Cére­bro e leitura

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Compreender o comportamento leitor é uma das preocupações do livro Cére­bro e leitura, de Teresa Sil­veira, pro­fes­sora da Fac­ul­dade de Engen­haria da Uni­ver­si­dade do Porto, apresentado no sábado em Braga, numa sessão realizada na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Para a ocasião, a autora escreveu o texto seguinte:

Promover leitura não é andar a correr atrás das borboletas… é cuidar do jardim para que elas venham até nós, disse alguém. Em termos práticos isto significa que a promoção da leitura não é um exercício de puro entretenimento, nem os seus promotores “caçadores” frutíferos de leitores. É antes um processo gradual, crescente e silenciosamente envolvente, onde a mais pequena acção terá as suas consequências. Silenciosas e presentemente imperceptíveis… Debrucemo-nos, então, sobre essas acções. À semelhança do jardim, o seu nascimento necessita de acções de grande envergadura e de manutenção. No desenvolvimento do leitor passa-se exactamente o mesmo.
Dentro das acções de grande fôlego começamos por reconhecer que somos indivíduos constituídos por um corpo altamente infetável e permeável por tudo o que o rodeia, mas paralelamente capaz de ponderar e escolher, tornando-se em algumas situações impermeável e impenetrável. Este processo de decisão é consequência da aprendizagem e da formação de uma identidade que também se aprende. Somos aprendizagem repetitiva e emotiva. Por isso, somos capazes de desenvolver um cérebro que lê e uma mente que gosta de ler e que comanda o cérebro no sentido de ler mais.
A segunda grande acção é perceber o que faz e de que forma é activado o cérebro leitor. Entender a natureza biológica do cérebro “desatento”, os mecanismos da aprendizagem de competências e os tempos que temos para as diferentes formas de aprender. De facto, temos um cérebro elástico que aprende e reaprende, que cria e recicla, que perde mas que compensa através da reestruturação. No entanto, não tenhamos ilusões. Todas as acções de reaprender, recriar e reestruturar (possíveis devido à neuroplasticidade) funcionam como um bálsamo que ameniza os efeitos da não aprendizagem, não criação e não estruturação no tempo certo, mas não são o antídoto. Este reconhecimento de nós e do órgão que nos faz ser é como se estivéssemos a conhecer a terra onde vamos plantar as sementes que vão florir. Em todos os educadores deverá existir um toque de jardineiro.
A terceira grande acção é a definição da estratégia e dos recursos que podem operacionalizar o leitor. A escolha das sementes, dos utensílios e dos fertilizantes é essencial para o desenvolvimento robusto das plantas e flores, bem como para a beleza do jardim. O mesmo se passa com a activação do cérebro leitor e de uma mente que gosta de ler. Assim, a linguagem, a memória e a audição, a tríade essencial do leitor competente, são as sementes fundamentais. O ensino da leitura e a sua promoção constituem os utensílios para o desenvolvimento do cérebro leitor, e a animação para e da leitura, o poderoso fertilizante. Esta última é um poderoso fertilizante porque está intimamente associada à emoção e ao significado. Sem contexto não há significado e sem este não há envolvimento. A ausência deste último condiciona a acção do pensar, enfraquecendo na mente a necessidade de ler para ser.
Curiosamente, a era digital, a progressiva instrumentalização da acção humana e a crença no poder tecnológico têm paulatinamente levado a uma perda de consciência no Homem da sua natureza progressiva e encadeada.
Resta-nos a manutenção, ou seja, a conservação. Esta está intimamente associada a uma repetição de procedimentos, mas também à experimentação e exploração da novidade. Esta possibilidade deriva da confiança, segurança e do conhecimento que se adquiriu através da repetição e da sua guarda nas memórias. Precisamos de memórias para aprender pelas experiências. A memória é assim fundamental. As actividades de animação, para e da leitura, constituem aqui os utensílios e os fertilizantes necessários à manutenção e potencialização de um cérebro leitor e de uma mente que empatiza com o acto de ler. No entanto, só se conserva aquilo que existe. Só se torna o jardim mais bonito se existir terra fertilizada, sementes, flores e indivíduos que entendam o quê, como e quando intervir. Não há uma única regra de conservação para jardins bonitos. Também não há uma regra para garantir que por via da promoção da leitura se conduza os indivíduos a se fazerem leitores. Nesse sentido, neste processo de construção do leitor competente e do leitor que se fará, o que existe é a certeza de que o cérebro lê, se bem activado, e que consequentemente a interacção deste com o meio – a mente – um dia poderá despoletar o gosto leitor.
Portanto, cabe aos “jardineiros”, à geração que educa, aos vulgarmente designados imigrantes digitais colocarem as seguintes questões antes de qualquer acção: o que veem quando veem o vosso tempo? O leitor que querem é o leitor que o vosso tempo quer? Talvez, e citando Giorgio Agamben, devêssemos fixar o olhar neste tempo para nele perceber não as luzes, mas o escuro.
Este livro procura que todos os seus leitores fortaleçam a sua capacidade de fixar o olhar no seu tempo, mas também procura encorajá-los a transcendê-lo. Não esperem uma receita, uma negação deste tempo ou uma crença ilimitada no sucesso da intervenção humana no se fazer leitor. Aliás, não esperem nada…. O prazer da leitura está exactamente nisso, não esperar nada e receber tudo. Apenas inspirem-se para criarem o vosso próprio jardim.

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