“A Internet é um estado de vigilância”

P23 privacidade1

A notícia foi dada em primeira mão pelos diários The Guardian e The Washington Post na semana passada: os Estados Unidos da América têm um programa de vigilância secreto, que permite que a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o Federal Bureau of Investigation (FBI) tenham acesso directo aos servidores de nove empresas tecnológicas (AOL, Apple, Facebook, Google, Microsoft, PalTalk, Skype, Yahoo e You Tube), de modo a poderem conhecer dados relativos aos utilizadores. A informação veio alargar o debate sobre a privacidade na Internet, embora não tenha acrescentado muito ao que se suspeitava ou sabia. Em “The Internet is a surveillance state”, um texto de 16 de Março, disponível no site da CNN, o especialista em segurança informática Bruce Schneier dava já boa conta do que agora se passa. Aqui fica o essencial do texto:

A Internet é um estado de vigilância. Quer o admitamos, quer não, quer isso nos agrade, quer não, somos permanentemente vigiados. O Google controla-nos, tanto nas suas páginas, como naquelas a que tem acesso. O Facebook faz igual, controlando mesmo os utilizadores não inscritos na rede social. A Apple vigia-nos nos iPhones e iPads. Um jornalista utilizou uma ferramenta chamada Collusion (da Mozilla) para determinar quem o espiava: 105 empresas controlaram o uso que ele fez da Internet durante um período de apenas 36 horas.
[…] Tudo o que hoje fazemos implica o uso de um computador e os computadores têm como efeito secundário produzir, naturalmente, dados. Tudo é registado e cruzado e inúmeras empresas de big data fazem negócio reconstituindo os perfis da vida privada de cada um a partir de variadas fontes.
O Facebook, por exemplo, correlaciona o vosso comportamento online com os vossos hábitos de compra offline. E, mais ainda, tem os dados de localização do vosso telemóvel e a gravação dos vossos movimentos pelas câmaras de vigilância…

Isto é que é um estado de vigilância

A vigilância é omnipresente: todos somos vigiados durante todo o tempo e os dados ficam gravados definitivamente. Isto é que é um estado de vigilância e é mais eficaz do que aquilo que surgia nos sonhos mais selvagens de George Orwell.
Claro que podemos agir para nos precavermos. Podemos limitar o que pesquisamos no Google a partir dos iPhones e utilizar, em vez disso, os navegadores Web dos nossos computadores, que nos permitem suprimir os cookies. Podemos utilizar um outro nome no Facebook. Podemos desligar os telemóveis e pagar com dinheiro. Mas à medida que o tempo vai passando, cada vez menos pessoas se inquietam.
Há demasiadas formas de ser espiado. A Internet, os e-mails, os telemóveis, os navegadores Web, os sites de redes sociais, os motores de busca: tudo isto se tornou necessário e é fantasista esperar que as pessoas abdiquem de se servir disso tudo apenas porque não gostam de ser espiadas, dando-se, ainda por cima, o caso de a amplitude de uma tal espionagem nos ser deliberadamente escondida e de haver poucas alternativas comercializadas por empresas que não espiem.

A privacidade desprotegida

A livre concorrência não pode compor isto. Nós, os consumidores, não temos escolha. Todas as grandes empresas que nos fornecem os serviços Internet têm interesse em vigiar-nos. Visitem um site Web e ele saberá, com certeza, quem vocês são. Há muitas maneiras de nos vigiarem sem cookies. […] Conservar a vida privada na Internet é agora quase impossível. […] Se clicarem num mau link, ficarão com o nome permanentemente associado a um qualquer serviço anónimo que utilizem.
No mundo de hoje, os governos e as multinacionais trabalham concertadamente para que tudo fique como está. Os governos ficam satisfeitos por poderem utilizar os dados que as empresas recolhem para nos espiar, pedindo-lhes, ocasionalmente, para recolherem mais e para os guardarem durante mais tempo. E as empresas ficam satisfeitas por comprarem dados aos governos. Juntos, os fortes espiam os fracos e não querem largar o seu poder, a despeito do que pretendem os cidadãos. […] À parte algumas multas de montantes irrisórios, ninguém faz leis adequadas para proteger a vida privada.

Bem-vindos a um mundo novo

Então é assim. Bem-vindos a um mundo em que o Google […] sabe mais sobre os vossos pólos de interesse do que os vossos cônjuges. Bem-vindos a um mundo em que o vosso operador de telemóvel sabe sempre, exactamente, onde vocês estão. Bem-vindos à era do fim das conversas privadas, uma vez que as vossas conversas se fazem cada vez mais através de e-mail, SMS ou sites de redes sociais.
Bem-vindos a um mundo em que tudo o que fazem num computador vai sendo registado, correlacionado, estudado e peneirado de empresa em empresa sem que vocês o saibam ou consintam, em que o governo pode aceder à vontade a tudo isso sem qualquer mandato judicial.
Bem-vindos a uma Internet sem vida privada, situação a que chegamos com o nosso consentimento passivo, sem qualquer combate.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>