Que imagens consumimos?


As imagens fotojornalísticas de tragédias são, muitas vezes, objecto de intensas controvérsias. O cerne das discussões prende-se, sobretudo, com saber o que pode ou deve ser mostrado. Por estes dias, como o PÚBLICO hoje noticia, estabeleceu-se uma polémica a propósito de uma fotografia, publicada na primeira página da edição de terça-feira do diário The New York Post, de um homem prestes a ser esmagado na linha do metro de Nova Iorque.
Segundo conta a jornalista Kathleen Gomes, a publicação e tratamento das imagens provocaram uma onda de críticas recriminatórias ao jornal, “que foi acusado de mau gosto e de ter ultrapassado os limites da ética jornalística”.
Sobre as questões éticas suscitadas pelo trabalho dos fotojornalistas, não falta bibliografia. Entre nós, há, por exemplo, um ensaio muito interessante de Susan Sontag, intitulado Olhando o sofrimento dos outros (Lisboa: Gótica, 2003). Em 2003, durante uma das edições do Festival Visa pour l’image, que, em França, é um dos palcos privilegiados dos debates sobre as imagens jornalísticas, a ensaísta polemizou com o sociólogo Jean Baudrillard. Susan Sontag criticava-o por ele olhar o trabalho dos fotojornalistas de um modo superficial e por, com a sua teorização do simulacro, sugerir, de modo perverso, que não há um sofrimento real no mundo. “Eu nunca disse que o acontecimento não existe; do que eu duvido é do modo como ele é representado”, respondia Baudrillard.
O trabalho dos fotojornalistas é “extremamente ambíguo”, dizia ele numa entrevista concedida ao diário Le Monde (30 de Agosto de 2003): “Eles estão dentro e fora do acontecimento. Eles estão a priori solidários com as vítimas, mas o seu lugar natural é do outro lado, onde estão os que olham e deixam andar. Eles são irresponsáveis no sentido em que não têm qualquer intervenção. A sua irresponsabilidade está próxima da do consumidor de fotografias. Eles estendem às vítimas o espelho da sua angústia antes de enviar a imagem para o ‘outro lado’ para ser comercializada e consumida”.
E é este “outro lado” que também importa interrogar. Muitas perguntas poderiam ser colocadas, mas fiquemo-nos por cinco muito simples. Que imagens consumimos (mais ou menos inadvertidamente, com muito ou pouco gosto)? Quantas vezes as questionamos? Quantas vezes indagamos com o que é que pactuamos ou que patrocinamos quando queremos ver determinadas imagens? Que imagens nos deviam impor que desviássemos o olhar?
E, já agora, uma pergunta final sobre um procedimento mediático comum, metavoyeurista, digamos assim. Deve-se mostrar aquilo que se lamenta que tenha sido mostrado?

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>