista que Anne Dalsuet concedeu a David Doucet pode ser lida na íntegra clicando aqui)

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