Os malefícios dos livros didácticos vigiados

Os “livros didácticos vigiados”, a mais recente inovação da CourseSmart, uma empresa que lidera a edição de livros e materiais didácticos em formato digital, são o tema de um artigo de Evgueny Morozov, investigador da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos da América, ontem publicado na Folha de S. Paulo.
Depois de lembrar que a CourseSmart, que foi fundada em 2007 por grandes editoras de livros didácticos, como a Pearson e a McGraw-Hill, oferece mais de 20 mil livros didácticos em formato electrónico (cerca de 90% dos títulos didácticos da América do Norte), Evgueny Morozov diz qual é a inovação, anunciada no mês que findou: um sistema online de rastreamento chamado CourseSmart Analytics. A partir dos seus livros didácticos digitais, a CourseSmart pode contabilizar o tempo que os alunos dedicam a cada página de um livro, que capítulos saltam, que passagens suscitam problemas de compreensão. Explica Morozov que “ao acumular e agregar essas informações, a companhia produz um ‘índice de envolvimento’ para cada aluno. Que é em seguida comunicado ao professor”.
Como sempre, a novidade é apresentada como um benefício. Considerando que “não é uma ideia inteiramente insensata – na realidade, é completamente racional”, Morozov julga que o ensino pode melhorar porque os professores conseguirão identificar os conteúdos mais difíceis dos livros didácticos e as editoras serão capazes de mais rapidamente os reformular de modo a que as matérias mais complicadas se tornem acessíveis.
No entanto, acrescenta Morozov, há algo de incómodo na ideia dos “livros didácticos vigiados”. “Imagine uma aula de literatura na qual os alunos tenham a missão de ler sobre a criação do romance 1984, de George Orwell, usando livros didácticos que os espionam enquanto lêem.”
O autor considera que, “mesmo excluídas perversidades como essa, é preciso perguntar de que forma a existência de livros didácticos com recursos de vigilância, como os descritos, afectaria o desenvolvimento do pensamento crítico dos estudantes”.
Lembra Morozov que “os alunos que se limitavam a fingir que estavam aprendendo eugenia no começo do século XX – como os professores que apenas fingiam leccionar a matéria – talvez estivessem violando as normas disciplinares de suas escolas, mas não podem ser criticados pela sua ‘falta de envolvimento’”. Mas “nem todos estão em condições de ostentar independência e recusar a leitura de um livro didáctico insultuoso ou mesmo entediante; às vezes, a resistência é passiva e menos heróica”.
“Os livros didácticos que perscrutem os hábitos de leitura dos alunos não os forçarão magicamente a ler o conteúdo”, nota Morozov. Além de o leitor continuar a ter direito a virar as páginas sem as ler, também os dados contabilizados para calcular um “índice de envolvimento” podem ter efeitos adversos. Por saberem a matéria, alguns alunos podem não ter necessidade de ler tudo, mas o resultado seria um “índice de envolvimento” baixo, que não corresponderia ao conhecimento real da matéria. “Além disso, assim que ‘índices de envolvimento’ vierem a ser incorporados nos esquemas de avaliação da aprendizagem das escolas e das autoridades da educação, haveria forte incentivo para manipular o sistema – talvez convencendo os estudantes a folhear o material o maior número possível de vezes”. Isso, segundo Morozov, proporcionaria “índices de envolvimento” mais elevados, mas que nada nos diriam, uma vez mais, sobre a qualidade da educação. De resto, “qualquer que seja o problema de nossas escolas hoje em dia, certamente não envolve uma falta de metas e objectivos quantificados”.

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