Uma sede inesgotável de informações

P23 130802 2
O caso Edward Snowden promete continuar instalado nas primeiras páginas da imprensa internacional. Nas dos diários franceses de hoje, por exemplo, tem um enorme destaque. A acompanhar, há vigorosos editoriais contra a política dos Estados Unidos da América de vigilância das comunicações. Num jornal mais à direita, Le Figaro, a actuação dos serviços secretos recorda George Orwell e 1984; noutro, mais à esquerda, o Libération, lembra o panóptico do filósofo Jeremy Bentham.
Em “Big Brother”, título do editorial do Le Figaro, Pierre Rousselin observa que, “com cerca de trinta anos de atraso em relação às predições de George Orwell, entramos na era do Big Brother, a personagem de ficção do seu romance de antecipação, 1984”. Rousselin censura “uma América orwelliana”, que “perscruta tudo para saciar uma sede inesgotável de informações”. O contrário do que deve suceder numa democracia, que deve regulamentar o acesso aos dados individuais e proteger os direitos de cada um. “A história dos totalitarismos na Europa é suficiente para explicar porquê”.
Não é muito diferente o ponto de vista apresentado por Nicolas Demorand no editorial do Libération, intitulado “Panóptico”, nome de um dispositivo de vigilância desenhado por Jeremy Bentham, no século XVIII, que permite que, a partir de um determinado sítio, possam facilmente ser controlados todos os detidos numa prisão. Para Demorand, “a esfera privada já não existe”. Diz o jornalista que “esta é a primeira consequência da gigantesca pulsão de vigilância planetária que anima os Estados Unidos da América, cuja organização meticulosa e reticular Edward Snowden tem vindo a descrever desde há semanas. Nada do que é mostrado, dito ou escrito na Internet escapa a este Panóptico electrónico que pesquisa, copia e armazena tudo”. Demorand julga que a circunstância de esta massa inimaginável de dados poder ou não ser explorada é uma questão menor “em face da infracção brutal, constante, sem dúvida irreversível, contra o que funda todas as democracias: o respeito pela vida privada”.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>