As ruas do Brasil na escola

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Quando a apressada rotina do dia-a-dia descarrila e o resultado, por causa, por exemplo, das imagens que os media difundem, é susceptível de causar inquietação nas crianças e nos jovens, é importante saber o que deve ser feito para acalmar os mais novos. O problema é que não há receitas universais. Há boas experiências e opiniões de todo o género. Para, a propósito do que se está a passar nas ruas do Brasil, ajudar a perceber o que se deve dizer às crianças, a revista PontoCom inaugurou um debate. Cristiane Parente, coordenadora do Programa Jornal e Educação da Associação Nacional de Jornais, julga, por seu turno, que a ocasião merece ser aproveitada para para olhar criticamente para o modo como os media estão a fazer a cobertura do que se está a passar. Para ajudar na tarefa, apresenta um conjunto útil de sugestões de trabalho.
“O Brasil nas ruas é o tema do momento”, diz a revista PontoCom, acreditando que algumas cenas já entraram para a História. “Há quem diga que o país já não é o mesmo. Nas redes sociais, há inúmeras avaliações e reflexões. A opinião pública vai sendo construída e desconstruída a cada novo post, vídeo e foto. O debate já chegou também às escolas e, inclusive, às rodas de conversa de meninos e meninas”. Para esta revista de educação para os media, os mais novos, em casa ou na escola, querem saber o que está a acontecer. “Querem entender e opinar”. É por isso que é útil saber o que deve ser dito às crianças.

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Para iniciar o debate, a PontoCom escutou duas opiniões, a da psicopedagoga Andrea Garcez, doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e da professora Rita Ribes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Andrea Garcez julga que se deve dizer que as pessoas se estão a unir para lutar por melhores condições de vida e por um futuro melhor para o país. “E que isso é muito importante”. Para a psicopedagoga, “é bom esclarecer que muitas vezes a televisão e o jornal não mostram as coisas como realmente aconteceram. Devemos, portanto, sempre desconfiar e tentar ver o outro lado da história. Penso que as crianças podem e devem acompanhar o que está acontecendo porque é um momento histórico e muito bonito”.
É importante dizer “que se deve brigar com unhas e dentes e choros por um mundo melhor, mas que ‘um mundo melhor’ não significa a mesma coisa para todas as pessoas”, diz Rita Ribes, explicando a seguir: “Um mundo melhor para as crianças que já tem uma casa cheia de brinquedos pode ser ter ainda muito mais casas e brinquedos. Um mundo melhor para a criança que vive na rua pode ser passar a ter uma casa, um brinquedo, um olhar que a perceba no mundo. São dois desejos de melhorar o mundo que não necessariamente se afectam”.
A professora Rita Ribes refere que, no entanto, “mais que dizer às crianças, é importante ser com as crianças: construir práticas de justiça social que se imponham à indiferença, ao preconceito e à arrogância. Fora isso, não há nada que esteja acontecendo no mundo que não afecte as crianças sobre o que as crianças não tenham algo a dizer”. Rita Ribes pede que se escutem as crianças, considerando útil evitar a “arrogância de achar que somos nós, adultos, ‘quem’ sempre tem algo a dizer e que ‘tem que’ dizer”.

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A proposta de Cristiane Parente visa aproveitar o “momento ímpar para discutir de forma educomunicativa tudo que está acontecendo no país”. As sugestões que oferece são muito práticas e úteis para se perceber melhor o que se está a passar e a forma como os jornalistas o estão a relatar. Aqui ficam exemplos do que se propõe que seja feito:
• Juntem notícias de jornais (impressos e/ou online, além de notícias da televisão, rádio, etc., se conseguirem) e comparem informações.
• Mostrem que os media tanto podem errar nas suas avaliações, como fazer boas coberturas. Quais foram os equívocos? Quais foram os bons exemplos?
• Mostrem exemplos de boas fotos e de bons textos; da participação do cidadão na construção jornalística (quando enviam fotos e vídeos)…
• Discutam as notícias de forma crítica com os alunos. O que foi bom e o que pode ser melhorado (houve diversidade de fontes? a notícia foi tendenciosa? o título correspondeu ao texto?…)
• Há muito maniqueísmo nesses debates e é preciso ter cuidado para não escorregar nele.
• Mostrem também a força da mobilização via redes sociais. Nós, professores, precisamos estar atentos a esse movimento no país e à forma de se comunicar dos jovens.
• A cobertura feita pela imprensa internacional também é interessante para avaliar. Como um correspondente internacional vê tudo isso?
• Lembrem-se que um facto é diferente de uma notícia. Ela é apenas uma representação do facto. Como há vários meios, há várias representações. Procurem ver como os jornais internacionais estão a avaliar o que está acontecer aqui em relação aos jornais nacionais.
• É possível também fazer uma análise só das imagens, que falam muito!
• Que tal pedir aos estudantes para entrevistar pessoas de opiniões diferentes e publicar no blogue ou jornal da escola para levantar um debate sobre o assunto?! Ou levar para a escola pessoas que pensam as manifestações de maneira contrária?!
• O que é que está a ser reivindicado nas manifestações? Os alunos conhecem todas as reivindicações?
• É hora de […] trabalhar a questão da diversidade, dos direitos humanos […], de temas como a corrupção e das atitudes diárias de cada um (será que também não somos corruptos em algum momento?).

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