Conhecer a imprensa clandestina

Gravura: José Dias Coelho

Gravura: José Dias Coelho

As publicações clandestinas que se fizeram em Portugal antes de 25 de Abril de 1974 constroem um dos mais extraordinários, corajosos e desconhecidos capítulos da história da imprensa nacional. Duas iniciativas oferecem uma excelente oportunidade para o conhecer: a Exposição Álvaro Cunhal, que, até domingo, pode ser visitada em Lisboa, junto ao Terreiro do Paço, na Sala do Risco, no Pátio da Galé, e o livro As armas de papel, de José Pacheco Pereira, editado pela Temas e Debates.
Na exposição e no livro, como se fosse necessário começar por apontar um elemento comum, encontra-se uma gravura do artista plástico José Dias Coelho representando uma tipografia clandestina. Essa imagem, em que se encontram dois homens e uma mulher, tal como observa José Pacheco Pereira, dá a conhecer o modo de funcionamento de uma tipografia clandestina com tudo o que a compunha: “a mesa onde era feita a composição, à esquerda, e a mesa mais sólida da impressão, o rolo, o papel por cima do tabuleiro com o tipo montado”.

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DR

Além da imagem, a Exposição Álvaro Cunhal apresenta uma escultura com idênticos elementos e, na parte final, imprimem-se constantemente folhetos alusivos à iniciativa, o que contribui para que se entenda devidamente como se executava o trabalho de edição de publicações clandestinas. Os visitantes interessados em conhecer alguma da imprensa proibida antes do 25 de Abril de 1974 encontrarão material tipográfico diverso, listas de títulos de publicações clandestinas, recortes de jornais ou edições do Avante, o órgão central do Partido Comunista Português.

Armas de Papel

José Pacheco Pereira, também autor de uma biografia de Álvaro Cunhal, afirma que foi a experiência do PCP e das organizações frentistas que lhe eram próximas a fonte dos “saberes” da impressão clandestina na esquerda radical, que se afirmou contra o regime ditatorial, mas também contra a oposição tradicional, liderada pelo PCP e pelos grupos republicano-socialistas.
As armas de papel apresenta detalhadamente 158 publicações periódicas clandestinas e do exílio ligadas a movimentos radicais de esquerda cultural e política realizadas entre 1963 e 1974. A acompanhar, são reveladas, com a ajuda de inúmeros testemunhos, as circunstâncias quase sempre muito adversas em que foram feitas. Dos variados riscos corridos por quem se envolvia nesta actividade, dá o autor, aliás, eloquente conta.
No livro, há ainda um estudo dos vários elementos distintivos da imprensa clandestina, que “dependia muito das tecnologias disponíveis e da facilidade de acesso seguro a máquinas, materiais, papel e tinta”, como, por exemplo, os cabeçalhos, a iconografia, o texto ou a distribuição.

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