Um Bom Natal, que não exclua a vaca e o burro


A polémica parece nova, mas não é. Há cinquenta anos, tal como tem sucedido por estes dias, havia uma “controvérsia” a propósito da presença ou não da vaca e do burro no presépio. “Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio”, escrevia Aquilino Ribeiro, um dos mais relevantes escritores portugueses do século XX, no Diário de Lisboa de 24 de Dezembro de 1962.
Repartido entre a primeira página e a segunda, o texto do autor de, entre outras obras, S. Banaboião, anacoreta e mártir, A casa grande de Romarigães, Quando os lobos uivam e O romance da raposa, discutia essa e outras “controvérsias à margem da Natividade”, para referir o título do artigo, um dos derradeiros escritos de Aquilino Ribeiro, que morreria poucos meses depois, em consequência de uma doença repentina.
“Ide á corte dos gados, á entrada de Belém no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!”, incentiva, na noite, a voz de um vulto que o escritor cita e que lhe inspira as quatro perguntas que finalizam o texto: “Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?”.

[A edição do Diário de Lisboa de 24 de Dezembro de 1962 pode ser lida integralmente no site da Fundação Mário Soares]

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>