“Sim, eu fui um viciado em redes sociais”

P23 vício
Quando algum famoso revela à imprensa um vício presente ou passado, está, simultaneamente, a oferecer um título mais ou menos apelativo. Um deles encontrava-se, há dias, no diário espanhol ABC: “Sim, eu fui um viciado em redes sociais”. Costumam ser outros os maus hábitos, mas o abuso dos ecrãs, particularmente o do telemóvel, foi o que revelou Gustavo Entrala, um publicitário espanhol que aumentou a notoriedade por ter ensinado o Papa Bento XVI a usar o Twitter. O fundador e director da Agência 101, ao contar à jornalista Laura Peraita como superou a sua dependência, quer servir de modelo para os pais e os filhos com idêntica habituação.
“Tal como muitas pessoas esperam que toquem as doze badaladas e comece o ano novo para iniciar uma dieta ou para deixar de fumar, eu esperei pelo dia 1 de Janeiro de 2013 para me consciencializar e iniciar a minha própria dieta, a das redes sociais”, conta Entrala. A partir desse dia, comprometeu-se a ligar o telemóvel apenas quatro vezes por dia, a estar conectado durante meia hora e a desligar às nove da noite. Os primeiros dias, diz ele, foram muito difíceis, porque estava muito enraizado o hábito de, como um tique, estar constantemente com o dedo no telemóvel para que o ecrã se iluminasse, permitindo ver quantas mensagens tinha dos seguidores. “No princípio, a mão vai quase sozinha, sem eu pensar, ao bolso das calças ou do casaco para pegar no telemóvel e é preciso fazer um grande esforço para não cair na tentação. Custa, mas consegue-se evitá-la”.

Recuperar a paz mental

Tal como os fumadores que, ao fim de pouco tempo sem fumar, recuperam o olfacto, Entrala afirma ter recuperado rapidamente “uma sensação de paz mental incrível”. Até então, a vida do publicitário estava dominada pelas redes sociais. Como ele reconhece, tudo circulava em torno delas.
“Não me podia concentrar no meu trabalho. Tinha interrupções frequentes por estar atento as mensagens de Wassap, Facebook… e entretinha-me a responder, procurando mensagens ou imagens originais para enviar aos meus seis mil seguidores”. Entrala recorda que fazer tudo isso, alimentar as redes sociais, leva muito tempo. “É como um trabalho a tempo inteiro. O único que não é pago. Antes, quando terminava a jornada de trabalho, tinha a sensação de não ter parado um minuto e, no entanto, pouco tinha rendido. Sentia um desgaste cerebral e um grande caos na cabeça. Agora consigo concentrar-me muito melhor”.

É impossível fazer bem muitas coisas ao mesmo tempo

Gustavo Entrala enuncia uma outra vantagem que surgiu com o afastamento das redes sociais, a melhoria das relações pessoais. “Comecei a jantar tranquilo com a minha família. Com o telemóvel desligado, falamos mais do que antes e olhamo-nos mais nos olhos. Já não levo o telemóvel para as reuniões de trabalho e o resto de trabalhadores põe-no em modo silencioso, assim evitando muitas distracções”.
O publicitário rebate, a seguir, uma crença muito partilhada: “Há pessoas, designadamente, muitos jovens, que dizem que são ‘multitarefas’. Isso não é verdade. É impossível fazer muitas coisas ao mesmo tempo porque, segundo muitos estudos demonstraram, o nosso cérebro não está preparado para mudar constantemente de tarefa e ser produtivo. Com as mudanças que estamos actualmente a provocar no cérebro, talvez possa estar em futuras gerações, mas não por enquanto”.

Um teste para saber se se está ou não viciado

O artigo termina recomendando uma análise ao uso que se faz das redes sociais e ao tempo que nelas se gasta. Entrala quer que pais e filhos olhem para uma lista com sete itens. E cada um pode concluir que está viciado se:
• Sentir angústia se se esquece do telemóvel em casa.
• Olhar constantemente para o telemóvel esperando a chegada de mensagens dos seguidores.
• Deixar de estudar ou de trabalhar para se dedicar a responder a mensagens.
• Sentir algum incómodo se está num lugar sem cobertura de rede.
• Padecer de uma grande inquietação se começa a ter pouca bateria, que aumenta se não tiver à mão um carregador.
• Se disser algo como: “não sei quem disse que…”, sem recordar o nome nem em que situação a afirmação foi feita. Isto é resultado de uma saturação de mensagens e conversas com seguidores e de um volume de informação excessivo.
• Se sentir que está a investir mais tempo numa vida que é irreal do que na verdadeira vida, construída com as pessoas que estão ao nosso lado.
Gustavo Entrala não o indica mas, se o vício for forte, as férias que se aproximam são um bom momento para começar a desintoxicação.

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