Lady Gaga vence Albert Einstein ou as contingências do ego-surfing

P23 egosurfing
Quando uma pessoa coloca o seu nome no Google para ver o que pode encontrar sobre si na Internet, está a praticar ego-surfing ou self-googling. Esta prática comum designa genericamente a medição da notoriedade das pessoas, escreve Catherine Portevin no número de Junho da revista francesa Philosophie Magazine, explicando que, se esta avaliação se tem vindo a tornar invasiva (tal como o gabar-se do número de amigos no Facebook), é porque o poder dos meios digitais a tem tornado possível em grande escala. “Do possível ao desejável, do desejável ao incontestável, eis como se fabricam novas normas”.
A medição da notoriedade faz-se contando o número de páginas referido no motor de busca em resposta à pesquisa realizada. O “índice Google” é, no entanto, pouco fiável, diz Catherine Portevin, como os exemplos que apresenta comprovam. Sem surpresa, “Jacques Dupont” terá um ego sobredimensionado por causa de prováveis homonímias (cerca de 152 000 páginas). Se a autora tivesse feito a consulta há instantes, ficaria ainda mais surpreendida, já que os vários “Jacques Dupont” são referidos em 8 940 000 páginas.
Catherine Portevin apresenta ainda o caso da notoriedade de Lady Gaga e Rihanna, cantoras apreciadas pelos que têm entre dezoito e trinta anos (os internautas mais activos, portanto), que suplanta a de Gandhi e Albert Einstein. Contas acabadas de fazer confirmam-no: Lady Gaga, com 378 000 000 páginas; Rihanna, com 338 000 000; e Gandhi, com 89 400 000, ficariam no pódio da notoriedade, a que Albert Einstein não acederia por ter apenas 58 500 000 páginas.
Apesar de ninguém defender que estes índices Google são susceptíveis de estabelecer uma hierarquia de qualidade, tem vindo a impor-se, mesmo entre gente ilustre, a ideia de que as personalidades mais citadas são, necessariamente, as “melhores”, constata Catherine Portevin.
Segundo a autora, também a comunidade científica se encontra prestes a sofrer os efeitos deletérios do ego-surfing como medida de notoriedade. Como a valia de um investigador se afere pelo número de citações do seu nome ou dos seus artigos em revistas ou sites científicos, vale a pena, seguindo um conselho cínico, publicar depressa e aos bocados (“três artigos curtos, em vez de um longo”) e com erros voluntários (“as correcções dos colegas representarão citações suplementares”).
Catherine Portevin termina referindo as mudanças que o ego-surfing poderá provocar na noção de cultura, que tenderá a preferir a citação à referência, o conhecido à excepção, a notoriedade quantitativa ao reconhecimento qualitativo.

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