“Para que serve a liberdade de imprensa?”

Cartoon: Aurel

Cartoon: Aurel

“Para que serve a liberdade de imprensa?” Amartya Sen, Prémio Nobel da Economia, responde dizendo que nenhuma fome grave ocorreu em países independentes governados democraticamente e com uma imprensa relativamente livre. Num texto escrito há cerca de uma década, a convite da Associação Mundial de Jornais, para assinalar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Sen apresentou quatro argumentos em defesa da imprensa livre. Vale a pena recordá-los.
“Nem sempre é fácil gostar dos media”, diz o economista. É que, justifica, a imprensa pode atormentar e perseguir as pessoas, adulterando factos, e destruir as suas vidas, imiscuindo-se na sua privacidade. “A possibilidade de fazer o bem tem, frequentemente, como corolário a capacidade de prejudicar, e a imprensa livre não é excepção à regra”. Para Sen, a imprensa deve fazer tudo o que é possível para minimizar o abuso de poder, mas é igualmente importante tentar compreender claramente em quê e como a liberdade de imprensa pode enriquecer a vida humana, favorecer a justiça pública e mesmo contribuir para promover o desenvolvimento económico e social.
A primeira contribuição é a que oferece a liberdade de expressão em geral e a liberdade de imprensa em particular à qualidade das nossas vidas, diz Amartya Sen. “Temos razões suficientes para querer comunicar uns com os outros e compreender melhor o mundo em que vivemos. A liberdade de imprensa é essencial para o conseguirmos”.
Amartya Sen regista um segundo contributo da imprensa livre, ao exercer uma função protectora muito importante, dando voz às pessoas negligenciadas ou desfavorecidas, o que pode contribuir, decisivamente, para lhes garantir a segurança.
Nota Amartya Sen que os dirigentes de um país se encontram frequentemente protegidos, na sua vida pessoal, da miséria que afecta as pessoas comuns. “Eles podem atravessar um flagelo nacional, como uma fome ou uma outra catástrofe, sem partilhar o destino das vítimas. No entanto, se tiverem de enfrentar a crítica pública dos media e enfrentar eleições escrutinadas por uma imprensa não submetida a censura, estes dirigentes devem prestar contas, o que os incita à tomar atempadamente as medidas necessárias para evitar tais crises”.
A imprensa, em terceiro lugar, desempenha um papel informativo fundamental, no sentido em que difunde o conhecimento e permite o exame crítico. Para Sen, este papel da informação exerce-se não apenas através de artigos especializados (sobre os progressos científicos ou as inovações culturais, refere ele como exemplos), mas também mantendo o público informado sobre o que se passa e o lugar onde os acontecimentos ocorrem. Por outro lado, diz ainda o economista, o jornalismo de investigação pode desvendar informações que de outro modo passariam desapercebidas ou seriam mesmo ignoradas.
Finalmente, Amartya Sen crê que a aquisição de valores fundados no conhecimento e não na regulamentação necessita de uma verdadeira abertura na comunicação e no debate. A liberdade de imprensa é vital neste processo. Com efeito, a aquisição de valores é um processo interactivo, e a imprensa desempenha um papel crucial favorecendo tais interacções.
“‘Nenhum homem é uma ilha’, disse John Donne. E, portanto, as políticas de censura tentam isolar-nos uns dos outros. Esta repressão empobrece as nossas existências, limita os nossos conhecimentos, destrói a nossa humanidade e afecta a nossa capacidade de aprender uns com os outros. Para ultrapassar estes constrangimentos, temos necessidade da liberdade de comunicação e da liberdade de imprensa”, constata Amartya Sen, que conclui perguntando: “O que pode haver de mais importante?”

[O cartoon de Aurel integra a colecção de Cartooning for Peace]

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