Alfabetização mediática e crise económica

Foto: Spencer Platt/AFP

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A crise financeira tem-se apresentado acompanhada por um novo vocabulário. Abismo fiscal, activo tóxico, agência de notação financeira, banco mau, bolha imobiliária, Euribor, resgate bancário fazem parte da terminologia que se instalou no dia-a-dia dos europeus. Perante o surgimento de um tão vasto conjunto de termos relacionados com a crise económica, em Espanha, um investigador da Universidade de Sevilha, Adrián Tarín, foi indagar se os estamos a compreender significativamente. Escutou pessoas de variados extractos socioeconómicos e com distintas habilitações e apresentou os resultados da inquirição no 2.º Congresso Literacia, Media e Cidadania, que se realizou em Lisboa, no Pavilhão do Conhecimento, no fim-de-semana passado. As conclusões preliminares do trabalho académico, que serão aperfeiçoadas em estudos a realizar posteriormente, revelam que os media espanhóis usam termos que não são facilmente inteligíveis pelos receptores e, além disso, não proporcionam ferramentas adequadas para a sua compreensão.
Adrián Tarín verificou que, desde a irrupção da crise financeira global, os meios de comunicação espanhóis serviram como amplificadores de um jargão técnico, contribuindo para o integrar no repertório linguístico quotidiano. No entanto, a linguagem reproduzida pelos meios de comunicação, procedente do âmbito técnico das ciências económicas, dificulta a compreensão efectiva de um fenómeno de enorme complexidade como a crise financeira. Se a investigação posterior o corroborar, estando expostos assiduamente a um produto jornalístico dificilmente inteligível, mas necessário, estaremos sujeitos a uma realidade desoladora: não estamos preparados para entender nem a magnitude, nem os termos de uma crise económica tão extraordinária quanto quotidiana.
O trabalho realizado por Adrián Tarín, que constatou a existência de uma opinião crítica generalizada em relação aos meios de comunicação espanhóis, permitiu detectar que diversos termos, embora reconhecíveis, não são devidamente compreendidos. É o caso, por exemplo, de activo tóxico, Euribor e abismo fiscal, os termos menos bem compreendidos pelos inquiridos. De resto, apenas bolha imobiliária e resgate bancário têm um nível de compreensão superior a 50%. O desejável labor pedagógico atribuído aos media poderá, pois, estar a fracassar na cobertura da crise económica. A situação poderá corrigir-se, segundo os inquiridos, se se utilizar uma linguagem mais acessível e se se explicar com profundidade as origens, o desenvolvimento e os responsáveis pela crise financeira.

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