Aprender a prestar atenção

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“No ano passado, quando estava sentado com a minha mulher numa esplanada de um café de Estrasburgo, reparei numa jovem mãe, que estava noutra mesa, pendurada no telefone durante uma hora e meia, enquanto o filho de três ou quatro anos tentava captar-lhe a atenção”. A história é contada por Jon Kabat-Zinn, um professor de medicina em Boston, a quem a revista francesa L’Express dedicou a capa de um número sobre a ansiedade (22-28 de Maio), para ilustrar algo bastante significativo: “Fala-se muito do défice de atenção das crianças, mas é a dos pais, distraídos pela tecnologia, que deixa a desejar”.
Jon Kabat-Zinn, que coloca a meditação no centro das suas terapias, revela que se encontra a trabalhar num projecto com o Ministério da Educação inglês para adaptar, ao meio escolar, a plena consciência, uma prática de origem budista, que consiste precisamente em concentrar a atenção nas sensações do momento.
“Em vez de gritar às crianças, por que não ajudá-las a aprender a prestar atenção? Como os músicos que procedem a uma prévia afinação dos instrumentos, os alunos devem aprender a aprender, a reparar primeiro nos seus corpos, a acalmar os seus espíritos ansiosos para serem capazes de receber um novo conhecimento”. A filósofa Simone Weil estaria de acordo. “A formação da faculdade da atenção é o verdadeiro fim e quase o único interesse dos estudos”, escreveu ela em Espera de Deus (Lisboa: Assírio & Alvim, 2005).

A atenção encontra-se no centro de tudo

Presta-se muito pouca atenção à atenção. E, no entanto, a atenção é a condição principal da aprendizagem, garante Jean-Philippe Lachaux, director de investigação no Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale, Paris. É que, sem atenção, é impossível receber, compreender, memorizar, tratar ou analisar qualquer informação. Como detalhadamente se referia no Boletim Público na Escola de Maio 2010 dedicado à atenção, o autor de Le cerveau attentif (Paris: Odile-Jacob, 2011) sugere, por isso, que a escola valorize devidamente a capacidade de um aluno dominar a atenção, algo que, até agora, apenas sucede em raros países, como o Japão, por exemplo.
Importa educar a atenção. Rui Mota Cardoso, professor catedrático da Faculdade de Medicina do Porto, numa entrevista concedida ao Boletim Público na Escola de Fevereiro de 2011, igualmente consagrado ao tema, explica que esse empreendimento pressupõe esforço e reorganização pessoal e mental. “Pressupõe até atenção aos males da atenção”. A tarefa não é simples, tanto mais que, acrescenta Rui Mota Cardoso, “o nosso tempo não promove, antes afugenta, uma experiência vivencial orientada para o mundo interior, o autoconhecimento e a contemplação. Mas só esta pode seleccionar o que merece e nos merece a nossa atenção”.

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