O falso tweet do falso John Le Carré sobre a falsa morte de J.K. Rowling


Oferecer instrumentos que, perante as incessantes torrentes informativas, permitam distinguir a boa da má informação é uma das tarefas da educação para os media. O certo é que é difícil fabricar tais meios de verificação de qualidade. Quando estão prestes a ficar prontos, já surgiram novos procedimentos para contornar essa averiguação e permitir que a má informação continue a circular impunemente.
Uma mensagem falsa de um falso John Le Carré, difundida através do Twitter, anunciou, há dias, a morte da escritora J.K. Rowling, autora dos livros de Harry Potter. O diário El País contou a história no dia 4 de Janeiro (“El tuit que surgió del frío para mentir”) e recordou outros falsos tweets para afirmar que a ocorrência “ilustra a capacidade do Twitter para amplificar mentiras”.
Estas mentiras podem não ter graves resultados, mas não são desprovidas de consequências. Em Outubro passado, o falso rumor de um cancro de Justin Bieber fez com que os fãs mais incondicionais rapassem o cabelo, pretendendo, com esse gesto, oferecer ao ídolo um testemunho de solidariedade, noticiou o Le Nouvel Observateur (“Justin Bieber : son faux cancer les rase”).
“As pessoas deviam saber que nem tudo o que se diz no Twitter é espontâneo”, afirma Carmen del Riego, presidente da Associação de Imprensa de Madrid, quando confrontada com uma questão formulada pelo diário espanhol: “Como podemos defender-nos da informação falsa?”. E é ainda ela que faz este aviso: “Há profissionais dedicados a condicionar a informação, os debates e os estados de opinião”.
A infundada notícia da morte da mãe de Harry Potter, segundo o El País, serve, sobretudo, para, de novo, evidenciar um dos grandes problemas de Twitter, que o diário reconhece que já o vitimou: “a falta de capacidade da rede social para detectar notícias falsas, verificar contas dos usuários e tomar medidas”. Desta vez, nota o jornal, “foram céleres, desactivando a conta infractora em pouco mais de quatro horas. Mas isto não é a norma”. O que quase sempre acontece é o Twitter actuar apenas após receber insistentes denúncias. Ou seja, a posteriori, “quando a bomba já estalou”.
O El País refere ainda que o Twitter, apesar de recomendar que se encaminhem as denúncias para duas contas específicas, raras vezes fornece respostas directas. A rede social carece de um número de telefone de contacto e pode demorar meses a responder a uma questão enviada pelos media. “É paradoxal que uma ferramenta que revolucionou a comunicação na Internet se maneje de maneira tão unidireccional”.
A notícia termina recordando um estudo do laboratório de investigação do Yahoo!, realizado em 2010, após o terramoto ocorrido no Chile, que permitiu a criação a criação de um algoritmo, uma espécie de detector de veracidade, que usa 16 características para determinar a credibilidade de um tweet. “Não é infalível, mas dá boas pistas: os rumores falsos tinham uma alta probabilidade de incluir um sinal de interrogação ou uma indicação de dúvida ou negação. Também se concluiu que os tweets verdadeiros tendem a ser mais extensos e a incluir um URL. Outra boa recomendação: ver as mensagens anteriores do emissor”.

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